1. Introdução
O café possui grande importância econômica no mercado mundial de alimentos e bebidas, destacando-se sua diversidade de perfis sensoriais (Deliza, 2021). A qualidade da bebida é influenciada por fatores genéticos, ambientais e tecnológicos, incluindo a espécie cultivada, origem dos grãos, processamento pós-colheita, torra, moagem e preparo, que interferem diretamente nas características de aroma, sabor, acidez, corpo e aceitação sensorial (Tieghi et al., 2024). Entre essas operações, a torra apresenta papel central, pois promove reações químicas responsáveis pela formação da cor marrom característica, pelo desenvolvimento de compostos aromáticos e pela modificação do sabor, da acidez, do corpo e do amargor da bebida (Freitas et al., 2024; Pires et al., 2024).
Durante a torrefação, os grãos de café passam por transferência de calor e massa, perda de umidade, expansão estrutural e reações químicas, como “Maillard”, caramelização e pirólise, que modificam carboidratos, ácidos orgânicos, proteínas, lipídios e compostos fenólicos, resultando na formação de moléculas voláteis responsáveis pelo aroma característico do café torrado (Freitas et al., 2024). O grau de torra influencia diretamente o perfil sensorial do café, pois torras mais leves preservam atributos como acidez e notas delicadas, enquanto torras mais intensas favorecem maior corpo, amargor e notas associadas ao tratamento térmico, sendo necessário definir o ponto de torra conforme a matéria-prima, o perfil sensorial desejado e a preferência do consumidor (Asiah et al., 2025).
Historicamente, o controle do grau de torra foi realizado por inspeção visual, experiência do torrefador e comparação com padrões de cor (Pires et al., 2024). Embora a avaliação prática da torra seja relevante, o uso da Escala Agtron permite reduzir a subjetividade do processo ao relacionar a cor do café torrado a valores instrumentais de reflectância, favorecendo a padronização entre lotes e o controle de qualidade na cadeia produtiva (Vanegas-Ayala; Leal-Lara; Barón-Velandia, 2023).
2. Escala Agtron e sua relação com a torra
A Escala Agtron classifica o grau de torra do café por meio da medição instrumental da cor, geralmente por reflectância, atribuindo valores numéricos que reduzem a subjetividade da avaliação visual e favorecem a padronização entre torrefadores, laboratórios, compradores e consumidores (Vanegas-Ayala; Leal-Lara; Barón-Velandia, 2023; Specialty Coffee Association, 2024). Nessa escala, valores mais altos indicam torras mais claras, enquanto valores mais baixos correspondem a torras mais escuras, conforme ilustrado na Figura 1, sendo essa diferenciação relevante, uma vez que pequenas variações de cor podem refletir mudanças na composição química e na percepção sensorial da bebida (Lopes Junior et al., 2022).
Figura 1 – Classificação do grau de torra por meio da Escala Agtron.
Fonte: EPAMIG (2023).
No café torrado e moído, a cor representa um indicador indireto do avanço das reações térmicas (Pires et al., 2024). Estudos recentes indicam que a ausência de padrões amplamente adotados para descrever o grau de torra ainda dificulta a padronização e a comunicação técnica na cadeia do café, tornando a avaliação instrumental da cor, como a escala Agtron, uma ferramenta importante para reduzir a subjetividade entre lotes e operadores (Vanegas-Ayala; Leal-Lara; Barón-Velandia, 2023; Anokye-Bempah; Donis-González; Ristenpart, 2024). De modo geral, torras claras, associadas a maior luminosidade e valores Agtron mais elevados, tendem a preservar maior acidez e menor corpo, enquanto torras médias favorecem maior equilíbrio sensorial e torras escuras apresentam menor acidez, maior amargor e corpo mais pronunciado; contudo, essa relação não deve ser analisada isoladamente, pois a qualidade final também depende da matéria-prima, das condições de armazenamento, da moagem e do método de extração (Habara; Horiguchi, 2024; Gantner et al., 2024; Asiah et al., 2025).
A aplicação da escala contribui para a reprodutibilidade industrial, pois permite estabelecer especificações de qualidade e comparar diferentes lotes com maior precisão (Pires et al., 2024). Assim, abordagens instrumentais apresentam potencial para reduzir a subjetividade das avaliações sensoriais do café, ao converter atributos de qualidade em dados objetivos e quantificáveis, contribuindo para processos mais consistentes de controle de qualidade e padronização (Urugo et al., 2025).
