Os consumidores estão cada vez mais cientes do impacto da alimentação na saúde. Nos últimos 50 anos, a demanda por produtos com menos aditivos, conservantes e ingredientes quimicamente sintetizados cresceu significativamente, devido à conscientização dos consumidores que associam tais substâncias a possíveis riscos à saúde, forçando a indústria a explorar opções saudáveis (Chauhan; Rao, 2024). Fernandes et al. (2024) mostram que essa busca por alimentos mais saudáveis está diretamente ligada à valorização de ingredientes simples e familiares, que transmitem confiança e transparência.
A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) defende um sistema alimentar sustentável que priorize a segurança dos alimentos e a nutrição em todas as etapas, da produção ao consumo (Mrabet, 2023). Entre as alternativas da indústria para conservação sem o uso de conservantes químicos estão os métodos pasteurização (Jingjing; Zhang; Yang, 2025), esterilização, resfriamento, congelamento, aquecimento ôhmico, micro-ondas e radiofrequência (Tavman et al., 2019), além da inibição do contato do alimento com o oxigênio. No entanto, essas técnicas podem impactar negativamente o valor nutricional dos alimentos, reduzindo a disponibilidade de micronutrientes e compostos bioativos (Tavman et al., 2019).
Conforme Rudt et al. (2025), dentre os compostos bioativos que podem ser afetados pelo tratamento térmico estão os lipofílicos, que são substâncias solúveis em lipídios ou solventes não polares. Esses compostos são nutrientes essenciais que desempenham papel significativo na dieta humana, incluindo os fosfolipídios, vitaminas lipofílicas como A, D, E e K, carotenoides, ácidos graxos poliinsaturados (PUFA) e óleos essenciais (Banasaz et al., 2020).
Os fosfolipídios são unidades formadoras das membranas celulares. Esta última é formada por bicamadas de grupos que possuem uma extremidade polar, composta por fosfato que promovem interação hidrofílica com as fases aquosas interna e externa, e por uma cadeia alifática que possibilitam a interação hidrofóbica e formam, assim, a bicamada lipídica das membranas celulares (Jash e Rizvi, 2022). Dentre as funções desta camada, destacam-se a compartimentalização celular, limitação da perda de água do corpo, que atua como barreira seletivamente permeável, bem como proteção contra os efeitos adversos do ambiente externo, além de participar na comunicação e sinalização celular (Dissalvo, 2015). Além disso, os fosfolipídios formam grandes vesículas multilamelares ou outras estruturas de bicamada lamelar em solventes aquosos, as quais são denominadas lipossomas. (Motlaq et al., 2025).
Lipossomas
Os lipossomas possuem tamanhos variados, sendo denominados nanolipossomas quando possuem menos de 1000 nm, uma vez que partículas coloidais entre 1 e 1000 nm são geralmente classificadas como nanopartículas (Gulzar; Benjakul, 2020). Sua microestrutura, que está ilustrada na Figura 1, permite o encapsulamento de substâncias hidrofílicas e hidrofóbicas, tornando-os valiosos para aplicações farmacêuticas, cosméticas e na indústria de alimentos.
Na indústria alimentícia, os lipossomas apresentam um grande potencial, pois protegem ingredientes específicos ao encapsulá los, ampliando sua eficácia (Da et al., 2025). Na indústria farmacêutica, os lipossomas são utilizados em medicamentos encapsulando-os em bicamadas semelhantes a lipídios (Liu et al., 2021) mantendo a estabilidade do composto, garantindo a sua biodisponibilidade (Sereti et al., 2025) e prolongando sua liberação no ambiente (Xu et al., 2022).
A busca por alternativas tecnológicas que preservem os micronutrientes e compostos bioativos ao longo da cadeia de processamento dos alimentos está sendo cada vez mais pesquisada. Vitaminas como B1, B2, B12 e E, por exemplo, sofrem redução qualitativamente após a pasteurização do leite (Lalwani et al., 2024). Dentre as tecnologias promissoras, destaca-se a encapsulação com lipossomas, amplamente utilizada para melhorar a estabilidade, solubilidade e biodisponibilidade de compostos bioativos (Fallahasghari; Chronakis; Mendes, 2025).
