Alta do preço do café e o retorno do chá como alternativa

Introdução

A pandemia da Covid-19 provocou transformações significativas no comportamento dos consumidores, impactando diretamente o mercado de bebidas não alcoólicas e criando novas demandas por produtos que unam praticidade, saudabilidade e conexão emocional (Brainer; Ximenes, 2021).

Segundo Viana (2021), bebidas naturais e que estão associadas a algum benefício à saúde têm ganhado espaço entre os consumidores, especialmente aquelas associadas a rotinas de bem-estar e autocuidado, destacando-se neste contexto o café e chá, porque ambos, apresentam forte apelo tanto no consumo doméstico quanto no mercado externo, com potencial para gerar valor em toda a cadeia produtiva.

O Brasil é atualmente o maior produtor e exportador de café do mundo, tanto na forma de grão quanto solúvel, além de ocupar a terceira posição no ranking global de consumo (USDA, 2023). A produção nacional é majoritariamente composta pela variedade Arábica, que representa 79,3% da área cultivada e 70,2% do volume total produzido no país, equivalente a 38,2 milhões de sacas e aum aumento de 16,6% em relação a 2022, impulsionado por condições climáticas mais favoráveis nas duas últimas safras.

Os estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná produzem exclusivamente café Arábica, assim como 98,7% da produção de Minas Gerais. Já os estados de Rondônia e Mato Grosso se dedicam exclusivamente ao cultivo do café Conilon. A safra dessa variedade foi estimada em 16,2 milhões de sacas, o que representa uma queda de 11% em relação ao ciclo anterior (2022), em razão da redução da produtividade no Espírito Santo, principal estado produtor de Conilon, devido a um período prolongado de estiagem (CONAB, 2023).

Segundo o relato de Rafael Figueira Coelho, colaborador da Unidade Paulistana do Armazém do Campo, em matéria publicada por Vinicius Konchinski no Brasil de Fato (BdF) no ano de 2025, mesmo com um perfil de consumidores mais conscientes, que priorizam produtos da agricultura familiar e da produção de alimentos saudáveis, houve uma redução da quantidade de café comercializada por conta do aumento do preço. “Os consumidores compreendem a vulnerabilidade desses produtos às oscilações do mercado e seguem consumindo, mas em menores quantidades”, afirmou Coelho. No entanto, o preço do café vem apresentando um aumento expressivo, o que tem levado os consumidores a diminuírem o consumo de café ou buscarem outras alternativas com alto valor nutricional e com o preço mais acessível no mercado de bebidas.

O consumo de chá tem ganhado cada vez mais espaço no dia a dia dos brasileiros, substituindo, em parte, o tradicional consumo de café. Essa mudança é impulsionada pela popularização de chás especiais, com variedades exclusivas e exóticas, que se tornaram mais acessíveis e apresentam grande potencial de crescimento (Gaylard, 2016). De acordo com Rego, Vialta e Madi (2016), essa transformação no perfil dos consumidores tende a provocar impactos significativos no mercado de bebidas não alcoólicas, especialmente com o envelhecimento dos consumidores habituais e a chegada de novas gerações com valores e hábitos de consumo diferentes.

Sendo assim, este artigo explora as perspectivas futuras do consumo de chá e café no Brasil e no mundo, com foco nas oportunidades de crescimento, comportamento do consumidor e tendências para o setor.

Café: Um Clássico que traz benefícios à saúde

Figura 01: Grãos de café após diferentes intensidades de torras

 

 

 

 

 

 


Fonte: Imagem do autor

O café é uma das bebidas mais consumidas em todo o mundo, resistindo a campanhas de desvalorização, pragas, mudanças climáticas, hábitos alimentares e também de oscilações do mercado. Ao longo dos anos, o café manteve-se como uma das bebidas mais consumidas no mundo fazendo com que sua popularidade seja inegável, se tornando um hábito universal que permeia lares e instituições, sendo oferecido em diversas ocasiões e de diferentes formas (Nicikava e Junior, 2022), até mesmo como ingrediente em diferentes preparações alimentícias como, balas, bolos, bombons, entre outros. Segundo Qureshi et al. (2022), as associações entre o consumo de café e o bem-estar psicológico, ao longo de um período de até duas décadas, mostraram-se em sua maioria inexistentes ou de baixa intensidade.

