A doença de chagas e o consumo de açaí: o vetor que ninguém vê

Em 1909, no Estado de Minas Gerais, o médico e pesquisador Carlos Chagas identificou uma nova doença tropical que afetava a população local. A enfermidade, posteriormente batizada com seu sobrenome (Doença de Chagas), é causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi e transmitida por um inseto popularmente conhecido como barbeiro. Trata-se de uma doença infecciosa que atinge milhões de pessoas no mundo e apresenta duas fases distintas: aguda e crônica.

A doença de Chagas pode ser transmitida por diversas vias. A forma clássica ocorre pela picada do inseto vetor, que elimina fezes contaminadas com o protozoário T. cruzi próximo ao local da picada. Ao coçar a região, a pessoa pode permitir a entrada do parasita pela pele lesionada. Além disso, a doença pode ser transmitida por transfusão de sangue, transplante de órgãos de doadores infectados, da mãe para o feto durante a gestação ou no parto (transmissão congênita), e ainda por acidentes em laboratórios.

Nos últimos anos, uma forma preocupante de transmissão ganhou destaque: a transmissão oral, através da ingestão de alimentos ou bebidas contaminadas com o parasita, tem se estabelecido como a principal via de infecção em surtos epidêmicos recentes.

Há evidências que apontam o consumo de açaí como uma das principais vias de transmissão da Doença de Chagas no Brasil, especialmente no estado do Pará. Conforme Ferreira (2022). Entre os anos de 2010 e 2017, foram confirmados 1.007 casos da doença nesse estado. Somente entre 2015 e 2016, observou-se um aumento significativo, com os casos subindo de 235 para 311. O Pará apresenta números alarmantes de infecções, o que pode estar relacionado ao fato de ser um dos maiores produtores de açaí do país, favorecendo a exposição ao T. cruzi por meio de frutos contaminados.

O período de incubação do protozoário varia, com sintomas surgindo de cinco a vinte e dois dias após a ingestão do açaí contaminado. Os sintomas geralmente são inespecíficos, semelhantes a outras doenças tropicais, dificultando o diagnóstico. Durante a fase aguda, os parasitas podem ser encontrados no sangue, e os sintomas incluem febre, vômito, diarreia, dor abdominal, hepatomegalia, edemas e alterações cardíacas.

O prognóstico nem sempre é favorável, pois essa doença pode levar a pessoa contaminada a óbito ou evoluir para uma forma crônica, assintomática, ou desenvolver complicações cardíacas, como arritmias e cardiomiopatia dilatada.

Fonte: SINAN. Dados atualizados em 29/06/2021.

Devido à semelhança dos sintomas com outras doenças e à falta de familiaridade dos profissionais de saúde com a Doença de Chagas, há atraso no diagnóstico correto, sendo muitas vezes confundida com enfermidades comuns de clima tropical, como adengue ou malária.

Como evitar a transmissão de Chagas por meio do açaí? A transmissão da Doença de Chagas pelo consumo do açaí é uma preocupação para asaúde pública, mas existem métodos eficazes para mitigar esse risco. A legislação brasileira, por meio da Instrução Normativa n. 37 de 2018 do Ministério da Agricultura e Pecuraia (MAPA), estabelece padrões de qualidade e segurança sanitária na produção da polpa de açaí, que visa prevenir e reduzir a presça de sujidades, parasitas, insetos e microrganismos.

No entanto, a ausência de processos rigorosos durante o beneficiamento da polpa do açaí em algumas etapas da cadeia produtiva ainda representa um risco considerável. Para garantir a segurança do açaí e prevenir a contaminação, são recomendados dois processos principais:

Higiene rigorosa e seleção criteriosa dos frutos: durante a colheita dos furtos retirar as impurezas e resíduos visíveis, a realização de uma lavagem e seleção de frutos de qualidade são práticas essenciais para garantir a boa procedência e qualidade do produto.

Branqueamento: tratamento térmico realizado nos frutos recém-colhidos em água na temperatura de 80 °C por dez segundos, seguido de resfriamento. Esse choque térmico inativa o T. cruzi, preservando a textura e coloração do açaí. Entretanto, esse processo pode causar perdas sensoriais, como redução do sabor e diminuição do teor de compostos bioativos. No Estado do Pará, desde 2012, o branqueamento tornou-se obrigatório para batedeiras artesanais e agroindústrias que não utilizam pasteurização.

● A pasteurização: é uma técnica que envolve o aquecimento da polpa entre 80 °C e 90 °C, seguido de congelamento. Assim como o branqueamento, inativa o parasita por choque térmico. No entanto, pode alterar a coloração da polpa e requer equipamentos mais sofisticados.

É fundamental que os consumidores busquem adquirir polpas de açaí de fontes confiáveis, com selos de inspeção e rastreabilidade garantida, como forma de complementar as ações de controle e prevenção.

A adoção rigorosa de boas práticas de higiene e a aplicação de tratamentos térmicos adequados pelos produtores são medidas essenciais para prevenir surtos de Doença de Chagas aguda associados ao consumo de açaí contaminado, garantindo a segurança alimentar e a proteção da saúde dos consumidores.

Agradecimentos

À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) (Processo n. 303505/2023-0), Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (FAPEG), Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) e IF Goiano – Campus Rio Verde pelo apoio á realização da pesquisa.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

● ASSIS, Sandra Núbia de Souza. LIMA, Renato Abreu. Doença de chagas: uma reflexão para a saúde pública sobre o processamento artesanal e industrial do açaí. Revista Valore, Volta Redonda, 9, 202. Disponível em https://revistavalore.emnuvens.com.br/valore/article/view/981/1223. Acesso em: 15 jun. 2025.

● BRASIL. Ministério da Saúde. Situação Epidemiológica. O risco de transmissão vetorial da doença de Chagas persiste em função da. 2021. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/d/doenca-de- chagas/situacao-epidemiologica. Acesso em: 14 jun. 2025.

● FERREIRA, letícia Corrêa Gomes. Doença de chagas: incidência de casos no brasil por consumo de açaí. Dissertação para conclusão do Curso de Graduação de Biomedicina – Centro Universitário Sagrado Coração. Bauru, 2022. Disponível em: https://repositorio.unisagrado.edu.br/bitstream/handle/1448/1/DOEN%c3%87A %20DE%20CHAGAS%20INCID%c3%8aNCIA%20DE%20CASOS%20NO% 20BRASIL%20POR%20CONSUMO%20DE%20A%c3%87A%c3%8d.pdf. Acesso em: 15 jun. 2025.

● PACHECO, Luciano Vasconcellos. SANTANA, Leonora Souza. BARRETO, Breno Cardim. SANTOS, Emanuelle de Souza. MEIRA, Cássio Santana. Transmissão oral da doença de chagas: uma revisão de literatura. Research, Society and Development, v. 10, n.2, 2021. Disponível em: https://rsdjournal.org/index.php/rsd/article/view/12636/11312. Acesso em: 13 jun. 2025. SANTOS, Daniele Rodrigues. GONÇALVES, Divino Lúcio de Sousa.

SANTOS, Walquíria Lene. Doença de chagas: uma revisão integrativa. Revista. JRG de Estudos Acadêmicos, Ano 5, Vol. V, n.10, jan.-jul., 2022.

Disponível em: https://revistajrg.com/index.php/jrg/article/view/330/411. Acesso em: 15 jun. 2025.

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