Contaminação por glúten em suplementos: como análises laboratoriais podem ajudar

A Especialista Cândida Bosich, responsável pelo laboratório GTA Alimentos, compartilhou seus conhecimentos sobre o assunto

Impulsionado pela busca por uma alimentação mais saudável, o mercado de suplementos alimentares segue em ascensão no Brasil. De acordo com o mais recente boletim econômico da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos para Fins Especiais e Congêneres (Abiad), nos primeiros nove meses de 2024, o consumo aparente de complementos alimentares e suplementos se destacou com crescimento de 5,8% em relação ao mesmo período de 2023. A associação estima que seis em cada dez brasileiros usam atualmente suplementos.

Com esse crescimento, também aumenta a responsabilidade das indústrias em garantir a pureza e a segurança dos produtos. Entre os principais desafios está o controle da contaminação cruzada por glúten, um risco invisível que pode comprometer a saúde de pessoas com doença celíaca ou sensibilidade ao glúten, além de colocar em xeque a credibilidade das marcas.

Em entrevista ao Portal e-food, a especialista Cândida Bosich, responsável pelo laboratório GTA Alimentos, explica que a contaminação pode ocorrer em diversos pontos da cadeia produtiva, e que o grande vilão costuma ser o equipamento compartilhado.

“Misturadores, moinhos, linhas de envase… se não tiver uma limpeza validada, aumenta-se a possibilidade de permanecer resíduo nestas superfícies. E suplemento é complicado porque geralmente a produção envolve vários pós fininhos, que se espalham fácil. Outro ponto é o armazenamento: se matérias-primas com glúten ficam perto das sem glúten, é muito fácil acontecer contaminação. Até poeira suspensa pode levar proteína de um lado para o outro. E tem o famoso ‘rework’, quando reaproveitam lotes. Se não houver controle adequado, o risco de contaminação cruzada é alto”, explica Bosich.

A doença celíaca (DC) é uma doença autoimune causada pela ingestão de glúten em pessoas geneticamente predispostas. De acordo com a Federação Nacional das Associações de Celíacos do Brasil (Fenacelbra), estima-se que, no Brasil, há aproximadamente 2 milhões de celíacos, sendo a maioria não diagnosticada. No mundo, a estimativa é que 1% da população seja celíaca.

A DC induz uma reação inflamatória que compromete as vilosidades do intestino delgado, levando à má absorção de nutrientes e a manifestações gastrointestinais e extraintestinais. Embora outras abordagens de tratamento estejam sendo estudadas, a adesão a uma dieta sem glúten é a única intervenção eficaz até o momento. Apesar disso, cerca de 50% dos pacientes apresentam inflamação persistente, frequentemente associada à ingestão não intencional de glúten por meio de alimentos contaminados.

De acordo com a Lei nº 10.674/2003, todo alimento deve informar no rótulo se “contém” ou “não contém glúten”. O limite adotado, conforme o Codex Alimentarius, é de até 20 ppm para ser considerado “sem glúten”. Assim, se um produto apresenta 5 ppm, ainda está dentro da legislação, mas já indica algum nível de contato.

Para declarar “não contém glúten”, as empresas precisam comprovar por análise laboratorial e controle de processo. Cândida explica que, na GTA Alimentos, é utilizado o método oficial do escopo da Anvisa, baseado na técnica ELISA (Enzyme-Linked Immunosorbent Assay), reconhecida internacionalmente e validada para detectar a presença de glúten em suplementos.

“É um método super sensível, capaz de detectar frações específicas do glúten, como a gliadina. Quando o suplemento é muito processado — tipo hidrolisado —, usamos a versão competitiva do ELISA, desenvolvida justamente para matrizes mais complexas. Também contamos com testes rápidos para triagem inicial, quando há necessidade de resultado mais imediato, mas o laudo oficial vem sempre do método do escopo”, detalha.

Ainda segundo a especialista, os kits de ELISA conseguem detectar níveis muito baixos, de 1 a 5 ppm, portanto, até traços mínimos aparecem na análise. “Claro que isso varia um pouco conforme o tipo de produto. Cápsulas e comprimidos costumam ser mais tranquilos, mas líquidos ou fórmulas com proteínas hidrolisadas podem dificultar um pouco a recuperação do glúten”, completa.

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Fiscalização e riscos regulatórios

Cândida Bosich observa que a Anvisa tem intensificado a fiscalização no setor de suplementos, acompanhando a crescente demanda por produtos “sem glúten”. “O consumidor está mais atento e exige clareza, e isso acaba puxando a fiscalização também. Hoje, se uma empresa lança suplemento ‘sem glúten’ sem laudo, é questão de tempo até receber uma notificação”, diz a especialista.

Empresas flagradas em desconformidade podem sofrer multas, recolhimento de produtos, processos por propaganda enganosa e, principalmente, colocar em risco a saúde de consumidores celíacos. “Além disso, tem o impacto na reputação da marca. Imagina perder a confiança de um consumidor que busca justamente segurança? Recuperar isso é bem mais difícil do que investir em análise desde o início”, conclui Bosich.

GTA Alimentos

Considerado um dos maiores laboratórios de análises de alimentos do Brasil, a GTA é um laboratório e empresa de consultoria especializada em alimentos e bebidas. Foi fundada em 2008, com o objetivo de oferecer soluções integradas em sistemas de gestão da qualidade e suporte em legislação.

Em 2021 a GTA Alimentos se tornou um dos laboratórios de Controle de Qualidade de Alimentos mais completos do país, aumentando seu escopo junto a Coordenação Geral de Acreditação do Inmetro (CGCRE), permitindo a solicitação de credenciamento no Ministério da Agricultura (MAPA).

Entre os pontos fortes da GTA Alimentos constam coleta e entrega rápida, além de cerca de 300 ensaios acreditados.

Acesse o site da GTA Alimentos e confira os serviços disponíveis.

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  1. Embora o Codex preconize menos de 20ppm para rotulagem, no Brasil não há limite estabelecido na Lei Federal 10674/2003. Para ser considerado sem glúten deve ser menor que o limite dos testes: 5ppm para o teste Eliisa Sandwich ou menor que 10ppm para o teste Elisa Competitive.

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