Além disso, o café tem sido reconhecido por seu efeito estimulante, atribuído principalmente ao elevado teor de cafeína. Contudo, a cafeína não é o único composto bioativo presente na bebida. O café é uma complexa mistura de substâncias biologicamente ativas, incluindo polifenóis como os: ácidos clorogênicos (nos grãos verdes) e o ácido cafeico (em grãos torrados); alcaloides (cafeína e a

trigonelina), além dos diterpenos cafestol e kahweol. Diversos estudos indicam que o consumo habitual de café está associado a efeitos benéficos à saúde humana. A ingestão regular da bebida pode exercer um papel protetivo contra doenças crônicas, como doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, obesidade e alguns tipos de câncer. Além disso, evidências sugerem uma possível relação entre o consumo de café e a redução do risco de desenvolvimento de enfermidades neurodegenerativas, como Alzheimer, Parkinson e demência (Socata; Szopa; Serefko; et al., 2020).

A Força Econômica do Café e os fatores que influenciam na alta do preço

Além dos benefícios à saúde, o café tem grande importância econômica. A alta no preço do produto nos últimos meses está associada a fatores como o aumento das exportações, que tiveram um aumento significativo em novembro de 2024, devido à combinação entre preços atrativos no exterior e no aumento do dólar no Brasil. Dessa forma, em outubro de 2024, o Brasil exportou cerca de 5,0 milhões de sacas de 60 kg de café, a maior quantidade já registrada no país em um único mês (CONAB, 2024). De acordo com a pesquisa feita pela Conab (2025), os preços do café registraram um elevado preço no mercado internacional na primeira quinzena de fevereiro de 2025, impulsionados principalmente pela restrição da oferta nos principais países produtores, como o Brasil e o Vietnã. Ambos tiveram sua produção afetada por adversidades climáticas recorrentes nos últimos anos e ocupam, respectivamente, a primeira e a segunda colocação no ranking mundial de produção de café. No Brasil os preços do café continuam em alta, impulsionados pela valorização do produto no mercado internacional, pelo ritmo aquecido das exportações brasileiras e pela diminuição dos estoques internos.

Com base em outra pesquisa da Conab referente ao período de 31 de março a 4 de abril de 2025, a figura 01, mostra que entre fevereiro e março de 2025, os preços médios recebidos pelos produtores de café no Brasil apresentaram recuo. Essa retração foi influenciada pela proximidade da colheita em diversas regiões produtoras, pela queda das cotações internacionais e pelo recuo do dólar frente ao real. Por outro lado, fatores como a limitação dos estoques internos e a demanda aquecida por exportações atuaram como vetores de sustentação, impedindo quedas mais acentuadas nos preços ao longo de março. Apesar da esperada ampliação sazonal da oferta interna no segundo trimestre, a produção nacional de café em

2025 deve registrar uma retração estimada em 4,4%. Por esse motivo, não se antecipam reduções expressivas nas cotações ao longo da temporada. Em Minas Gerais, o preço médio pago ao produtor pelo café Arábica tipo 6 foi de R$ 2.534,90 por saca de 60 kg em março, representando uma queda de 2,4% em relação ao mês anterior. Já o café Conilon tipo 7, no Espírito Santo, registrou preço médio de R$ 1.919,82 por saca de 60 kg, com retração de 2,7% no mesmo período.

