Intoxicação por metanol não é um problema recente nem isolado; veja dados

Estima-se que entre 25% e 40% de todas as bebidas destiladas consumidas no mundo sejam produzidas, adulteradas ou comercializadas fora dos padrões de segurança.
Imagem: Biodiesel Brasil

Provavelmente, você já ouviu falar nos últimos dias sobre o surto de intoxicação por metanol, um álcool altamente tóxico utilizado na adulteração de bebidas para aumentar o teor alcoólico e reduzir custos de produção. Quando ingerido, o metanol pode causar cegueira, danos cerebrais permanentes e até a morte. O aumento de casos confirmados tem preocupado desde a indústria até os consumidores, mas este não é um problema novo e muito menos desconhecido entre os órgãos reguladores.

O consumo de bebidas alcoólicas falsificadas e ilícitas é um problema de saúde pública de proporções globais, que ultrapassa barreiras econômicas, culturais e religiosas. De acordo com o estudo Worldwide Illicit and Counterfeit Alcoholic Spirits: Problem, Detection, and Prevention, publicado no Journal of the American Society of Brewing Chemists em 2024, estima-se que entre 25% e 40% de todas as bebidas destiladas consumidas no mundo sejam produzidas, adulteradas ou comercializadas fora dos padrões de segurança.

Outro estudo, este produzido pela Euromonitor e encomendado pela Associação Brasileira de Bebidas Destiladas (ABBD), aponta que o mercado ilícito fez com que o Brasil deixasse de arrecadar R$ 28 bilhões em impostos em 2023, recursos que poderiam ser destinados a políticas públicas essenciais, como saúde e segurança. Segundo a associação brasileira, um produto ilegal é vendido, em média, 35% mais barato do que o original e a diferença podendo chegar a até 48%.

O relatório Worldwide Illicit and Counterfeit Alcoholic Spirits, destaca, ainda, milhares de mortes anuais decorrentes de intoxicações por metanol. O impacto é especialmente severo em países em desenvolvimento, onde a combinação de baixos rendimentos, acesso restrito a bebidas seguras e fiscalização precária cria um ambiente propício para o comércio ilícito.

Na Índia, por exemplo, o documento aponta uma longa sequência de tragédias. Entre 1976 e 2022, quase duas mil pessoas morreram após consumir bebidas adulteradas com metanol. No Quênia, episódios recorrentes de envenenamento deixaram centenas de mortos nas últimas duas décadas, em contextos marcados pela pobreza e pela popularidade dos destilados artesanais de baixo custo, conhecidos como chang’aa, apelidado localmente de “kill me quick” (“mate-me rápido”).

O estudo também chama atenção para países com restrições religiosas ao consumo de álcool, como Irã e Sudão, onde a proibição leva parte da população a recorrer ao mercado clandestino. Nessas regiões, além do risco químico, há o agravante do estigma social e legal, que faz com que muitas vítimas evitem procurar atendimento médico. Entre 2004 e 2018, o Irã registrou mais de 800 mortes e centenas de internações por envenenamento com bebidas ilícitas, números provavelmente subestimados pela subnotificação.

Panorama no Brasil

O estudo cita a presença do Brasil em um contexto preocupante. Análises de bebidas falsificadas identificaram metanol, derivados de cianeto e carbamatos. Embora o país não esteja entre os principais registros de surtos com mortes, o fato de ser mencionado em conjunto com grandes países consumidores e produtores (China, Rússia, Estados Unidos e Inglaterra) reforça o alerta sobre a falsificação de bebidas alcoólicas.

Imagem Worldwide Illicit and Counterfeit Alcoholic Spirits: Problem, Detection, and Prevention

O alerta desta pesquisa vem de encontro com o cenário atual brasileiro. O Ministério da Saúde anunciou que recebeu 217 notificações de intoxicação por metanol após consumo de bebida alcoólica. Desse total, 17 casos foram confirmados e 200 estão em investigação. O boletim mais recente com atualização dos casos foi divulgado pela pasta na noite desta segunda-feira (6).

São Paulo concentra a maioria dos casos: 82,49% das notificações, com 15 casos confirmados e 164 em investigação. O Paraná teve dois casos confirmados e quatro estão em investigação. Há outras investigações em 12 estados: Acre (1), Ceará (3), Espírito Santo (1), Goiás (3), Minas Gerais (1), Mato Grosso do Sul (5), Paraíba (1), Pernambuco (10), Piauí (3), Rio de Janeiro (1), Rondônia (1) e Rio Grande do Sul (2).

