Introdução
Qualidade é um atributo essencial para qualquer tipo de produção. Em se tratando da produção de alimentos, a Qualidade inclui todos os estágios de processamento, desde os ingredientes da ração animal até o produto final. O setor de produção animal está evoluindo de forma bastante rápida, devido ao constante desenvolvimento das áreas de melhoramento genético, manejo, ambiência, sanidade e nutrição animal. No entanto, mesmo com toda a tecnologia, alguns problemas e falhas ainda se fazem presentes na fabricação de ração animal, comprometendo a qualidade do produto final e o desempenho dos animais.
Quando determinado produto entra em contato com outro indesejável durante o processo de fabricação da ração animal, seja pelo contato entre ingredientes, insumos, superfícies ou ambientes, ocorre o que se denomina de contaminação cruzada (Multitecnica, 2018), sendo este um dos principais meios de contaminação por fungos, levando ao desenvolvimento de micotoxinas, que muitas vezes acarretam problemas reprodutivos, ganho de peso e até mesmo morte do plantel.
Micotoxinas são metabólitos secundários produzidos por fungos toxigênicos, principalmente os microorganismos dos gêneros Aspergillus, Penicillium, Fusarium, Claviceps e Alternaria (Batatinha et al., 2020). As aflatoxinas são lipossolúveis, sendo eficientemente absorvidas por difusão passiva no trato gastrointestinal e distribuídas para diferentes tecidos, principalmente, o fígado, que constitui o órgão mais importante na biotransformação desses compostos. Menos comumente pode ocorrer biotransformação nos rins e no trato gastrointestinal. Animais jovens absorvem as aflatoxinas de forma mais eficiente em relação aos animais mais velhos (Coppock et al., 2018; Batatinha et al., 2020).
A contaminação dos alimentos pode ocorrer nos estágios pré e pós-colheita. Isso significa que, desde a escolha das sementes e época de plantio até o fornecimento das dietas aos animais, os sistemas devem ser rigorosamente monitorados. Além disso, os climas tropicais e subtropicais do Brasil, com alta umidade e temperatura, são fatores predisponentes ao desenvolvimento desses microorganismos. A ingestão de rações contaminadas por fungos representa um importante fator de risco para o desenvolvimento de micotoxicoses causadas por aflatoxinas, fumonisinas e zearalenonas. Essas micotoxinas exercem efeitos deletérios sobre a nutrição e a reprodução dos animais, podendo desencadear quadros de hepatotoxicidade, imunossupressão, carcinogênese, necrose liquefativa cerebral, vulvovaginite e abortamento (Quinn et al., 2005).
Mesmo que todos os cuidados sejam tomados para evitar a presença de micotoxinas nos grãos, cereais e dietas, o monitoramento das matérias-primas com análises micotoxicológicas é essencial para verificar a eficácia das ações tomadas, constatar se há a necessidade do uso de adsorventes e avaliar a melhor fase da produção animal para o destino desse alimento. Os processos de produção podem comprometer todo o trabalho de balanceamento nutricional da alimentação, responsável pelo desenvolvimento zootécnico dos animais e, em consequência, pela lucratividade (Couto, 2008).
Fungos na produção animal
Os Aspergillus são os grandes causadores das aflatoxinas, sendo as espécies envolvidas o Aspergillus flavus e Aspergillus parasiticus. As aflatoxinas B1, B2, G1 e G2, presentes em aproximadamente 38% das rações suinícolas, são responsáveis pela micotoxicose suína, que do ponto de vista clínico e econômico, apresenta grande relevância, pois representa uma séria ameaça à saúde animal. Seus efeitos incluem hepatotoxicidade, imunossupressão, mutagênese, entre outras alterações que comprometem o desempenho produtivo e o bem-estar dos animais (De Freitas et al. 2012; Quinn et al., 2005). O Fusarium é o gênero causador da fumonisina, que é um contaminante natural de cereais, tratando-se da principal micotoxina que envolve casos a suínos e aves, além que equinos, tendo como principal sintoma a necrose de liquefação no cérebro. O Fusarium também é o progenitor de outras doenças como a zearalenona, grave toxina para suínos . A zearalenona atua através da contaminação natural em cevada, milho, sorgo, aveia e rações produzidas com base nestes produtos, tendo como efeitos funcionais ou estruturais edema de vulva e desenvolvimento mamário, além de aborto em fêmeas prenhas.
A coloração dos fungos é variada, seja pela própria espécie ou mesmo pelo local onde habita, tendo influência do meio. Podem ser desde cores claras a mais escuras, como pode-se observar nas Figuras 1 e 2. Assim como cita o site Crescendo em Cultura (2013), os fungos de colônia leveduriforme são normalmente claros e com aspecto umedecido e brilhante, com uma menor diferenciação característica entre as espécies. A coloração dos mesmos se difere tanto a olho nu quanto no microscópio, como pode-se observar abaixo nas imagens de microscopia de colônias selecionadas (Figuras 1 e 2).