Figura 02: Preços reais do café Arábica- Minas Gerais

 

 

 

 

 

 


Fonte: Conab. Deflacionado pelo IPCA

Outro fator que contribui para a elevação dos preços neste momento é a preocupação com a safra de 2025, diante dos impactos negativos provocados pelo clima quente e seco durante o início da floração dos cafezais (CONAB, 2025). De acordo com a matéria publicada no Portal Agro2 pela Dinake Núbia (2025), em 2023 o setor de café enfrentou impactos causados pelo fenômeno de El Niño, que é caracterizado pelo aquecimento anormal e persistente da superfície do Oceano Pacífico da linha do Equador, que ocasionou um período prolongado de estiagem e temperaturas elevadas. No ano seguinte, foi a vez de La Niña influenciar a produção, sendo um fenômeno caracterizado pelo resfriamento anormal e persistente da superfície do Oceano Pacífico Equatorial, causando chuvas excessivas. Diante dessas condições climáticas adversas, os produtores tiveram que aumentar os investimentos para manter a produtividade, o que resultou no aumento do custo da matéria-prima.

Mesmo diante desses desafios climáticos e do elevado custo da matéria-prima, o Brasil continua sendo o maior exportador de café do mundo e ocupa a segunda posição entre os países mais consumidores da bebida. Com uma contribuição

significativa para a produção global, o Brasil responde por aproximadamente um terço do café produzido no planeta, desempenhando um papel fundamental na economia do país, consolidando-se como o maior produtor mundial, um título que mantém há mais de 150 anos (ABIC, 2021).

Outros fatores que também influenciaram no aumento do preço do café além dos eventos climáticos, foi o aumento do consumo no mundo e o surgimento de um novo mercado consumidor global, a China (Cruz, 2025).

Conforme dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC, 2024), a China ocupa, atualmente, a sexta posição entre os principais destinos das exportações brasileiras de café. Em 2024, foi feito um acordo comercial com uma rede de cafeterias chinesa prevendo a aquisição de 120 mil toneladas do grão até o final daquele ano. O contrato estabelece, ainda, o fornecimento total de 240 mil toneladas entre 2025 e 2029, com valor estimado em aproximadamente US$2,5 bilhões.

Além da escassez de matéria-prima, o aumento no consumo interno também contribuiu para a elevação dos preços do café. Segundo dados da ABIC (2025), o consumo no Brasil cresceu 1,11% em 2024, alcançando 21,916 milhões de sacas. Na figura 02, mostra que na região Sudeste liderou esse consumo, com 41,7% do total, seguida pelo Nordeste (26,9%), Sul (14,6%), Norte (8,8%) e Centro-Oeste (8,0%). Em média, cada brasileiro consumiu cerca de 1.430 xícaras de café ao longo do ano. Esse crescimento reflete não apenas a força do hábito, mas também reforça a pressão sobre a oferta, influenciando diretamente o valor do produto no mercado.

Figura 03: Consumo interno de café por região

Fonte: ABIC, 2025

Chá – Uma alternativa promissora ao consumo de café

O chá vem se destacando como uma alternativa promissora ao café, especialmente diante da crescente busca por hábitos mais naturais e saudáveis. No Brasil, o consumo de chá aumentou mais de 25% entre 2013 e 2020, refletindo um resgate dessa bebida milenar que conquistou novamente seu espaço nas preferências do público (Neves, 2024). De acordo com o Ministério da Saúde (1998), o chá é definido como uma bebida obtida a partir da infusão ou decocção de partes vegetais, sejam folhas, flores ou raízes, preparadas por métodos específicos, sempre consumida de forma natural, sem finalidade farmacêutica. Essa valorização reforça o chá como uma opção segura e tradicional para quem busca uma experiência saborosa e benéfica.

Alguns tipos de chás apresentam comprovação científica de suas propriedades terapêuticas, nutricionais e antioxidantes, que podem contribuir significativamente para o tratamento de diversas condições de saúde, como hipertensão, diabetes, obesidade, entre outras (Santos, 2024).

Benefícios nutricionais do chá

De acordo com Pan et al. (2022), o ato de beber chá beneficia a saúde física através de compostos bioativos como os polifenóis do chá verde, a teaflavina e as tearubiginas do chá preto. Além disso, também melhora a saúde mental por meio da

cultura associada ao chá, proporcionando alegria e satisfação ao consumi-lo. Curiosamente, compostos como a teanina, encontrados no chá, também podem impactar diretamente nossas emoções.