Outros casos de bebidas contaminadas com metanol no Brasil

O surto por intoxicação de metanol não é inédito no Brasil. Em 1992, quatro pessoas morreram e cerca de outras 160 tiveram sintomas, como náuseas, no estado de São Paulo. À época, o Instituto Adolfo Lutz concluiu que as bebidas, consumidas em uma danceteria em Diadema, estavam contaminadas pelo produto.

Segundo registros da imprensa à época, os casos aconteceram em 27 de dezembro de 1992, quando cerca de 50 pessoas foram ao Hospital Público de Diadema com sintomas de intoxicação, como dores de cabeça, náusea e problemas nos olhos. Eles consumiram uma bebida chamada “bombeirinho”, mistura de vodka com groselha.

Posteriormente, em 5 de janeiro, mais 110 pessoas foram ao mesmo hospital da cidade do Grande ABC, sendo que 28 delas ficaram internadas e três morreram. Em 1999, a Bahia registrou 35 mortes em 10 cidades. Na ocasião, os óbitos aconteceram por ingestão de cachaça contaminada com metanol.

Outro caso relacionado à contaminação de bebidas foi o de uma cerveja de fabricação local em Minas Gerais. Na ocasião, 29 pessoas foram intoxicadas por dietilenoglicol, substância tóxica usada na fabricação de bebidas que vazou de um dos tanques de produção. Elas desenvolveram uma síndrome que causou insuficiência renal aguda. Desse total, dez pessoas morreram e 19 apresentaram sequelas graves.

Envenenamento por metanol

O metanol é uma forma de álcool venenosa em caso de ingestão. A Aliança Contra a Falsificação de Bebidas Alcoólicas (Alliance Against Counterfeit Spirits, AACS, na sigla em inglês) explica que uma quantidade mínima de 30 ml pode ser letal ao ser humano. A substância é usada como anticongelante, solvente, combustível e desnaturante (um aditivo que torna o álcool potável impróprio para consumo humano) em bebidas destiladas. Todos esses produtos foram e continuam sendo usados ​​por falsificadores de bebidas destiladas, por serem baratos e facilmente acessíveis.

A AACS, que representa as principais empresas internacionais produtoras de bebidas destiladas do mundo, alerta o procedimento realizado pelos falsificadores.

“Os falsificadores tentarão remover quaisquer contaminantes de quaisquer líquidos (“produtos úmidos”) que estejam usando para fabricar suas falsificações, geralmente adicionando água sanitária e filtrando grosseiramente com carvão. Isso pode deixar partículas suspensas no líquido, o que pode ser um indicador de que o produto é falsificado. Mas, para remover o metanol, é necessário aquecer o líquido até o ponto de evaporação (a 64,7 °C), um processo potencialmente perigoso, pois se trata de uma substância volátil e inflamável, e que os falsificadores nem sempre acertam, seja por ignorância, descuido ou ganância. Se a temperatura não for alta o suficiente, o metanol permanecerá na bebida falsificada, pois é incolor e tem cheiro semelhante ao do etanol (bebida alcoólica)”, alerta a associação.

Todo o metanol ingerido permanece no corpo até que todo o etanol seja processado. O corpo então converte o metanol em formaldeído e, em seguida, em ácido fórmico. Este último ataca os tecidos moles do corpo, como rins, fígado, olhos e cérebro, causando cegueira, coma e morte.

O Ministério da Saúde do Brasil alerta que os principais sintomas podem aparecer entre 6h e 72h após a ingestão da substância. São eles: 

  • Dor abdominal; 
  • Visão adulterada; 
  • Confusão mental; 
  • Desconforto gástrico 
  • Náusea. 

Com esses sinais, o paciente deve procurar o atendimento médico. A orientação é que, ao chegar à unidade de saúde, a pessoa com sintomas informe que consumiu bebida alcoólica e em qual contexto. O ideal é que o paciente relate, por exemplo, se esteve em uma festa, que tipo de bebida ingeriu, se haviam rótulos nas embalagens e qual foi o horário da ingestão. 

O etanol farmacêutico é o antídoto específico para casos confirmados de intoxicação, administrado de forma controlada, intravenosa ou oral, conforme necessidade clínica. O CIATox ou as secretarias de saúde solicitam a manipulação do produto quando necessário. 

Fontes

Estudo Worldwide Illicit and Counterfeit Alcoholic Spirits: Problem, Detection, and Prevention
Alliance Against Counterfeit Spirits (AACS)
Agência Brasil – SP já teve outros casos de bebidas contaminadas com metanol; relembre
Ministério da Saúde

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