Em 2026, o setor de fórmulas infantis já registra uma série de recalls que acendem um alerta importante para a cadeia produtiva global. Até o momento, foram identificados quatro grandes eventos de recolhimento, além de diversos casos menores em nível local, totalizando dezenas de ações envolvendo diferentes lotes e mercados.
O principal destaque do ano é um recall de grande escala, com impacto multinacional, que levou à retirada de produtos em dezenas de países. Ao longo das semanas seguintes, novas etapas desse mesmo evento foram sendo conduzidas, com a inclusão de lotes adicionais, ampliando ainda mais o alcance da medida.
O Portal e-food conversou com a professora do Instituto Federal Sudeste, Wellingta Benevenuto, doutora em Produção Vegetal, para entender o motivo deste aumento e qual o principal causador.
1- Em que etapa da produção de fórmulas infantis os riscos costumam surgir?
Professora Wellingta: A produção de fórmulas infantis é um processo muito complexo, pois todos os constituintes do produto precisam ser de elevada qualidade. Mesmo que a contaminação da matéria-prima seja reduzida e que os componentes sejam adicionados em baixa concentração, o risco de contaminação e de veiculação de doenças é inerente, principalmente devido ao público para o qual o produto é destinado, ou seja, para bebês, os quais não possuem o sistema imunológico totalmente formado. Aliado a isso, a reduzida acidez gástrica e o baixo peso corporal dos recém-nascidos, contribui para que uma baixa contagem microbiana possa acarretar problema de saúde.
Assim, torna-se necessário um monitoramento contínuo da presença de microrganismos, esporos e toxinas na matéria prima, em pontos específicos do processo e nos produtos finais, de forma a garantir a segurança destes alimentos.
2- Quais são os pontos críticos de controle nesse tipo de produto?
Professora Wellingta: Para definição dos pontos críticos de controle (PCC) torna-se necessário conhecer especificamente o processo, uma vez que o Sistema de Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controle (APPCC) é uma identidade da linha de produção, na qual, além dos PCCs é possível estabelecer também Pontos de Controle (PC).
De forma geral, são produtos que passam por tratamento térmico, cujo controle da temperatura é importante para o controle do perigo microbiológico, sendo, portanto, um PCC microbiológico. Além do tratamento térmico, a etapa de secagem, cujo controle da Aw final do produto é importante para impossibilitar o desenvolvimento microbiano, poderá ser também um PCC.
Importante destacar que, no caso de Bacillus cereus, microrganismo envolvido nos recentes casos de Recall de fórmulas infantis, poderá ocorrer a formação de esporos, que não serão eliminados por tratamentos térmicos de pasteurização, podendo estar presentes no produto final. O controle da Aw dos produtos torna-se de fundamental importância para impedir a germinação destes esporos e consequente formação da célula vegetativa, a qual poderá produzir a toxina cereulida no produto.
A toxina cereulida é bastante preocupante quando presente também nas matérias primas, pois assim como os esporos, são termoresistentes, com alta probabilidade de estarem presentes no produto final.
3- Os recentes recalls relacionados ao Bacillus cereus levantaram questões importantes. O que esse organismo faz? Por que ele aparece em fórmulas infantis em pó?
Professora Wellingta: Bacillus cereus é uma bactéria patogênica, relacionada à dois tipos de doença: síndromes eméticas e diarreicas. A síndrome emética ocorre quando há o consumo de alimentos contendo a toxina (cereulida) pré-formada, produzida pelo microrganismo, durante o armazenamento incorreto do produto ou matéria prima. Há uma preocupação crescente em relação à presença de cereulida nos alimentos processados, pois, são toxinas termorresistentes, cujos tratamentos térmicos empregados pela indústria poderão eliminar o microrganismo sem, contudo, inativar a toxina. Os sintomas da intoxicação incluem náuseas, vômitos, mal-estar.
A síndrome diarreica, é causada pela ingestão do alimento contendo células bacterianas, as quais podem se multiplicar no intestino delgado, produzir enterotoxinas e ocasionarem perda de íons e água, provocando dores abdominais, diarreia aquosa, dentre outros.
Considerando a produção de esporos, Bacillus cereus é amplamente distribuído, estando presentes em matérias-primas como arroz, leite e produtos lácteos, carne e derivados, vegetais, especiarias, etc. sendo o solo o seu reservatório natural. Em fórmulas infantis podem ser provenientes do próprio leite e demais matérias primas utilizadas.
Há uma preocupação adicional durante o preparo das fórmulas infantis para serem usadas tanto em hospitais quanto em domicílios, uma vez que após a reconstituição do produto, haverá aumento na Aw e possibilidade de germinação de esporos, sendo necessários cuidados redobrados.
4- O que esses recalls realmente significam para a segurança dos bebês?
Professora Wellingta: O recolhimento destes produtos é de suma importância, uma vez que a presença da toxina cereulida na matéria prima evidencia sua presença no produto final, o que é bastante arriscado, principalmente para um alimento destinado a um público que faz parte do grupo de risco, como bebês.
5- O que as empresas precisam melhorar para reduzir a ocorrência de recalls?
Professora Wellingta: O recolhimento de alimentos, é estabelecido em lei (RDC nº 275/2002, Decreto 10.468/2020, RDC 655/2021), como uma forma de proteger a saúde do consumidor quando uma empresa identificar não conformidades em seus produtos, após a distribuição para o comércio, podendo ser voluntário ou determinado pela ANVISA.
Sabemos que, embora necessário, trata-se de uma forma de correção de um problema detectado, após a distribuição, o que não garante que o perigo não tenha atingido algum consumidor. Além disso, as análises de alimentos são realizadas por amostragem, ou seja, caso ocorra alguma falha e consequente introdução de um perigo em um alimento, pode acontecer do problema não ser detectado na amostragem, indicando que trabalhar de forma preventiva é a melhor alternativa.
Assim, a correta adoção de sistemas de gestão da segurança de alimentos, como Boas Práticas de Fabricação, Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controle, aliado a esforços voltados para melhoria na seleção de fornecedores e valorização das normas certificadoras dos sistemas de gestão, possibilitarão a produção de alimentos mais seguros, reduzindo a necessidade de recolhimento dos produtos.