Influenza aviária: impactos na avicultura, saúde pública e biodiversidade

Desde 1997, a influenza aviária tem despertado preocupação mundial em razão de seu potencial zoonótico, ou seja, de transmissão para seres humanos. O alerta global teve início com o primeiro surto documentado do vírus da gripe aviária A (H5N1) em humanos, registrado em Hong Kong, no qual os pacientes apresentaram sintomas respiratórios severos.

O vírus, que circula principalmente entre aves silvestres e espécies como patos, perus, gansos e galinhas, é geralmente de baixa patogenicidade, causando poucos ou nenhum sintoma nesses hospedeiros. No entanto, subtipos como H5 e H7 podem sofrer mutações genéticas e se tornar altamente patogênicos, provocando surtos letais em aves domésticas, com índices de mortalidade próximos a 100%.

Historicamente, o Brasil manteve um status privilegiado como um dos poucos grandes produtores avícolas mundiais livres da Influenza Aviária de Alta Patogenicidade (IAAP) em seu plantel comercial. Esse StatusEsse é um pilar para o sucesso do país como o maior exportador de carne de frango do mundo. Contudo, em maio de 2023, o cenário mudou com a detecção dos primeiros focos de IAAP em aves silvestres no litoral brasileiro. Em resposta, o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) declarou estado de emergência zoossanitária em todo o território nacional. A medida, de caráter preventivo, visa mobilizar recursos e intensificar as ações de vigilância e biosseguridade para impedir que o vírus alcance as granjas comerciais.

 

FIGURA 1 – Monitoramento sanitário e ações de vigilância são fundamentais para prevenir a disseminação da Influenza Aviária e proteger a saúde pública e animal. Fonte: GOMES (2024)

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), entre janeiro de 2003 e agosto de 2023, foram registrados 878 casos de infecção humana pelo vírus H5N1 em 23 países, dos quais 458 resultaram em óbito, o que representa uma taxa de letalidade de 52%.

A Influenza Aviária é uma doença infecciosa complexa que ocorre em todo o mundo causada por vírus do tipo A, classificados com base em duas proteínas de superfície: hemaglutinina (HA), com 16 subtipos (H1-H16), e neuraminidase (NA), com nove subtipos (N1-N9), permitindo diversas combinações como H5N1, H5N2, H7N2 e H7N8.

Os vírus da Influenza Aviária também são classificados em dois grupos conforme sua capacidade de causar doenças em aves: influenza aviária de baixa patogenicidade, que normalmente causa poucos sinais clínicos ou nenhum sinal clínico, e Influenza Aviária de Alta Patogenicidade, que pode causar sinais clínicos severos e alta mortalidade. Os vírus H5 e H7 de baixa patogenicidade têm potencial de mutação para alta patogenicidade e, por isso, são monitorados com atenção pelas autoridades sanitárias.

Nas aves, os vírus da gripe aviária são eliminados principalmente pelas fezes e secreções respiratórias, e a transmissão ocorre por contato direto com essas secreções ou com alimentos, água e equipamentos contaminados. Devido à sua resistência, especialmente em baixas temperaturas, o vírus pode se espalhar com facilidade entre granjas.

Com taxas de mortalidade elevadas, a gripe aviária impacta seriamente a saúde de aves domésticas e silvestres. Apesar de muitas vezes serem vetores, aves selvagens, inclusive espécies ameaçadas, também são afetadas, com consequências devastadoras para a biodiversidade. A exposição direta a aves silvestres infectadas, especialmente aquáticas, costeiras e migratórias, que frequentemente são portadoras assintomáticas, é considerada o principal fator de transmissão da Influenza Aviária. Essas aves percorrem grandes distâncias e disseminam o vírus ao longo de suas rotas migratórias.

Um dos desenvolvimentos mais alarmantes nos surtos recentes tem sido a crescente detecção do vírus H5N1 em mamíferos, incluindo animais selvagens como leões-marinhos e raposas, e até mesmo em rebanhos de mamíferos de produção em alguns países. Essa expansão demonstra a notável capacidade de adaptação do vírus, que ao infectar mamíferos pode adquirir mutações que facilitariam uma eventual transmissão eficiente entre seres humanos, o que é considerado o passo crítico para uma nova pandemia.

