Espirulina como ingrediente superfood: por que incluir na alimentação

Spirulina; chlorella and wheatgrass. Green food supplement. Green pills; wheatgrass blades and ground powder isolated on white background. Healthy lifestyle.

Uma busca por reestruturação e atualização das dietas tem levado a um aumento na demanda por alimentos que exercem as características de múltiplos benefícios, entre os quais os superalimentos estão incluídos, na tentativa de estabelecer padrões mais saudáveis ​​(Magrach; Sanz, 2020). O termo “superalimento” ainda não conta com uma definição oficial, científica ou médica, mas Jellife (1966) foi o autor que deu a origem, criado na década de 60 como alimentos capazes de combater a desnutrição.

Desde os anos 2000, passou por remodelações, e o termo é utilizado como um produto de marketing para chamar a atenção a determinado produto. Diferentes autores abordam o termo de formas variadas, como Magrach e Sanz (2020) que definem “superfood” como “produtos agrícolas com quantidades extraordinárias de nutrientes ou ingredientes bioativos, com propriedades biológicas específicas e efeitos positivos na saúde física e emocional”. Santunione, Montevecchi (2025) traz uma outra abordagem, como “um grupo de alimentos ricos em nutrientes e compostos bioativos, com efeitos positivos na saúde humana”.

Os superalimentos podem diferir em sua construção discursiva dos alimentos  funcionais. Os argumentos se embasam que os superfoods apresentam uma composição “natural” e com qualidade “tradicionais” e “exóticas”, quando comparados com os alimentos funcionais, que precisam ser enriquecidos por compostos bioativos com propriedades funcionais para oferecer um reforço imunológico (Picone; Mengucci; Capozzi, 2022). Para uso e comercialização, no Brasil, a ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) permite desde que o produto final no qual o microrganismo tenha sido adicionado esteja devidamente registrado (RDC 243/2018).

Alguns pesquisadores destacam ingredientes exóticos como açaí, espirulina, goji berry, aveia, chia, matcha, cúrcuma, entre outros. A verdade é que não existe um consenso único; o termo superfood pode refletir tendências e estudos que estão em constantes revoluções. As microalgas surgiram como importante ingrediente e particularmente a espirulina (Arthrospira platensis) tem sido utilizada como uma fonte de nutrientes. A espirulina é conhecida como microalga verde-azulada (Kumar et al., 2022) e também uma cianobactéria filamentosa, multicelular, facilmente adaptável, não tóxica e com alta taxa de crescimento aquático (Shah et al., 2024). A espirulina acaba sendo uma opção atraente que está crescendo em popularidade, como parte da gastronomia inovadora e na adição em novos produtos culinários (Figueroa et al., 2021).

Essa cianobactéria é cultivada naturalmente em regiões tropicais e subtropicais como Ásia, Havaí, México e África Central. A Food and Drug Administration (FDA) concedeu-lhe a classificação GRAS (Generally Recognized as Safe – Geralmente Reconhecida como Segura). A alegação GRAS foi apoiada principalmente pelos últimos dez anos de pesquisa animal e ensaios clínicos conduzidos em humanos (Gogna et al., 2023).

A espirulina apresenta um extraordinário teor de proteína (60–70% em peso seco), e se destaca também por altas quantidades de vitaminas, minerais, carotenoides, ácidos graxos essenciais, antioxidantes e ficocianina (Kumar et al., 2022). Essas características tornam a espirulina um superfood ou alimento funcional, pois vão além das características de produtos básicos (Wells et al., 2017). A sua incorporação ativa em dietas alimentares pode ter o potencial de diminuir as deficiências nutricionais específicas de cada indivíduo , além do potencial de proporcionar benefícios paralelos à saúde, como reduzir o estresse e melhorar a qualidade do sono (Moradi et al. (2021).

Devido aos seus compostos bioativos (Figura 1), é utilizada como um ingrediente alimentar funcional, devido às suas propriedades anti-inflamatórias, antioxidantes e imunomoduladoras (AlFadhly et al., 2022), contribuindo para os efeitos terapêuticos e o bem-estar geral do indivíduo. Os principais componentes antioxidantes da espirulina são a ficocianina, carotenoides, clorofila, compostos fenólicos, vitaminas C e E, e a enzima superóxido dismutase, que elimina os radicais livres. Esta cianobactéria também é rica em cálcio, fósforo, magnésio, ferro e potássio, que são elementos vitais que o corpo humano precisa para manter funções saudáveis. Além disso, ela serve como uma fonte alternativa de ácido γ-linolênico e ácidos graxos insaturados essenciais. Vitaminas específicas lipossolúveis e hidrossolúveis como a provitamina A e a vitamina B12, são encontradas em altos valores na sua composição (Benelhadj et al. 2016).

Em um estudo recente, foi administrada espirulina em ratos e os resultados se mostraram promissores no controle da progressão do diabetes. Espirulina juntamente com glimepirida reduziram os níveis de glicose no sangue de forma eficaz. Foi observada uma melhora da função renal e defesa antioxidante com a utilização desses compostos, concluindo que a espirulina demonstra benefícios significativos para diabéticos (Alrasheedi; Basnawi; Althaiban, 2024).

