Substâncias bioativas: perspectivas científicas e tecnológicas

Introdução

A demanda por produtos funcionais tem aumentado, seguindo a tendência de os consumidores valorizarem os alimentos associados à melhoria da saúde. Os alimentos funcionais podem conter, além dos nutrientes essenciais inerentes a composição química do alimento, substâncias que trazem potenciais benefícios à saúde. Esses alimentos têm se destacado por sua importância, contribuindo para o bem-estar e a qualidade de vida, especialmente na prevenção de doenças crônicas não transmissíveis. Nesse sentido, identificar as substâncias bioativas adequadas e compreender seu papel na prevenção de doenças representam desafios importantes (Guimarães et al., 2020; Vignesh et al., 2024).

Substâncias bioativas

As substâncias bioativas utilizadas no desenvolvimento dos alimentos funcionais têm ganhado destaque no cenário científico e na indústria alimentícia devido aos seus efeitos benéficos à saúde humana. Entre esses efeitos, destacam-se as propriedades antioxidantes, anti-inflamatórias e cardioprotetoras. Presentes em diversos alimentos de origem vegetal, como frutas, verduras e grãos (Quadro 1), essas moléculas desempenham um papel que vai além da nutrição básica, contribuindo para a prevenção de doenças crônicas não transmissíveis e englobando uma ampla variedade de compostos obtidas naturalmente nos alimentos (Zhao et al., 2021).

É fundamental destacar que, conforme a Resolução da Diretoria Colegiada nº 243/18, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), substâncias bioativas são nutrientes ou não nutrientes presentes em alimentos, com ação metabólica ou fisiológica específica no organismo humano. Além disso, suas fontes alimentares devem ser claramente identificadas e consideradas na avaliação da exposição da população brasileira a essas substâncias (Brasil, 2020). Associado aos benefícios à saúde e à contribuição para o bem-estar, tais alimentos apresentam um negócio lucrativo, uma vez que é possível agregar valor ao produto e ao mesmo tempo atender às demandas contemporâneas dos consumidores (Arroyo et al., 2019).

Quadro 1 – Compostos bioativos presentes nos vegetais e frutas mais populares e consumidos em nível mundial.

Os antioxidantes presentes em alimentos, como o óleo de semente de gergelim, são destacados por Vignesh et al. (2024) por promoverem a saúde cardiovascular e apresentarem efeitos anti-inflamatórios. Em seu estudo, os autores também relatam que a curcumina tem potencial para inibir o câncer ao suprimir citocinas inflamatórias. Os antioxidantes, ao neutralizar os radicais livres, previnem o estresse oxidativo, um fator associado ao envelhecimento precoce e a doenças como câncer e diabetes tipo 2 (Sharma; Kaur; Bhattacharya, 2021). Carotenoides, como o betacaroteno e a luteína, são pigmentos naturais com ação antioxidante, além de desempenharem papel essencial na saúde ocular (Marques et al., 2022).

As substâncias conhecidas como nutracêuticos representam uma área em expansão na pesquisa biomédica, sendo definidas como qualquer substância que, considerada alimento ou parte de um alimento, tenha finalidades terapêuticas, contribuindo para a manutenção da saúde e auxiliando no combate a diversas enfermidades. Enriquecidos com compostos bioativos, como polifenóis, taninos, flavonoides, alcaloides e ácidos graxos ômega-3, esses alimentos ajudam a reduzir o risco de doenças crônicas, como cardíacas e câncer (Vignesh et al., 2024).

Compostos como os polifenóis têm se destacado como substâncias funcionais e nutracêuticas. Muntaha et al. (2025) destacam os efeitos anti-inflamatórios desses compostos, que melhoram significativamente os atributos nutricionais e funcionais dos alimentos, sendo favorecidos por sua estabilidade, custo-benefício e segurança. Presentes em frutas, chás e vinhos, os polifenóis são conhecidos por neutralizar radicais livres e reduzir os riscos de doenças cardiovasculares. Além disso, contribuem para a melhoria da sensibilidade à insulina, promovendo o controle glicêmico e reduzindo o risco de diabetes tipo 2 (Santos et al., 2020). Polifenóis extraídos de resíduos alimentares estão sendo utilizados em embalagens biodegradáveis que, devido às suas propriedades antioxidantes, prolongam a vida útil dos produtos (Sharma; Kaur; Bhattacharya, 2021).

Já os flavonoides apresentam propriedades antioxidantes, anticancerígenas, anti- inflamatórias e antibacterianas. De Luna, Ramírez-Garza e Saldívar (2020) ressaltam que um dos efeitos mais significativos desses compostos é a ação antioxidante, sendo que, por serem provenientes de fontes naturais, possuem toxicidade relativamente baixa. Por isso, a adição de flavonoides derivados de fontes naturais em alimentos é uma prática recomendada.

Alimentos nutracêuticos

Os alimentos nutracêuticos ou funcionais têm sido utilizados pela indústria alimentícia por combinarem ingredientes comestíveis de alta versatilidade e moléculas biologicamente ativas. Eles contêm compostos ou substâncias bioativas que, além de nutrir , auxiliam na correção de distúrbios metabólicos, contribuindo para a redução de doenças e a manutenção da saúde (Basílio; Oliveira; Guimarães, 2021).

O Quadro 2 apresenta alimentos nutracêuticos, os componentes funcionais e seu potencial benefício à saúde humana.

Quadro 2 – Componentes funcionais de alimentos nutracêuticos.

                                                                                      Fonte: Adaptado de Vignesh et al. (2024).

No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), do Ministério da Saúde, regulamenta as alegações de propriedades funcionais aprovadas para alimentos, com padronização das informações e propriedades veiculadas nos rótulos. Não é aprovada alegação para o ingrediente do alimento, mas para o produto que tenha tal ingrediente na formulação, devendo adequar-se às exigências da Resolução nº 18/1999 (Brasil, 1999), que trata das diretrizes básicas para análise e comprovação de propriedades funcionais em rotulagem de alimentos (Chagas et al., 2020).

Conclusão

As substâncias bioativas e nutracêuticas possuem um grande potencial para a melhoria da saúde humana, porém a estabilidade desses compostos durante o processamento e armazenamento dos alimentos ainda é um desafio relevante.

Além de técnicas necessárias para manter sua estabilidade, a regulamentação sobre alimentos funcionais e a aceitação dos consumidores são fatores que influenciam diretamente o avanço desse mercado.

Sendo assim, as substâncias bioativas desempenham um papel essencial no desenvolvimento de alimentos funcionais, promovendo a saúde humana e atendendo à crescente demanda por alimentos mais nutritivos e saudáveis, aliando sabor e conveniência. Com avanços tecnológicos, como a microencapsulação, a indústria alimentícia tem conseguido incorporar esses compostos de forma eficaz em diversos produtos, desde bebidas e snacks até suplementos alimentares.

No contexto, a pesquisa científica continua sendo indispensável para superar desafios técnicos e validar os benefícios dessas moléculas à saúde, promovendo não apenas inovação industrial, mas também um impacto positivo na qualidade de vida dos consumidores.

Referências

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