Este cenário reforça a urgência da abordagem de Saúde Única (One Health), um conceito que reconhece a profunda interconexão entre a saúde humana, a saúde animal e a saúde dos ecossistemas. O controle eficaz da Influenza Aviária, portanto, não depende apenas de médicos ou veterinários isoladamente, mas da colaboração integrada entre profissionais de saúde, agrônomos, biólogos e autoridades ambientais para monitorar e mitigar os riscos na interface homem-animal-ambiente.

Fatores contribuintes para a disseminação do vírus incluem: globalização e comércio internacional, com o intenso fluxo de pessoas e mercadorias; feiras e mercados de aves vivas, que favorecem o contato entre espécies diferentes e seres humanos, aumentando o risco de transmissão e recombinação genética entre vírus.

A Influenza Aviária é de baixa prevalência em humanos, mas apresenta alto potencial patogênico. A partir de 2022, houve um aumento significativo de surtos, segundo a Organização Mundial de Saúde Animal. O atual vírus da Influenza Aviária de Alta Patogenicidade apresenta letalidade de 63,3%.

Além dos graves riscos à saúde pública e animal, a Influenza Aviária representa uma ameaça econômica colossal para a avicultura. Um surto em uma granja comercial desencadeia a necessidade de “sacrifício sanitário” de todo o plantel da propriedade afetada e de outras na zona de risco para conter a doença, gerando perdas diretas e imediatas aos produtores. Em escala macroeconômica, a principal consequência é a imposição de barreiras comerciais e embargos por países importadores, que suspendem a compra de produtos avícolas da região ou do país afetado.

Esses bloqueios comerciais causam prejuízos bilionários, desestabilizam a cadeia produtiva, elevam os custos com vigilância e controle e podem gerar desemprego e retração no setor. A queda na confiança do consumidor, mesmo que o risco de contaminação por consumo de produtos cozidos seja nulo, também pode impactar negativamente o mercado interno.

Diante desse cenário, as principais estratégias de controle incluem: vigilância ativa dos casos, isolamento de casos e contatos; tratamento dos doentes; profilaxia dos contatos e imunização da população suscetível.

Contudo, considerando a limitação na produção de vacinas e antivirais, vigilância e isolamento são as medidas mais eficazes atualmente. A conscientização da população e dos profissionais de saúde sobre os riscos e ações frente a casos suspeitos é fundamental.

Medidas Preventivas

Vacinação: disponível para cepas específicas, como a H5N1, destinada a trabalhadores avícolas e profissionais da saúde em regiões de risco.
Controle de infecção: inclui isolamento, uso de equipamentos de proteção individual (EPI)e práticas de higiene, como a lavagem das mãos.
Profilaxia pós-exposição: uso de inibidores de neuraminidase para contatos próximos de infectados.

Biosseguridade e Mitigação

A biosseguridade é essencial na prevenção e controle da Influenza Aviária de Alta Patogenicidade. Ela envolve práticas para minimizar o risco de introdução e disseminação do vírus nas populações avícolas, como: controle de acesso às instalações; desinfecção de veículos e equipamentos; uso de EPI; monitoramento da saúde das aves; restrição do trânsito de animais e produtos avícolas.

Além disso, é importante aplicar medidas específicas nos sistemas de produção intensiva, onde a proximidade entre aves favorece a rápida disseminação do vírus. Uma vez introduzido, o controle torna-se extremamente difícil, dada a alta virulência da IAAP, capaz de matar as aves em até 48 horas.

Medidas de mitigação devem considerar: a interação entre aves selvagens e aves comerciais; A persistência ambiental do vírus; A necessidade de descarte seguro de dejetos; A vulnerabilidade de granjas localizadas em rotas migratórias.

Portanto, limitar a exposição de aves domésticas a aves silvestres, especialmente migratórias e aquáticas, é uma das principais formas de prevenir a introdução da Influenza Aviária nos plantéis comerciais e evitar sua evolução para formas mais graves
ou transmissíveis entre humanos.

Carnes e ovos podem ser consumidos com segurança, desde que preparados adequadamente. O consumo de carne e ovos crus ou mal cozidos de áreas com surtos de gripe aviária é de alto risco e deve ser evitado. Da mesma forma, animais doentes ou que morreram inesperadamente não devem ser consumidos.

É essencial adotar medidas preventivas, já que se trata de uma doença que pode se espalhar com facilidade, causando sérios prejuízos à saúde das pessoas e dos animais, além de grandes perdas econômicas.

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