O chá verde é obtido por meio da Camellia sinensis, e possui propriedades que auxiliam na redução de peso, exerce efeito antioxidante, e contribui para a prevenção e o controle de doenças cardíacas, diversos tipos de cânceres, diabetes, além de ação antibacteriana e antiviral, sendo rica em compostos fenólicos os quais são antioxidantes que combatem as espécies reativas e que podem ter diversas atividades no organismo (Marques; Santos, 2021).

Figura 04: Camellia sinensis

 

 

 

 

 


Fonte: Imagem de Natasha G por Pixabay

Alguns estudos sobre os chás como o de camomila, erva-cidreira, folha de maracujá e hortelã, demonstram que compostos como ácido rosmarínico, citral, carvona, mentol, passiflorina e maracujina atuam positivamente nos neurotransmissores relacionados à estabilidade emocional, auxiliando no alívio dos sintomas da ansiedade (Sarrico, 2022). Outro exemplo é o chá de hibisco que é amplamente utilizado como auxiliar no processo de emagrecimento, devido às suas propriedades diuréticas, sua capacidade de reduzir o acúmulo de gordura corporal e pressão arterial, além de controle do colesterol e benefícios para o cérebro (Hernandez et al., 2022).

É importante destacar que, assim como o café, os chás de modo geral, devem ser consumidos com moderação, uma vez que o uso excessivo pode acarretar efeitos adversos à saúde.

Evolução do consumo de chá e implicações socioeconômicas

Ao contrário do que se acreditava antigamente, que o chá fosse consumido principalmente por pessoas mais velhas, pesquisas recentes mostram uma mudança significativa nesse perfil. Um estudo realizado por Nascimento (2021) com 140 jovens universitários de Sergipe revelou que tanto estudantes de instituições privadas quanto públicas têm uma atitude positiva em relação ao chá, consumindo-o não apenas como bebida, mas também para fins terapêuticos. Os resultados mostraram que 52,5% dos jovens de instituições privadas e 62,1% dos de instituições públicas afirmaram gostar do chá, demonstrando que essa tradição milenar vem conquistando um público mais jovem, ampliando seu alcance e relevância.

Além do impacto cultural e nutricional, o setor de produção do chá também tem grande importância econômica. Em 2022, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) destacou o cultivo do chá como uma atividade que demanda intensa mão de obra, gerando empregos e renda para inúmeras comunidades rurais ao redor do mundo. Com uma produção global que ultrapassa os 17 bilhões de dólares anuais, aproximadamente 60% desse total vem de pequenos produtores, evidenciando o papel fundamental dessa bebida não apenas para a saúde, mas também para a economia global.

Conclusão

Os efeitos da pandemia da Covid-19 mudaram de forma significativa a percepção e os hábitos dos consumidores, que passaram a buscar mais por bebidas que oferecem praticidade, compostos mais naturais e benefícios à saúde. Nesse cenário, tanto o café quanto os chás se destacam como produtos relevantes, não apenas do ponto de vista funcional e nutricional, mas também econômico e cultural. O café, já estabelecido como uma das bebidas mais consumidas no mundo, continua sendo essencial na rotina global e mantém sua expressiva importância nos mercados interno e externo, posicionando o Brasil como principal produtor e exportador global. Em comparação ao consumo de café, observa-se que o chá vem conquistando uma base de consumidores cada vez mais ampla e diversificada, especialmente por suas propriedades terapêuticas e seu fácil acesso.

Dessa forma, pode-se concluir que o chá se mostra uma bebida promissora para o Brasil, com potencial para ampliar o faturamento nacional, impulsionar a economia de pequenos produtores e se consolidar como uma alternativa viável tanto para o comércio interno quanto para a exportação. Assim como o país tem grande destaque na cadeia produtiva do café, é possível projetar um futuro promissor em que o mercado de chás, que pode ocupar uma posição estratégica no cenário agroindustrial e econômico brasileiro. Com o avanço tecnológico na produção, a valorização de ingredientes naturais e os novos hábitos de consumo, é provável que ambos, café e chá, continuem desempenhando papéis relevantes no mercado de bebidas nos próximos anos.

Referências

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