Armadilhas luminosas: monitoramento e prevenção no controle de pragas

O uso de armadilhas luminosas em estabelecimentos que manipulam alimentos tem despertado discussões entre empresas de controle de pragas, profissionais de segurança dos alimentos e órgãos de fiscalização sanitária. Em diferentes regiões do Brasil, têm sido relatados casos em que fiscais da Vigilância Sanitária orientam a retirada desses equipamentos de restaurantes, padarias, açougues, supermercados e outros serviços de alimentação.

Em contrapartida, indústrias certificadas ou em processo de certificação frequentemente recebem recomendações de auditores especializados para ampliar ou aperfeiçoar seus programas de monitoramento de insetos voadores, inclusive por meio da instalação de novas armadilhas luminosas em pontos estratégicos.

A convergência dessas diferentes percepções levou a Associação Brasileira de Controle de Vetores e Pragas (ABCVP) a promover um evento reunindo profissionais do setor para discutir o tema com especialistas. O Portal e-food esteve presente no encontro, realizado na segunda-feira (20), no Rio de Janeiro, e acompanhou de perto os debates.

Entre os palestrantes estava Marcelo Pereira, criador da primeira armadilha luminosa brasileira com sistema de captura por placa adesiva. Durante a apresentação, o especialista explicou que, à primeira vista, divergências como essas parecem contraditórias, mas, na realidade, não são.

“O objetivo de todos os profissionais envolvidos — entre eles fiscais, auditores, empresas de controle de pragas e responsáveis pelos estabelecimentos — é exatamente o mesmo: proteger a saúde pública e reduzir os riscos de contaminação dos alimentos”, afirma Marcelo Pereira.

Segundo o especialista em Manejo Integrado de Pragas (MIP) e em Sistemas de Gestão da Segurança dos Alimentos, a diferença está na forma como a armadilha luminosa é compreendida. Quando analisada apenas como um equipamento destinado à captura de insetos, ela pode parecer um elemento indesejável em áreas de manipulação de alimentos. Entretanto, quando inserida em um Programa de Manejo Integrado de Pragas (MIP), sua função vai além da simples captura e passa a integrar um sistema de monitoramento, geração de evidências e apoio à tomada de decisões preventivas.

Monitorar não é eliminar

Um dos maiores equívocos sobre as armadilhas luminosas é acreditar que sua principal função seja eliminar insetos voadores. Especialistas esclarecem que, embora a captura faça parte de seu funcionamento, essa não é sua finalidade mais importante. Seu principal papel é monitorar e responder a questões fundamentais para qualquer Programa de Manejo Integrado de Pragas, como:

1- Quais espécies estão sendo encontradas?
2- Em quais pontos do estabelecimento elas aparecem com maior frequência?
3- Existe aumento da população em determinada época do ano?
4- As medidas corretivas adotadas reduziram as capturas?
5- Alguma porta, janela ou barreira física deixou de cumprir adequadamente sua função?
6-  Houve alteração após mudanças estruturais ou operacionais?

Essas respostas permitem que as decisões deixem de ser baseadas em percepções subjetivas e passem a ser fundamentadas em evidências. “Uma armadilha luminosa, por si só, não garante a proteção de um estabelecimento. Da mesma forma que um exame médico não cura uma doença, o monitoramento de insetos voadores também não elimina uma infestação. Entretanto, ambos cumprem uma função essencial: permitir o diagnóstico precoce. Retirar uma armadilha luminosa não elimina a presença de insetos voadores; apenas é uma importante fonte de informação sobre o que está acontecendo no ambiente”, destaca Marcelo Pereira.

Instalação incorreta

Marcelo Pereira ressalta que o problema não é a armadilha luminosa em si, mas sua instalação inadequada. “Quando um fiscal da Vigilância Sanitária encontra uma armadilha luminosa instalada diretamente sobre uma bancada de manipulação de alimentos, em frente a uma porta aberta ou direcionada para uma janela, sua preocupação é plenamente justificável. Nessas condições, o equipamento pode deixar de cumprir sua finalidade e até contribuir para aumentar o risco de atração de insetos para áreas sensíveis. Entretanto, é importante compreender que essa situação não decorre da existência da armadilha luminosa, mas de sua utilização sem critérios técnicos.”

O especialista explica que a instalação deve considerar diversos fatores, entre eles:

1- Fluxo de pessoas e materiais;
2- Localização de portas, janelas e docas;
3- Sentido predominante de entrada dos insetos;
4- Presença de outras fontes de luz;
5- Proximidade de alimentos expostos;
6- Existência de barreiras físicas;
7- Características da atividade desenvolvida;
8- Análise dos riscos de contaminação.

Profissionais do RJ vão se unir

Em entrevista ao Portal e-food, Marcelo Freitas, vice-presidente da ABCVP, avaliou o evento como um sucesso. “O objetivo do encontro foi capacitar os fiscais sanitários estaduais do Rio de Janeiro e representantes das vigilâncias sanitárias municipais. Queríamos mostrar a biologia da barata, do rato e da mosca, as dificuldades no controle dessas pragas e os desafios enfrentados por clientes, empresas especializadas e pela própria fiscalização. Foi muito positivo perceber que eles compreenderam essas dificuldades e discutiram o que pode ou não ser exigido de forma técnica e justa.”

Ao fim do encontro, a associação e representantes da Vigilância Sanitária se comprometeram a elaborar um documento com propostas para subsidiar um projeto de lei sobre o controle de pragas no Estado do Rio de Janeiro.

“O grupo contará com a participação da Vigilância Sanitária, das empresas do setor e do Marcelo, da Ultralight. Na próxima semana começaremos a receber as contribuições por e-mail para consolidar o texto. Já temos um rascunho e queremos verificar se surgirão novas ideias para incorporá-las à proposta. Após o recesso legislativo, nossa expectativa é protocolar o projeto na Assembleia Legislativa para que ele possa tramitar e, se aprovado, se torne lei, provavelmente em meados do próximo ano”, conclui Marcelo Freitas.

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