Introdução
A cúrcuma (Curcuma longa L.) é uma planta originária da Ásia, amplamente utilizada na culinária e na medicina tradicional devido aos seus múltiplos benefícios à saúde. Seu principal composto bioativo é a Curcumina (Figura 1), que representa cerca de 2% a 5% de sua composição. Responsável pela coloração amarela intensa da cúrcuma, a curcumina pertence ao grupo dos curcuminóides e apresenta estrutura química semelhante à dos pigmentos naturais como os carotenoides (Silva; Santiago, 2020; Ciuca; Racovita, 2023).
No Brasil, o uso da cúrcuma tem se intensificado principalmente por suas propriedades corantes e pela capacidade de melhorar o sabor e o aroma dos alimentos. O pó da cúrcuma apresenta sabor amargo, levemente picante, com fragrância suave, e notas que lembram laranja e gengibre (Verma et al., 2018). Além de seu valor culinário, a cúrcuma destaca-se por suas propriedades funcionais, incluindo ações antioxidante, anti-inflamatória, antimicrobiana, hepatoprotetora, anticancerígena, antidepressiva, além de contribuir para o controle da glicemia (Silva; Santiago, 2020; Ciuca; Racovita, 2023).
A curcumina é o composto responsável por grande parte dessas propriedades terapêuticas. Estudos demonstram que ela exerce múltiplos efeitos benéficos sobre o organismo, atuando em vias metabólicas e celulares associadas à inflamação, apoptose e estresse oxidativo (Jyotirmayee; MahalikÍcone, 2022).
Tanto na forma de pó (Figura 1) quanto como extrato ou composto isolado, a cúrcuma demonstra ampla variedade de atividades farmacológicas com baixa incidência de efeitos adversos. No mercado nacional e internacional, encontram-se diversos produtos enriquecidos com curcumina, destinados à prevenção e ao tratamento de diferentes enfermidades. Ao contrário de muitos fitoantioxidantes, a curcumina é considerada segura, atóxica e altamente eficaz, o que justifica seu uso terapêutico. A administração oral tem mostrado efeitos positivos em condições como diabetes, câncer, doenças gastrointestinais e neurológicas (Jyotirmayee; MahalikÍcone, 2022).
É importante ressaltar que a curcumina também apresenta atividade antimicrobiana, sendo eficaz contra bactérias, fungos e vírus, inclusive estirpes resistentes a antibióticos (Almeida; Pereira, 2021). No âmbito cardiovascular, a curcumina promove melhora da função endotelial, reduz os níveis de colesterol LDL e auxilia na diminuição da pressão arterial (Lima et al., 2019). Ela também possui ação neuroprotetora, sendo estudada na prevenção e tratamento de doenças neurodegenerativas como Alzheimer e Parkinson, devido à sua capacidade de atravessar a barreira hematoencefálica e reduzir a neuroinflamação (Carvalho et al., 2017).
Assim, a curcumina tem se consolidado como objeto de intenso interesse da comunidade científica, tanto pela diversidade de suas ações biológicas quanto pelo potencial de aplicação na promoção da saúde e na prevenção de doenças.
Figura 1: Cúrcuma longa L., detalhe da inflorescência, rizomas e a forma em pó.

Fonte: https://www.shutterstock.com/pt/search/flor-da-curcuma e https://www.emporiofolhaevida.com.br/produto/acafrao-da-terra-curcuma-curcuma-longa-em-po/
Curcumina e sua ação corante
Quimicamente, a curcumina é um composto polifenólico responsável pela intensa coloração amarela da cúrcuma. Sua estrutura é formada por dois anéis aromáticos ligados por uma cadeia de sete carbonos, contendo grupos cetona e fenólicos (Figura 2), o que lhe confere propriedades cromáticas e bioativas. Embora compartilhe características com outros pigmentos naturais, como os carotenoides, a curcumina não pertence a esse grupo (Almeida; Pereira, 2021).
Figura 2: Estrutura química da Curcumina.

Fonte: Drielly et al., 2021
O uso da curcumina como corante é expressivo nas indústrias alimentícia, cosmética e farmacêutica. Na indústria de alimentos, é regulamentada sob a designação E100, sendo amplamente empregada como substituta de corantes sintéticos devido à sua origem vegetal, à coloração marcante e às propriedades funcionais associadas (Prasad; Tyagi; Aggarwal, 2014).