Figura 1- Alguns compostos encontrados na espirulina

Fonte: Os autores.

Dessa maneira, a espirulina é reconhecida como um superalimento devido ao seu alto teor de nutrientes, sendo uma tendência de busca quando se fala de alimentos naturais e benéficos à saúde. Assim, a espirulina destaca- se como uma fonte sustentável e nutritiva que contribui para a alimentação saudável e para a inovação na gastronomia moderna.

Referências

● AlFadhly, N. K. Z.; Alhelfi, N.; Altemimi, A. B.; Verma, D. K.; Cacciola, F.; Narayanank, A. Trends and Technological Advancements in the Possible Food Applications of Spirulina and Their Health Benefits: A Review. Molecules, vol. 27, p. 5584, 2022. DOI: 10.3390/molecules27175584

● Alrasheedi, A. A.; Basnawi, A. I.; Althaiban, M. A. I, Effects of Spirulina platensis microalgae on renal function and antioxidant defence in rats with streptozotocin-induced diabetes. Journal of Functional Food, vol. 122, 106485, 2024. DOI: 10.1016/j.jff.2024.106485

● Benelhadj, S.; Gharsallaoui, P.; Degraeve, P.; Attia, H.; Ghorber, D. Effect of pH on the functional properties of Arthrospira (Spirulina) platensis protein isolate. Food Chemistry, vol. 194, p. 1056-1063, 2016. DOI:  10.1016/j.foodchem.2015.08.133

● BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Resolução da Diretoria Colegiada – RDC nº 243, de 26 de julho de 2018. Dispõe sobre os requisitos sanitários dos suplementos alimentares. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 26 jul. 2018.

● Figueroa, V.; Farfán, M.; Aguilera, J. M. Seaweeds as novel foods and source of culinary flavors. Food Review International, vol. 39, p. 1-26, 2021. DOI: 10.1080/87559129.2021.1892749

● Gogna, S.; Kaur, J.; Sharma, K.; Prasad, R.; Singh, J.; Bhadariya, V.; Kumar, P.; Jarial, S. Spirulina- An Edible Cyanobacterium with Potential Therapeutic Health Benefits and Toxicological Consequences. Journal of the American Nutrition Association, vol. 42, p. 559-572, 2023. DOI: 10.1080/27697061.2022.2103852

● Jelliffe, D. B. “The assessment of the nutritional status of the community (with special reference to field surveys in developing regions of the world),” in WHO monograph series No. 53 (Geneva: World Health Organization), 271.

● Kumar, A.; Ramamoorthy, D.; Verma, D. K.; Kumar, A.; Kumar, N.; Kanak, K. R.; Marwein, B. M.; Mohan, K. Antioxidant and phytonutrient activities of Spirulina platensis. Energy Nexus, vol. 6, 100070, 2022. DOI: 10.1016/j.nexus.2022.100070

● Magrach, A.; Sanz, M. J. Environmental and social consequences of the increase in the demand for ‘superfoods’ world-diet. People Nature, vol. 2, p. 267-278, 2020. DOI: 10.1002/pan3.10085

● Santunione, G.; Montevecchi, G. Superfoods: exploring sustainability perspectives between nutrient synthesizers and accumulators. Frontiers Food Science Technology, vol. 6, 2025. DOI: 10.3389/frfst.2025.1507933

● Moradi, S.; Zobeiri, M.; Feizi, A.; Clark, C. C. T.; Entezairi, M. H. The effects of spirulina (Arthrospira platensis) supplementation on anthropometric indices, blood pressure, sleep quality, mental health, fatigue status and quality of life in patients with ulcerative colitis: a randomized, double-blinded, placebo-controlled trial. International Journal Clinical Practice, vol. 75, e14472, 2021. DOI: 10.1111/ijcp.14472

● Picone, G.; Mengucci, C.; Capozzim F. The NMR added value to the green foodomics perspective: advances by machine learning to the holistic view on food and nutrition. Magnetic Resonance Chemistry: RMC, vol. 60, p. 590-596, 2022. DOI: 10.1002/mrc.5257

● Shah, M. A. R.; Zhu, F.; Cui, Y.; Hu, X.; Chen, H.; Kayani, S.-I, Huo, S. Mechanistic insights into the nutritional and therapeutic potential of Spirulina (Arthrospira) spp.: Challenges and opportunities. Trends in Food Science Technology, vol. 151, 104648, 2024. DOI: 10.1016/j.tifs.2024.104648

● Wells, M. L.; Potin, P.; Craigie, J. S.; Raven, J. A.; Merchant, S. S.; Helliwell, K. E.; Smith, A. G.; Camire, M. E.; Brawley, S. H. Algae as nutritional and functional food sources: revisiting our understanding. Journal Applied Phycology, vol. 29, p. 949-982, 2017. DOI: 10.1007/s10811-016-0974-5

Sair da versão mobile