Aplicações dos lipossomas
As aplicações do encapsulamento com lipossomas têm demonstrado resultados positivos significativos. No estudo de Liu et al. (2021) foi evidenciado que a preparação de um lipossoma de nitroxila contribuiu para retardar consideravelmente o escurecimento de frutos de tomate, reduzindo a atividade das enzimas polifenol oxidase e peroxidase, além de inibir danos nas membranas. Tais efeitos resultaram no aumento do período de conservação dos frutos de tomate, valorizando suas propriedades sensoriais e nutricionais, incluindo compostos bioativos com atividades antioxidantes e anticancerígenas.
No estudo de Xu et al. (2022) observou-se que lipossomas contendo óleo de árvore do chá apresentaram uma abordagem promissora para controlar de forma eficaz a podridão parda, além de prevenir a deterioração da qualidade pós-colheita de pêssegos. Efeito semelhante foi verificado por Dhital et al. (2018) que encapsularam limoneno em estrutura de lipossomas e o usaram como um revestimento comestível para morangos resultando na redução da podridão pós- colheita, mantendo a qualidade da fruta e estendendo a vida útil.
No experimento de Risaliti et al. (2020), o óleo essencial de Artemisia annua L. (OEA) foi extraído e encapsulado com lipossomas. A eficiência dos lipossomas carregados com OEA foi testada in vitro contra diferentes cepas do fungo Candida e comprovada a redução da volatilidade do medicamento, otimizando a estabilidade e aumentando sua segurança, preservando e aumentando sua eficácia clínica, além de apresentar que, após 14h, se têm a liberação completa do óleo contido nas vesículas (Bilia et al., 2019).
A propensão à deterioração oxidativa de ácidos graxos poli-insaturados (PUFAs) oriundos do óleo de camarão, resultando na formação de sabor desagradável indesejável estudada por Gulzar e Benjakul (2020) fez com que os mesmo autores se aprofundassem em experimentos com o uso de nanolipossomos e concluíram que este último pode ser utilizado para encapsular óleo de peixe e óleo de camarão, oferecendo vantagens como maior estabilidade oxidativa, melhor retenção de ácidos graxos n-3 e mascaramento do odor de peixe.
No ramo farmacêutico, os lipossomas têm sido usados efetivamente como um mecanismo de administração de medicamentos para condições de asma, câncer de pulmão, lesão pulmonar, fibrose pulmonar idiopática, tuberculose e DPOC (Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica) (Chan et al., 2021). As investigações clínicas sobre medicamentos encapsulados em lipossomas realizadas no estudo de Shaikh et al. (2025) demonstraram características farmacocinéticas aprimoradas, toxicidade reduzida e especificidade de alvo aumentada no tratamento de doenças pulmonares intersticiais melhorando a sua eficácia. Portanto, os lipossomas se apresentam com vantagem significativa na regulação da atividade inflamatória e proliferativa de afecções pulmonares (Sharma et al., 2022).
As vitaminas estão entre os micronutrientes mais utilizados na fortificação de alimentos e têm atraído atenção significativa nos últimos anos pela possibilidade de seu encapsulamento em lipossomas, o qual é um método eficiente para aumentar a distribuição de micronutrientes em produtos alimentícios (Chaves et al., 2018). A viabilidade da produção de lipossomas encapsulando as vitaminas D3 e B12 foi observada no estudo de Ferreira et al. (2025), no qual os lipossomas revestidos com pectina apresentaram alta eficiência na preservação de ambas as vitaminas. De acordo com Pan et al. (2022), a preservação dos micronutrientes garante a absorção adequada, principalmente para indivíduos idosos devido às alterações fisiológicas.
Considerações finais
O encapsulamento de compostos bioativos em lipossomas apresenta-se como uma alternativa viável, promissora e eficiente, uma vez que são capazes de encapsular moléculas hidrofóbicas, hidrofílicas ou ambas ao mesmo tempo. Além disso, sua estrutura proporciona proteção a compostos ativos instáveis contra condições do ambiente, além de promover melhorias na sua biodisponibilidade e absorção, podendo ser amplamente usado para promover estabilidade de compostos bioativos e medicamentos.
Diante disso, a tecnologia de lipossomas tem sido aplicada à maioria dos produtos alimentícios funcionais. Além das aplicações convencionais em alimentos como o transportador de conservante e corante natural, atualmente essa tecnologia vem se destacando na fortificação de alimentos, a fim de acrescentar constituintes nutricionais, em especial na liberação controlada e estabilidade aprimorada de compostos bioativos alvo.
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