Apesar de sua estabilidade em meios ácidos e da coloração intensa, a curcumina apresenta baixa solubilidade em água e é instável à luz, ao calor e em pH alcalino, o que limita sua aplicação direta (Silva; Santiago, 2020).
Nandiyanto et al. (2017) demonstraram que a extração da curcumina pode ser realizada de forma simples e de baixo custo, utilizando etanol como solvente e evaporador rotativo. Porém cuidados devem ser tomados no desenvolvimento de produtos que envolvam aquecimento, como alimentos cozidos.
Abdeldaiem (2013), em um estudo experimental avaliou a extração de curcumina utilizando solventes acetona e hexano, com foco em sua solubilidade e aplicação em alimentos. O pigmento demonstrou excelente estabilidade antioxidante quando adicionado a óleo de soja e apresentou eficácia como corante natural em filés de peito de frango, com a proporção de 3% sendo a mais bem avaliada sensorialmente. Esses resultados reforçam seu potencial funcional e tecnológico na indústria alimentícia.
Por ser um pigmento natural, biodegradável, acessível e seguro para o consumo humano, a curcumina se apresenta como uma alternativa promissora aos corantes sintéticos, especialmente em formulações que priorizam ingredientes naturais e rotulagem limpa. Sua versatilidade, aliada às propriedades funcionais, confere-lhe alto valor agregado e ampla aplicabilidade em alimentos funcionais, medicamentos fitoterápicos e cosméticos naturais (Nandiyanto et al., 2017).
Curcumina e sua atividade antioxidante
A curcumina possui potente atividade antioxidante e tanto os extratos hidrossolúveis quanto os lipossolúveis da cúrcuma e da curcumina apresentam eficácia comparável à das vitaminas C e E (Jyotirmayee; MahalikÍcone, 2022). Essa propriedade é fundamental para a proteção do organismo contra o estresse oxidativo e seus efeitos deletérios.
O efeito antioxidante da curcumina está relacionado à sua capacidade de doar elétrons e interagir com espécies reativas de oxigênio (ROS), neutralizando radicais livres, prevenindo a peroxidação lipídica e protegendo as estruturas celulares contra danos oxidativos (Souza et al., 2018). Além disso, estimula a produção de enzimas antioxidantes endógenas, como a superóxido dismutase (SOD) e a catalase, fortalecendo as defesas celulares (Lima et al., 2019).
Esses mecanismos são relevantes na prevenção de doenças crônicas não transmissíveis, incluindo doenças cardiovasculares, metabólicas e neurodegenerativas, todas associadas a danos provocados por radicais livres. De modo geral, antioxidantes atuam inibindo a formação, promovendo a eliminação ou acelerando a degradação dessas espécies reativas, protegendo tecidos contra lesões e inflamações (Jyotirmayee; MahalikÍcone, 2022).
A ação hepatoprotetora da curcumina é atribuída à sua capacidade de reduzir a produção de citocinas pró-inflamatórias favorecendo a proteção e regeneração hepática, reforçando seu potencial terapêutico em diversas condições inflamatórias e degenerativas.
Nos últimos anos, tem crescido o interesse por substâncias naturais com ação antioxidante, especialmente em regiões com acesso limitado à medicina convencional. Nesse contexto, práticas tradicionais associadas a tecnologias modernas têm sido valorizadas.
Borra et al. (2013) comprovaram o elevado potencial da curcumina pura na neutralização de radicais livres, em comparação com o ácido ascórbico por meio de testes in vitro e in vivo e observaram o elevado potencial antioxidante e de eliminação de radicais livres da curcumina. Saranya et al. (2017) verificaram que os extratos de rizomas maduros de cúrcuma apresentaram maior atividade antioxidante do que os extratos de rizomas jovens. Em testes com o radical DPPH (2,2-difenil-1-picril-hidrazil) e a técnica de redução de ferro (FRAP), a cúrcuma demonstrou potencial comparável ao antioxidante sintético BHA (Butil-hidroxianisol), especialmente no extrato clorofórmico, atribuído ao maior teor de compostos fenólicos.