3. Transformações físico-químicas durante a torra e qualidade sensorial
Durante a torra, as alterações de cor dos grãos indicam transformações químicas importantes na matriz do café, uma vez que diferentes perfis de torra modificam compostos voláteis e não voláteis e permitem relacionar a intensidade do processamento térmico às características químicas e sensoriais da bebida (Alcantara et al., 2025). Ao compararem cafés arábica e robusta submetidos a diferentes condições de tempo e temperatura, Freitas et al. (2024) observaram alterações nos teores de frutose, glicose, ácidos orgânicos e melanoidinas, além de mudanças na aceitação sensorial por provadores treinados e consumidores, demonstrando que a torra não representa apenas o escurecimento dos grãos, mas um processo tecnológico capaz de favorecer ou comprometer atributos específicos de qualidade.
Os açúcares presentes no café atuam como precursores relevantes das reações de “Maillard” e da caramelização, contribuindo para a formação de compostos associados à cor, ao aroma e às notas doces e tostadas da bebida, enquanto as melanoidinas, formadas progressivamente durante a torra, intensificam a coloração escura e se relacionam a propriedades antioxidantes e sensoriais do café (Lee; Choi; Lee, 2024). Já os ácidos orgânicos influenciam diretamente a acidez percebida e o frescor da bebida, sendo sua dinâmica afetada pelo perfil de torra, pela origem dos grãos e pelas condições de processamento (Anokye-Bempah et al., 2024). Portanto, a avaliação da cor pela escala Agtron deve ser compreendida como uma ferramenta prática integrada a outras informações físico-químicas e sensoriais, e não como critério isolado de qualidade (Vanegas-Ayala; Leal-Lara; Barón-Velandia, 2023).
A moagem também interfere na qualidade do produto após a torra. Partículas mais finas aumentam a área de contato com o oxigênio e com a água durante a extração, podendo acelerar processos oxidativos e alterar a intensidade da bebida (Pimenta; Angélico; Chalfoun, 2018). Por outro lado, moagens muito grossas podem reduzir a extração de compostos solúveis, pois a granulometria interfere no rendimento de extração e na percepção de atributos como acidez e amargor. Assim, a padronização da torra deve estar alinhada ao controle da granulometria, bem como às condições de embalagem e armazenamento, uma vez que a estabilidade dos compostos voláteis e a preservação do aroma são fundamentais para a qualidade sensorial e a aceitação do café pelo consumidor (Habara; Horiguchi, 2024; Gantner et al., 2024).
4. Limitações do método Agtron e tecnologias complementares
Apesar de sua relevância para a padronização da torra, o método Agtron apresenta limitações práticas, pois o uso de analisadores específicos pode demandar maior investimento, além de calibração, controle das condições de leitura e treinamento operacional, fatores que ajudam a explicar por que parte dos profissionais ainda recorre à avaliação visual, mesmo sendo ela mais subjetiva e suscetível à influência da iluminação e da percepção individual (Anokye-Bempah; Donis-González; Ristenpart, 2024). Além disso, a leitura instrumental da cor pode ser influenciada pela forma de preparo da amostra, uma vez que estudos com sensores colorimétricos e a escala Agtron utilizam amostras moídas e procedimentos padronizados de coleta, moagem e leitura para estimar o grau de torra com maior precisão, evidenciando a necessidade de controlar a granulometria, a homogeneidade da amostra e as condições de análise (Vanegas-Ayala; Leal-Lara; Barón-Velandia, 2023).
Como alternativa, estudos recentes de Pires et al. (2024), avaliaram dispositivos colorimétricos, sensores e imagens digitais obtidas por “smartphone” associados a modelos quimiométricos, demonstrando que colorímetros de bancada e imagens digitais podem predizer valores Agtron de cafés inteiros e moídos com elevado coeficiente de determinação e baixos erros de validação, especialmente quando associados a modelos de regressão e aprendizagem estatística. Isso amplia a possibilidade de digitalização do controle de qualidade por meio de equipamentos mais acessíveis e de operação simplificada.
