INTRODUÇÃO
Na suinocultura moderna, o bem-estar animal é reconhecido como um fator estratégico, uma vez que influencia diretamente os resultados produtivos, a qualidade dos produtos obtidos e a sustentabilidade da atividade. Além dos aspectos éticos envolvidos, as condições de criação influenciam significativamente a saúde dos animais, o desempenho zootécnico e a qualidade da carne produzida (Dalla Costa et al., 2019).
Ao longo do ciclo produtivo, os suínos são expostos a diversos desafios que podem comprometer seu equilíbrio fisiológico e comportamental. O desmame, a mistura de lotes, as mudanças de instalações, o transporte e o manejo pré-abate estão entre os principais fatores estressantes observados nos sistemas intensivos de produção. A intensidade e a duração desses estímulos podem desencadear alterações comportamentais, imunológicas e metabólicas capazes de comprometer o desempenho dos animais e a qualidade da carne produzida (Faucitano; Schaefer, 2008; Mormède et al., 2007).
Portanto, a busca por tecnologias que auxiliem na adaptação dos suínos a essas situações tem despertado crescente interesse da pesquisa e do setor produtivo. Entre as alternativas disponíveis, destacam-se os feromônios apaziguadores maternos, compostos que reproduzem sinais químicos naturalmente presentes na comunicação entre a matriz e seus leitões (Marcet-rius et al., 2022).
DESENVOLVIMENTO E DISCUSSÃO
Comunicação química e o papel dos feromônios apaziguadores
Os feromônios são substâncias químicas produzidas naturalmente pelos animais e liberadas no ambiente com a função de transmitir informações específicas a indivíduos da mesma espécie, desencadeando respostas comportamentais e fisiológicas. Esses compostos desempenham papel fundamental na comunicação social, influenciando processos relacionados à reprodução, reconhecimento materno-filial, organização social e respostas ao estresse (Wyatt, 2014). Na suinocultura, o interesse pelo uso de feromônios tem aumentado devido ao potencial desses compostos em promover melhorias no bem-estar animal e na eficiência produtiva.
A comunicação química entre a matriz e os leitões desempenha papel fundamental no estabelecimento do vínculo materno-filial e na organização social dos animais. Os leitões são capazes de detectar e distinguir odores maternos de não maternos a partir de aproximadamente 12 horas após o nascimento, esse reconhecimento individual permite que os animais ajustem suas respostas comportamentais com base em experiências prévias, contribuindo para a manutenção da coesão social, para a percepção de segurança e para a redução de situações de estresse dentro do grupo (Faucitano; Schaefer, 2008).
Mecanismo de ação
Entre os diferentes tipos de feromônios identificados em mamíferos, destacam-se os feromônios apaziguadores maternos suínos, conhecidos internacionalmente como Porcine Appeasing Pheromone (PAP). Esses compostos foram identificados inicialmente nas secreções mamárias de porcas lactantes e estão associados à comunicação entre a matriz e seus leitões (Marcet-rius et al., 2022). Durante a lactação, esses sinais químicos contribuem para promover sensação de conforto e segurança, auxiliando os leitões a enfrentarem desafios presentes no ambiente (Figura 1).

FIGURA 1 – Leitões em amamentação, período em que ocorre a produção natural dos feromônios apaziguadores maternos na região mamária.
Fonte: Arquivo pessoal (2023).
A ação desses compostos ocorre por meio da percepção dos sinais químicos pelo sistema olfatório e pelo órgão vomeronasal, estruturas especializadas na detecção de moléculas odoríferas. Após sua identificação, são desencadeadas respostas neuroendócrinas capazes de influenciar comportamentos relacionados à ansiedade, agressividade e adaptação social, favorecendo a manutenção da homeostase dos animais (Wyatt, 2014).
Como consequência, animais expostos a esses compostos tendem a apresentar maior estabilidade comportamental em situações desafiadoras, redução na frequência de comportamentos agonísticos, como mordidas, perseguições, empurrões e disputas hierárquicas, especialmente após a mistura de lotes (Marcet-rius et al., 2022).
Principais fatores de estresse na produção de suínos
Diversas situações presentes na rotina da produção suinícola podem atuar como agentes estressores. Entre elas, o desmame é considerado um dos eventos mais críticos da vida dos leitões. Nesse período, os animais enfrentam simultaneamente a separação da mãe, mudanças na alimentação e adaptação a novas instalações. Como consequência, podem ocorrer redução do consumo alimentar, alterações comportamentais e aumento da susceptibilidade a doenças (Faucitano; Schaefer, 2008).
