Doença de Chagas por via oral: um risco emergente nos Alimentos

A Doença de Chagas, causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi, é historicamente associada à transmissão vetorial por insetos triatomíneos. No entanto, esse parasita também se destaca no contexto da segurança dos alimentos, ocupando a décima posição entre os principais parasitas transmitidos por alimentos.

Nas últimas décadas, a transmissão oral da Doença de Chagas tem ganhado destaque como uma via relevante de infecção, especialmente em surtos relacionados ao consumo de alimentos contaminados. No Brasil, dados epidemiológicos indicam que, dos mais de mil casos agudos registrados nos primeiros dez anos deste século, até 70% estavam associados à via oral, com uma taxa de letalidade aproximada de 1%. É importante destacar que tanto dados de incidência, quanto a letalidade, devem estar subestimados devido ao subdiagnóstico.
Comparada à transmissão vetorial clássica, a letalidade da transmissão oral é considerada mais elevada, especialmente devido à maior carga parasitária geralmente ingerida e ao diagnóstico frequentemente tardio.

Como ocorre a contaminação oral da Doença de Chagas?

A transmissão oral ocorre pela ingestão de alimentos ou bebidas contaminadas com o T. cruzi, geralmente através de:
• Fezes de triatomíneos infectados;
• Secreções de animais infectados (menos frequente);
• Insetos triturados acidentalmente durante o processamento do alimento;
Diferentemente da via vetorial clássica, a transmissão oral costuma estar associada a surtos coletivos e a quadros clínicos mais graves.

Alimentos mais associados à transmissão oral

Diversos surtos de Doença de Chagas oral já foram relacionados a alimentos de origem vegetal consumidos in natura ou minimamente processados, com destaque para:
• Açaí
• Caldo de cana
• Sucos naturais
• Polpas de frutas artesanais

O açaí é o alimento mais associado aos surtos de transmissão oral da doença de Chagas. Entre os fatores apontados na literatura para explicar a associação entre o açaí e surtos de transmissão oral está a possibilidade de contaminação dos frutos durante a colheita, transporte e processamento, especialmente em ambientes com presença de triatomíneos. Uma das hipóteses para a elevada taxa de contaminação do açaí é que, em muitas regiões produtoras, ele é preparado à noite ou de madrugada, em ambientes abertos ou pouco protegidos, com uso de iluminação artificial intensa, o que atrai o triatomíneo e favorece sua maceração acidental juntamente com o fruto.
Após a ingestão do alimento contaminado, os sintomas geralmente surgem entre 3 e 22 dias. Esse período corresponde à capacidade do parasita de invadir e multiplicar-se na mucosa gástrica e em outros tecidos do hospedeiro.

 

Figura 1: Representação esquemática da transmissão oral de Trypanosoma cruzi associada ao consumo de açaí contaminado. Triatomíneos infectados podem contaminar frutos de açaí durante a colheita, transporte ou processamento. A ingestão de polpa contaminada constitui uma importante via de transmissão da doença de Chagas na região amazônica. Figura elaborada pelos autores com auxílio de inteligência artificial generativa (ChatGPT).

 

Por que a Doença de Chagas oral é um desafio para a Food Safety?

A transmissão oral do T. cruzi se configura um desafio significativo para a segurança dos alimentos, uma vez que o protozoário pode permanecer viável por períodos suficientes para permitir a transmissão ao consumidor, especialmente quando os alimentos são consumidos in natura ou minimamente processados, mas também quando se encontram refrigerados ou congelados.
A ausência de tratamento térmico antes do consumo, aliado à dificuldade de detecção do patógeno em análises laboratoriais de rotina, contribui para o aumento do risco sanitário. Outro aspecto relevante é a possibilidade de ingestão de elevada carga parasitária, característica frequentemente observada em surtos de transmissão oral. Esses fatores, em conjunto, ampliam o risco de infecção humana e estão associados a quadros clínicos mais graves, reforçando a importância da adoção de medidas preventivas ao longo da cadeia produtiva destes alimentos.

Solução: A pasteurização

Uma estratégia eficaz para se combater a rota oral é o processamento térmico do alimento, em especial pelo processo de pasteurização. No caso do açaí, esse tratamento térmico consiste no bombeamento do produto para um trocador de calor do tipo tubular, onde é submetido a temperaturas entre 80 °C e 85 °C por aproximadamente 10 segundos, seguido de resfriamento imediato no próprio equipamento, até atingir cerca de 5 °C. Esse processo tem como principal objetivo reduzir a carga microbiana e inativar microrganismos patogênicos, incluindo formas infectantes de Trypanosoma cruzi, contribuindo para a segurança do produto a ser consumido.
Embora seja uma etapa amplamente utilizada na indústria de alimentos, sua aplicação em frutas exige maior cuidado, já que o calor pode afetar características sensoriais e nutricionais, como sabor, cor e valor nutricional.
Por esse motivo, a pasteurização costuma ser combinada com outros métodos de conservação, como a refrigeração e o congelamento. Após o tratamento térmico, o congelamento auxilia na preservação da qualidade sensorial e microbiológica do produto durante o armazenamento.

RDC ANVISA nº 218/2005

No que diz respeito à regulação técnica dos procedimentos de manipulação higiênico-sanitária de alimentos e bebidas de origem vegetal, a ANVISA publicou a RDC nº 218/2005, com o objetivo de estabelecer procedimentos capazes de prevenir transmissão hídrica e alimentar (DTHA), incluindo a Doença de Chagas. No contexto da transmissão oral, os alimentos à base de açaí merecem atenção especial, uma vez que apresentam potencial risco sanitário quando produzidos e comercializados sem o devido controle. A ausência ou fragilidade desses controles ao longo da cadeia produtiva pode favorecer a contaminação do alimento e aumentar o risco de transmissão do T. cruzi por via oral.

Conclusão

A transmissão oral da Doença de Chagas representa um importante desafio para a segurança dos alimentos no Brasil, especialmente em produtos de origem vegetal consumidos com processamento mínimo. A adoção de boas práticas de fabricação, associada ao tratamento térmico adequado e ao cumprimento da legislação sanitária vigente, constitui a principal estratégia para reduzir o risco de transmissão do Trypanosoma cruzi por alimentos.

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