No Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, celebrado em 11 de fevereiro, histórias de pesquisadoras que vêm ganhando destaque no cenário global ajudam a evidenciar a importância da presença feminina na produção científica. Uma delas é a pesquisadora brasileira Ana Luiza Domingos, única latino-americana a integrar o grupo de 16 pesquisadores do Fórum Mundial da Alimentação (2023-2025) da Organização das Nações Unidas (ONU).
A conquista colocou o Brasil em evidência em um dos principais espaços globais de debate sobre alimentação. O Fórum é a principal plataforma jovem de governança global em alimentação e tem como objetivo unir a paixão e o poder da juventude na identificação de soluções para os desafios atuais e no incentivo a ações positivas para os sistemas alimentares em todo o mundo.
Ana Luiza é formada em Nutrição pela Universidade Federal de Ouro Preto, mestre em Saúde e Nutrição pela mesma instituição e doutora em Ciência da Nutrição pela Universidade Federal de Viçosa. Atualmente, é pós-doutoranda na Universidade de São Paulo. O trabalho da pesquisadora brasileira é focado em temas relacionados ao impacto do sistema alimentar no país sobre a sindemia global de desnutrição, obesidade e mudanças climáticas.
Ao Portal e-food, Ana Luiza explica que o processo seletivo para integrar o grupo é altamente concorrido. Para se candidatar, é necessário ter entre 18 e 35 anos, e cientistas do mundo todo podem participar. Durante o mandato, os selecionados atuam em eventos internacionais ao lado de chefes de Estado e diplomatas, levando uma visão técnico-científica para os debates sobre sistemas alimentares.
“A base do grupo funciona na Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), em Roma, na Itália, e nosso papel é oferecer apoio técnico-científico às ações do Fórum Mundial, que acontecem todos os anos no mês de outubro. Ao longo do ano, também participamos de outros eventos, como o Nutrition for Growth Summit 2025, em Paris”, conta a pesquisadora, que representou o grupo de jovens cientistas na capital francesa. Ao fim do ciclo (2023-2025), os integrantes precisam apresentar um relatório detalhando as pesquisas realizadas e as ações desenvolvidas durante o período.

Para Ana Luiza, ter sido a única brasileira não representou um peso, mas uma responsabilidade. “Eu era a única brasileira, mas não via isso como um peso. Era uma oportunidade de apresentar nossa visão sobre políticas públicas e as prioridades da região. Quando dialogamos com pessoas de diferentes nacionalidades, percebemos como há leituras distintas, mesmo quando os objetivos são os mesmos. Desenvolvi muito a escuta e a capacidade de entender de onde vêm essas perspectivas”, reflete.
Ela também comemora a presença ampliada de brasileiras na nova edição do grupo. “Na minha época, eu era a única. Agora, na corte de 2025-2027, são duas brasileiras. Ver mais representação da América Latina é um avanço muito importante. Mulheres brilhantes subindo ao palco para dialogar com presidentes e diretores, foi muito bonito acompanhar essa evolução”, afirma.
Maternidade & ciência
Aos 37 anos e mãe de um menino de 3, Ana Luiza relembra os desafios de conciliar a maternidade com a rotina exigente de uma cientista ligada à ONU. Quando iniciou o processo seletivo para o Fórum, ainda amamentava. Já como integrante do grupo, precisou equilibrar os dois papéis.
“A maternidade na ciência é um dos maiores desafios. Quando participei do Fórum, meu filho tinha um ano e eu ainda amamentava. Subir ao palco e passar tantas horas longe dele foi difícil. Saía e voltava para conseguir amamentar. O apoio às mães cientistas é fundamental. Sem estrutura adequada, fica muito mais difícil. Ainda é um caminho longo, mas já existem ferramentas importantes para ajudar as mulheres a progredirem na carreira”, avalia.
Incentivo às novas gerações
Questionada sobre a mensagem que deixaria para meninas que sonham em seguir carreira científica, Ana Luiza é direta: estudar é essencial! “Vivemos em uma época de consumo rápido de informação, mas a ciência exige tempo, leitura e profundidade. É uma carreira que não tem fim, sempre surge algo novo para aprender. Durante a minha formação, busquei disciplinas fora da Nutrição, como Biologia e Antropologia. Ouvir a Geografia falar sobre fome, por exemplo, amplia nossa compreensão do problema”, diz.
Para ela, a interdisciplinaridade é um dos grandes trunfos da profissão. “Explorar diferentes formas de enxergar uma mesma questão é fundamental. Temos um mundo de oportunidades para aplicar o nosso conhecimento, e isso é o que torna a ciência tão fascinante.”