Outro desafio importante é a mistura de lotes. Quando animais desconhecidos passam a conviver no mesmo ambiente, ocorre o estabelecimento de novas hierarquias sociais por meio de confrontos físicos. Esses comportamentos frequentemente resultam em mordidas, perseguições, empurrões e outras interações agonísticas capazes de provocar lesões corporais e comprometer o desempenho produtivo (GUY et al., 2007).
Além disso, mudanças de instalações, transporte e manejo pré-abate também podem desencadear respostas fisiológicas associadas ao estresse. Durante o transporte, por exemplo, os animais são expostos a fatores como movimentação excessiva, ruídos, variações de temperatura e contato com indivíduos desconhecidos. Já no período pré-abate, situações como jejum, embarque, desembarque e permanência em currais de espera podem intensificar as respostas fisiológicas ao estresse (Dalla Costa et al., 2019).
A intensidade e a duração desses desafios podem influenciar diretamente o bem-estar dos suínos, resultando em impactos negativos sobre a saúde, o comportamento, o desempenho zootécnico e a qualidade da carne produzida (Quadro 1).
Quadro 1. Principais fatores de estresse na produção de suínos e seus possíveis impactos sobre o bem-estar animal
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Fator estressante |
Consequências |
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Desmame |
Redução do consumo alimentar, alterações comportamentais e maior susceptibilidade a doenças |
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Mistura de lotes |
Brigas, lesões corporais e estabelecimento de novas hierarquias sociais |
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Mudanças de instalações |
Dificuldade de adaptação e aumento do estresse |
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Transporte |
Fadiga, desidratação e alterações fisiológicas |
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Manejo pré-abate |
Comprometimento do bem-estar e da qualidade da carne |
Fonte: Elaborado pelos autores.
Aplicações práticas dos feromônios apaziguadores
Os feromônios apaziguadores têm sido avaliados como uma ferramenta complementar para reduzir os impactos de situações estressantes ao longo da produção suinícola. Sua utilização tem despertado interesse principalmente em momentos críticos, nos quais os animais apresentam maior vulnerabilidade a alterações comportamentais e fisiológicas.
Entre as principais aplicações, destacam-se o período pós-desmame e a reorganização social dos grupos, situações frequentemente associadas ao aumento da agressividade, da ocorrência de lesões e das dificuldades de adaptação. Nesses contextos, a exposição aos feromônios apaziguadores pode favorecer a estabilidade social e reduzir comportamentos agonísticos, contribuindo para o bem-estar dos animais (Guy et al., 2007; Marcet-rius et al., 2022).
Além dessas situações, estudos recentes têm investigado o potencial de utilização dessa tecnologia em diferentes fases da produção, incluindo crescimento e terminação. Os resultados disponíveis sugerem que a exposição aos feromônios pode favorecer a adaptação dos animais a desafios de manejo, contribuindo para a manutenção da estabilidade comportamental e social dos grupos (Archer et al., 2022; Chasles et al., 2024).
Por se tratar de uma alternativa não farmacológica, os feromônios apaziguadores representam uma ferramenta adicional que pode ser incorporada aos programas de manejo, auxiliando na promoção do bem-estar animal e na busca por sistemas produtivos mais sustentáveis.
Impactos sobre o desempenho produtivo
Os benefícios dos feromônios apaziguadores vão além da redução de comportamentos agressivos e da promoção do bem-estar animal. Ao contribuírem para a diminuição das respostas fisiológicas associadas ao estresse, esses compostos podem influenciar positivamente parâmetros produtivos e sanitários relevantes para a suinocultura. Animais submetidos a menores níveis de estresse tendem a apresentar melhor resposta imunológica, menor incidência de lesões e maior capacidade de adaptação às condições de criação, fatores que podem favorecer o consumo alimentar, o ganho de peso e a eficiência produtiva (Archer et al., 2022; Chasles et al., 2024).
A exposição aos feromônios apaziguadores pode resultar em melhor desempenho após situações potencialmente estressantes, evidenciando seu potencial como ferramenta complementar de manejo (Mcglone; Anderson, 2002). Esses resultados sugerem que a melhoria do bem-estar animal pode refletir diretamente sobre os índices produtivos, contribuindo para sistemas de produção mais eficientes.
Além dos possíveis ganhos em desempenho, a redução da frequência de lesões corporais e de interações agonísticas pode minimizar perdas econômicas relacionadas a tratamentos veterinários, descarte de animais e desuniformidade dos lotes. Dessa forma, estratégias que promovam maior estabilidade social e reduzam os impactos do estresse podem contribuir não apenas para a produtividade, mas também para a rentabilidade dos sistemas de produção (Guy et al., 2007; Chasles et al., 2024).