A espectroscopia no infravermelho próximo, associada a modelos quimiométricos, tem sido estudada como ferramenta rápida e não destrutiva para acompanhar a torra do café, discriminar diferentes graus de torra e predizer compostos voláteis relacionados ao aroma e à qualidade da bebida, contribuindo para uma avaliação mais completa quando integrada à cor instrumental e à análise sensorial (Green et al., 2024). Além disso, o uso da espectroscopia no infravermelho próximo com transformada de Fourier (FT-NIR), em tempo real, permite monitorar mudanças químico-físicas dos grãos durante o processamento térmico, favorecendo maior controle do ponto final de torra, embora a confiabilidade desses métodos dependa de modelos matemáticos robustos e calibração com amostras representativas (Grassi et al., 2023).
A torra de café especial em micro-ondas doméstico também tem sido discutida como alternativa acessível no contexto da “quarta onda do café”, pois permite o preparo personalizado e o consumo de café mais fresco em pequenas quantidades, sendo que tempos entre seis e sete minutos favoreceram torras adequadas, enquanto períodos insuficientes resultaram em grãos subdesenvolvidos e, tempos excessivos, comprometeram a qualidade. Assim, existem evidências de que tecnologia doméstica, como o micro-ondas, pode apresentar potencial experimental, embora não substitua equipamentos industriais de torrefação (Martins et al., 2024).
5. Considerações finais
O controle de qualidade durante a torra dos grãos é essencial para garantir padrões de excelência da bebida. A aplicação de métodos como a Escala Agtron e a análise da moagem asseguram que o produto final atenda às expectativas de consumidores cada vez mais exigentes, reforçando a relevância do café como símbolo cultural e econômico. No entanto, a cor deve ser interpretada em conjunto com variáveis químicas, físicas e sensoriais. As limitações relacionadas ao custo, à calibração e à disponibilidade de equipamentos específicos como o espectrofotômetro Agtron reforçam a importância de tecnologias complementares para o controle da torra.
Referências
- ALCANTARA, G. M. R. N.; MARTINS, L. C.; GOMES, W. P. C.; DRESCH, D.; ROCHA, F. R. P.; MELCHERT, W. R. Effect of roasting on chemical composition of coffee. Food Chemistry, v. 477, 143169, 2025.
- ANOKYE-BEMPAH, L.; DONIS-GONZÁLEZ, I. R.; RISTENPART, W. D. What color is your coffee? Specialty Coffee Association, v. 25, 2024.
- ANOKYE-BEMPAH, L.; STYCZYNSKI, T.; FERNANDES, N. A. T.; GERVAY-HAGUE, J.; RISTENPART, W. D.; DONIS-GONZÁLEZ, I. R. The effect of roast profiles on the dynamics of titratable acidity during coffee roasting. Scientific Reports, v. 14, 8237, 2024.
- ASIAH, N.; SUYANTINI, K. E.; NURALAMSYAH, M. R.; ASTUTI, R. M.; DAVID, W.; HIDAYAT, S. G. Physical characteristic and sensory profile of Lampung Robusta coffee at various roasting degree. Pelita Perkebunan, v. 41, n. 1, p. 8-21, 2025.
- DELIZA, R. Tecnologia de Alimentos – Café. Embrapa Agroindústria de Alimentos. 2021. Disponível em: https://www.embrapa.br/agencia-de-informacao-tecnologica/tematicas/tecnologia-de-alimentos/processos/grupos-de-alimentos/cafe. Acesso em: 21 maio 2026.
- EMPRESA DE PESQUISA AGROPECUÁRIA DE MINAS GERAIS – EPAMIG. Guia do consumidor: como escolher o café ideal para você. Belo Horizonte: EPAMIG, 2023.
- FREITAS, V. V.; BORGES, L. L. R.; CASTRO, G. A. D.; ALMEIDA, L. F.; CREPALDE, L. T.; KOBI, H. B.; VIDIGAL, M. C. T. R.; SANTOS, M. H.; FERNANDES, S. A.; MAITAN-ALFENAS, G. P.; STRINGHETA, P. C. Influence of roasting levels on chemical composition and sensory quality of Arabica and Robusta coffee: a comparative study. Food Bioscience, v. 59, 104171, 2024.