Figura 1. Fungos do gênero Aspergillus encontrados em amostra de ração para suínos (Arquivo dos autores).

Figura 2. Colônias de fungos em amostra de ração para suínos (Arquivo dos autores).
A técnica para observação de fungos claros com azul de algodão auxilia na observação dos mesmos, devido ter a finalidade de visualizar o micélio vegetativo e reprodutor de fungos filamentosos, como também as características da célula vegetativa e reprodução (Bio Pedagogia, 2011).
O processo de moagem dos grãos ou elementos constituintes da ração é responsável pela redução do tamanho das partículas, visando alterar suas características físicas, o que favorece maior aproveitamento durante absorção pelo animal, o que de forma antagônica favorece também a proliferação de microrganismos, entre fungos filamentosos. O processamento ideal para a garantia de não haver contaminação seria a peletização, o que na suinocultura é mais usado na fase de maternidade e creche. As vantagens da ração peletizada são inúmeras como, por exemplo, aumento na disponibilidade de energia dos nutrientes, redução da alimentação seletiva pelos animais, diminuição do desperdício de ração, além da redução da contaminação cruzada e microbiológica (Couto, 2008).
As micotoxinas na nutrição de animais de companhia
Hoje em dia, os animais de companhia, como os cães, são considerados membros da família e estabelecem fortes relações emocionais com seus proprietários. Portanto, a segurança, a adequação e a eficácia dos alimentos são de grande importância para a saúde dos cães (Yang et al., 2023). Além disso, a presença de fungos nos alimentos pode acarretar em alterações nutricionais do alimento, além de alteração de palatabilidade (Reis et al., 2025).
Em algumas lojas agropecuárias e pet shops, as rações são vendidas a granel, com exposição direta ao ambiente, o que diminui a vida útil, reduzindo sua palatabilidade e o valor nutricional ofertado (Zanferari, 2011). Nessas condições, observa-se maior propensão à contaminação dos produtos e risco aumentado de adulterações. Outrossim, há falta de consciência por parte dos consumidores em relação aos riscos envolvidos com a prática da venda de rações fracionadas em condições inadequadas (Silva et al., 2025).
A maior frequência de isolamento de fungos do gênero Penicillium spp. e Aspergillus spp. também foi observada por Martins et al. (2003), em amostras de alimentos comerciais secos para animais de companhia (Figura 3).

Figura 3. Presença de cepas fúngicas em ração para cães (Arquivo dos autores).
Nos cães acometidos pela exposição prolongada às aflatoxinas (ingestão de doses menores), os sinais clínicos predominantes são perda de peso e ascite. Recusa ao alimento contaminado é um sinal de defesa natural reportado em cães e pode servir como um indicativo da qualidade ruim da dieta ofertada (Wouters et al., 2013).
Portanto, a utilização de adsorventes nos alimentos comerciais industrializados de cães e gatos se apresenta como uma alternativa eficaz para reduzir a absorção de micotoxinas pelo intestino dos animais. Esses adsorventes se ligam às micotoxinas, formando complexos que não são absorvidos e são eliminados nas fezes. Dessa forma, a saúde dos animais é protegida ao diminuir os riscos associados às micotoxinas (Gazzoti et al., 2015; Vila-donat et al., 2018).
Conclusão
A presença de fungos e micotoxinas nas rações representa um grande risco para a saúde animal e para a qualidade da produção. A contaminação pode ocorrer em diferentes etapas do processamento e armazenamento dos alimentos, favorecida principalmente por condições inadequadas de manejo e umidade. Além de comprometer o desempenho zootécnico, as micotoxinas podem causar doenças graves em animais de produção e de companhia. Dessa forma, o monitoramento constante das matérias-primas, aliado ao uso de boas práticas de fabricação e controle microbiológico, é essencial para garantir a segurança dos alimentos e reduzir prejuízos econômicos.
Referências bibliográficas
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