Feromônios, estresse e qualidade da carne
A qualidade da carne suína é influenciada por diversos fatores ao longo da cadeia produtiva, sendo o estresse um dos mais importantes. Quando submetidos a situações desafiadoras, os animais apresentam alterações fisiológicas relacionadas à ativação do sistema nervoso simpático e do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, desencadeando mudanças metabólicas que podem persistir até o momento do abate (Mormède et al., 2007).
Essas respostas fisiológicas influenciam diretamente o metabolismo muscular e podem comprometer características importantes da carne, como pH, capacidade de retenção de água, coloração e textura. Como consequência, podem ocorrer mudanças indesejáveis na qualidade do produto, reduzindo seu valor comercial e gerando prejuízos para a cadeia produtiva. Entre os principais problemas associados ao manejo inadequado antes do abate destaca-se a ocorrência da carne PSE (Pale, Soft and Exudative), caracterizada por coloração pálida, textura amolecida e elevada perda de água. Essa condição está relacionada a situações de estresse agudo imediatamente antes do abate e representa uma importante causa de perdas econômicas para frigoríficos e indústrias processadoras (Rosenvold; Andersen, 2003).
Por outro lado, a exposição prolongada a fatores estressantes pode levar ao esgotamento das reservas de glicogênio muscular, reduzindo a produção de ácido láctico após o abate e resultando em valores elevados de pH final. Nessas condições, pode ocorrer a carne DFD (Dark, Firm and Dry), caracterizada por coloração escura, textura firme e menor vida útil, comprometendo a aceitação do produto e gerando prejuízos para a indústria frigorífica (Dalla Costa et al., 2019).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os feromônios apaziguadores maternos representam uma alternativa promissora para a redução do estresse na produção de suínos, favorecendo a adaptação dos animais a diferentes desafios de manejo. Evidências da literatura indicam potencial para reduzir comportamentos agressivos, promover maior estabilidade social e contribuir para melhorias nos indicadores de bem-estar animal, desempenho produtivo e qualidade da carne.
Embora não substituam práticas adequadas de manejo, nutrição, sanidade e ambiência, esses compostos podem atuar como uma ferramenta complementar dentro de sistemas de produção modernos. Dessa forma, sua utilização pode contribuir para uma suinocultura mais eficiente, sustentável e alinhada às crescentes exigências relacionadas ao bem-estar animal e à qualidade dos produtos de origem animal.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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CHASLES, M.; et al. Cutaneous application of SecurePig® FLASH, a pig appeasing pheromone analogue, facilitates adaptation and manages social behavior during feeding in semi-extensive conditions. Porcine Health Management, v. 10, 2024. DOI: https://doi.org/10.1186/s40813-024-00363-z
DALLA COSTA, F. A.; et al. Ease of handling and physiological parameters of stress, carcasses, and pork quality of pigs handled in different group sizes. Animals, v. 9, n. 10, 2019. DOI: https://doi.org/10.3390/ani9100798
FAUCITANO, L. Preslaughter handling practices and their effects on animal welfare and pork quality. Journal of Animal Science, v. 96, n. 2, p. 728-738, 2018. DOI: https://doi.org/10.1093/jas/skx064
GUY, J. H.; BURNS, S. E.; BARKER, J. M.; EDWARDS, S. A. Reducing post-mixing aggression and skin lesions in weaned pigs by application of a synthetic maternal pheromone. Animal Science, v. 85, n. 8, p. 2125-2131, 2007.
MARCET-RIUS, M.; MENDONÇA, T.; PAGEAT, P.; ARROUB, S.; BIENBOIRE-FROSINI, C.; CHABAUD, C.; TERUEL, E.; COZZI, A. Effect of wither application of an analogue of pig appeasing pheromone on encounters between unfamiliar mini-pigs. Porcine Health Management, v. 8, n. 50, 2022. DOI: https://doi.org/10.1186/s40813-022-00294-7
MCGLONE, J. J.; ANDERSON, D. L. Synthetic maternal pheromone stimulates feeding behavior and weight gain in weaned pigs. Journal of Animal Science, v. 80, n. 12, p. 3179-3183, 2002. DOI: https://doi.org/10.2527/2002.80123179x
MORMÈDE, P.; ANDANSON, S.; AUPÉRIN, B.; et al. Exploration of the hypothalamic-pituitary-adrenal function as a tool to evaluate animal welfare. Physiology & Behavior, v. 92, n. 3, p. 317-339, 2007. DOI: https://doi.org/10.1016/j.physbeh.2006.12.003
ROSENVOLD, K.; ANDERSEN, H. J. Factors of significance for pork quality: a review. Meat Science, v. 64, p. 219-237, 2003. DOI: https://doi.org/10.1016/S0309-1740(02)00186-9
WYATT, T. D. Pheromones and animal behavior: chemical signals and signatures. 2. ed. Cambridge: Cambridge University Press, 2014.
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