- GANTNER, M.; KOSTYRA, E.; GÓRSKA-HORCZYCZAK, E.; PIOTROWSKA, A. Effect of temperature and storage on coffee’s volatile compound profile and sensory characteristics. Foods, v. 13, n. 24, 3995, 2024.
- GRASSI, S.; GIRAUDO, A.; NOVARA, C.; CAVALLINI, N.; GEOBALDO, F.; CASIRAGHI, E.; SAVORANI, F. Monitoring chemical changes of coffee beans during roasting using real-time NIR spectroscopy and chemometrics. Food Analytical Methods, v. 16, p. 947-960, 2023.
- GREEN, S.; FANNING, E.; SIM, J.; EYRES, G. T.; FREW, R.; KEBEDE, B. The potential of NIR spectroscopy and chemometrics to discriminate roast degrees and predict volatiles in coffee. Molecules, v. 29, n. 2, 318, 2024.
- HABARA, M.; HORIGUCHI, T. Impact of coffee roasting and grind size on acidity and bitterness: sensory evaluation using electronic tongue. Chemosensors, v. 12, n. 9, 196, 2024.
- LEE, S.; CHOI, E.; LEE, K.-G. Kinetic modelling of Maillard reaction products and protein content during roasting of coffee beans. LWT, v. 211, 116950, 2024.
- LOPES JUNIOR, H.; TEIXEIRA, W. B.; FELIX, J. V. A.; KOLLN, A. M.; MARCOLINO, D. H.; CAVALCANTE, D. E. Qualidade do café torrado e moído comercializados em feiras livres no estado de Rondônia. Research, Society and Development, v. 11, n. 10, e71111032382, 2022.
- MARTINS, G. M. B.; SILVA, R. V.; OLIVEIRA, N. S.; GUIMARÃES, C. M. Método alternativo para torra de café especial utilizando o micro-ondas doméstico. Revista Caderno Pedagógico, v. 21, n. 3, p. 1-18, 2024.
- PIMENTA, C. J.; ANGÉLICO, C. L.; CHALFOUN, S. M. Desafios na qualidade de café: aspectos cultural, químico e microbiológico. Ciência e Agrotecnologia, v. 42, n. 4, p. 337-349, 2018.
- PIRES, F. C.; PEREIRA, R. G. F. A.; BAQUETA, M. R.; VALDERRAMA, P.; ROCHA, R. A. Near-infrared spectroscopy and multivariate calibration as an alternative to the Agtron to predict roasting degrees in coffee beans and ground coffees. Food Chemistry, v. 365, 130471, 2021.
- PIRES, F. C.; MUTZ, Y. S.; CARVALHO, T. C. L.; LORENZO, N. D.; PEREIRA, R. G. F. A.; ROCHA, R. A.; NUNES, C. A. Feasibility of using colorimetric devices for whole and ground coffee roasting degrees prediction. Journal of the Science of Food and Agriculture, v. 104, p. 5435-5441, 2024.
- SPECIALTY COFFEE ASSOCIATION. What color is your coffee? 25, Issue 21, 2024. Disponível em: site da Specialty Coffee Association. Acesso em: 20 maio 2026.
- TIEGHI, H.; PEREIRA, L. A.; VIANA, G. S.; KATCHBORIAN, A.; SANTANA, D. B.; MINCATO, R. L.; DIAS, D. F.; PAULA, D. A. C.; SOARES, M. G.; ARAÚJO, W. G.; BUENO, P. C. P. Effects of geographical origin and post-harvesting processing on the bioactive compounds and sensory quality of Brazilian specialty coffee beans. Food Research International, v. 186, p. 114346, 2024.
- URUGO, M. M.; WORKU, M.; ASTATKIE, T.; BOECKX, P.; TOLA, Y. B.; GETACHEW, P. The prospects of replacing the sensory coffee quality assessment methods with objective, instrument-based approaches: a review. Trends in Food Science & Technology, v. 163, 105210, 2025.
- VANEGAS-AYALA, S.-C.; LEAL-LARA, D.-D.; BARÓN-VELANDIA, J. Roasted coffee beans characterization through optoelectronic color sensing. Coffee Science, v. 18, e182156, 2023.