Ação anti-inflamatória da curcumina com foco no tratamento de lesões cutâneas
A pele é o maior órgão do corpo humano e exerce funções importantes na proteção do corpo e no controle da temperatura, permitindo a sensibilidade do corpo frente às condições ambientais. É formada por duas camadas principais: a epiderme e a derme, cada uma com células e funções diferentes. Quando a pele é lesionada, esta precisa se recuperar, passando pelo processo de cicatrização, que se divide em três fases: inflamatória, proliferativa e remodelagem. Cada fase envolve eventos diferentes que dependem de nutrientes específicos para auxiliar na sua recuperação (Terraciano, 2023).
A inflamação, por sua vez, é um processo fisiológico e patológico multifacetado, que atua como resposta adaptativa a agentes nocivos, como infecções ou lesões, com o objetivo de restaurar a homeostase. Pode ser classificada em aguda, que é transitória e benéfica, ou crônica, que persiste por longos períodos e está relacionada à progressão de doenças como obesidade, diabetes, artrite, pancreatite, doenças cardiovasculares, neurodegenerativas, metabólicas e certos tipos de câncer. Mecanismos inflamatórios associados a doenças como artrite, psoríase e aterosclerose têm sido amplamente estudados, devido ao acúmulo de mediadores inflamatórios nos tecidos afetados, o que perpetua um ciclo vicioso entre inflamação e progressão da doença (Peng et al., 2021).
Nesse contexto, a curcumina tem se destacado como agente terapêutico, especialmente no tratamento tópico de lesões cutâneas como hidrogéis, nanoemulsões, filmes de colágeno, bandagens poliméricas e membranas nanofibrosas. Estudos mostram que a curcumina tem demonstrado eficácia na modulação de vias inflamatórias e na inibição de mediadores inflamatórios. Estudos in vitro e in vivo mostram que a curcumina reduz a liberação de citocinas inflamatórias, como IL-8 e TNF-α, por monócitos e macrófagos, além de inibir enzimas como COX-2 e LOX. Também atua na redução da resposta inflamatória mediada pela angiotensina II, via ativação do receptor PPAR-γ, e inibe a formação do complexo TLR4-MD2 ao competir com o LPS pela ligação ao MD2. Outro mecanismo relevante é a inibição direta ou indireta do inflamossomo NLRP3, por meio da supressão da via NF-κB, evidenciando seu potencial no tratamento de doenças inflamatórias crônicas (Kasprzak-Drozd et al., 2024).
Além de suas propriedades anti-inflamatórias, a curcumina também apresenta potente ação antioxidante, como dito anteriormente. Espécies reativas de oxigênio (EROs), embora importantes na defesa contra microrganismos em feridas, quando em excesso, causam estresse oxidativo, comprometendo a integridade celular e agravando a inflamação. Assim, a aplicação tópica de antioxidantes, como a curcumina, pode neutralizar os radicais livres, favorecendo a cicatrização (Fereydouni et al., 2019). Estudos clínicos demonstram que a curcumina possui atividade antioxidante significativa (Kant et al., 2014; Zhao et al., 2019). A matriz de colágeno incorporada à curcumina (CICM) mostrou-se eficaz na eliminação de radicais livres por meio de testes de peroxidação lipídica. Em modelos experimentais com ratos diabéticos, a curcumina promoveu maior contração das feridas e reduziu a expressão de mediadores inflamatórios como TNF-α, IL-1β e MMP-9, sugerindo seu uso como estratégia terapêutica promissora na regeneração de feridas em pacientes diabéticos (Gopinath et al., 2004).
Considerações Finais
A curcumina, principal composto bioativo da cúrcuma, destaca-se como uma substância de amplo potencial terapêutico, devido às suas comprovadas propriedades corante, antioxidante e anti-inflamatória. Sua eficácia na neutralização de radicais livres e na modulação de vias inflamatórias reforça seu uso como agente coadjuvante na prevenção e tratamento de doenças crônicas, bem como na cicatrização de feridas, especialmente em condições associadas a inflamação persistente e estresse oxidativo, como o diabetes. Além disso, sua aplicação como corante natural agrega valor funcional e tecnológico em diversas indústrias. Apesar de limitações quanto à sua solubilidade e estabilidade, estratégias como encapsulamento podem ampliar seu uso e sua biodisponibilidade.
Referências
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