Genética como aliada no combate à cetose em vacas leiteiras.

Introdução

A cetose é uma das principais doenças metabólicas que afetam vacas leiteiras de
alta produção, especialmente durante o período de transição, fase que compreende as
semanas que antecedem e sucedem o parto. Mesmo quando ocorre de forma subclínica,
sem sinais visíveis ao produtor, a enfermidade pode comprometer significativamente a
produtividade, a fertilidade e a rentabilidade da atividade leiteira.
Com os avanços do melhoramento genético, os rebanhos modernos alcançaram
níveis cada vez mais elevados de produção de leite. No entanto, esse aumento da
produtividade também elevou as exigências metabólicas dos animais, tornando-os mais
susceptíveis a distúrbios relacionados ao balanço energético negativo, condição
considerada o principal fator desencadeante da cetose.

Entendendo a doença

Durante o início da lactação, a demanda energética da vaca aumenta
rapidamente para sustentar a produção de leite. Em muitos casos, o consumo de matéria
seca não é suficiente para suprir essa necessidade, levando o organismo a mobilizar
reservas corporais de gordura para obtenção de energia.
Esse processo resulta na liberação de grandes quantidades de ácidos graxos para
a corrente sanguínea, que são transportados ao fígado. Quando a capacidade hepática de
metabolização é excedida, ocorre aumento da produção de corpos cetônicos,
especialmente o β-hidroxibutirato (BHBA), principal indicador da doença.
A cetose pode se manifestar de forma clínica, com redução do apetite, perda de
peso e queda na produção de leite, ou de forma subclínica, mais difícil de identificar,
mas igualmente prejudicial ao desempenho do rebanho.

Impactos na produtividade

Os prejuízos provocados pela cetose vão muito além da redução da produção
leiteira. Vacas acometidas pela enfermidade apresentam maior risco de desenvolver
problemas reprodutivos, redução da eficiência alimentar e aumento da incidência de
doenças secundárias, como mastite, metrite, deslocamento de abomaso e lipidose
hepática.
Além dos impactos sobre a saúde animal, a doença gera aumento dos custos com
tratamentos, descarte precoce de matrizes e redução da longevidade produtiva do
rebanho. Em propriedades de alta produção, esses prejuízos podem representar perdas
econômicas expressivas ao longo do ano.

A genética entra em cena

Tradicionalmente, a prevenção da cetose tem sido baseada em estratégias
nutricionais e de manejo. Entretanto, pesquisas recentes demonstram que a
susceptibilidade à doença também possui componente genético, abrindo novas
possibilidades para os programas de melhoramento animal.
Embora a herdabilidade da cetose seja considerada baixa, estudos mostram que
existe variação genética suficiente para permitir ganhos consistentes por meio da
seleção. Além disso, características relacionadas ao metabolismo energético, como as
concentrações de β-hidroxibutirato (BHBA) e de ácidos graxos não esterificados
(NEFA), apresentam herdabilidade moderada e podem ser utilizadas como indicadores
indiretos da resistência à enfermidade.
Na prática, isso significa que alguns animais possuem maior capacidade genética
de enfrentar os desafios metabólicos do início da lactação, apresentando menor risco de
desenvolver cetose e outros distúrbios associados ao balanço energético negativo.

O avanço da seleção genômica

Nos últimos anos, a genômica revolucionou os programas de melhoramento
genético bovino. A utilização de marcadores moleculares e avaliações genômicas
permite identificar animais geneticamente superiores ainda jovens, antes mesmo da
manifestação de características produtivas ou sanitárias, contribuindo para o aumento da
acurácia da seleção e para a redução do intervalo de gerações (HAYES et al., 2009;
VANRADEN, 2020).
Diversos estudos têm identificado genes e regiões genômicas associadas ao
metabolismo energético, à função hepática, à mobilização de gordura corporal e à resposta inflamatória. Essas descobertas têm ampliado o conhecimento sobre a base
genética das doenças metabólicas e contribuído para o desenvolvimento de estratégias
de seleção voltadas à melhoria da saúde e da resistência a distúrbios metabólicos,
incluindo a cetose (PRYCE et al., 2016; VANDEHAAR et al., 2020).
Em programas de melhoramento genético de bovinos leiteiros, características
relacionadas à saúde, longevidade e resistência a doenças vêm recebendo maior atenção,
especialmente em sistemas que utilizam avaliações genômicas. A incorporação dessas
características aos objetivos de seleção pode contribuir para a identificação de animais
mais resilientes e capazes de manter o desempenho produtivo diante dos desafios
metabólicos associados ao período de transição, favorecendo a eficiência e a
sustentabilidade dos sistemas de produção leiteira (MIGLIOR et al., 2017;
VANRADEN, 2020).

Benefícios para o produtor

A incorporação da resistência à cetose nos programas de seleção oferece
vantagens importantes para os sistemas de produção leiteira:
● Redução da incidência de doenças metabólicas;
● Menores gastos com medicamentos e assistência veterinária;
● Aumento da longevidade produtiva das vacas;
● Melhor desempenho reprodutivo;
● Maior eficiência alimentar;
● Redução do descarte involuntário;
● Incremento da rentabilidade da atividade.

Além disso, animais metabolicamente mais eficientes tendem a apresentar
melhor bem-estar e maior capacidade de adaptação às exigências dos sistemas
intensivos de produção.

Perspectivas para a pecuária leiteira

A tendência é que a saúde metabólica assuma papel cada vez mais importante
nos programas de melhoramento genético. Se no passado a seleção era direcionada
principalmente para o aumento da produção de leite, atualmente o foco está na busca
por vacas equilibradas, capazes de combinar produtividade, fertilidade, longevidade e
resistência a enfermidades. O desenvolvimento de novas ferramentas genômicas, aliado ao crescimento dos
bancos de dados fenotípicos e metabólicos, deverá aumentar ainda mais a precisão das
avaliações genéticas nos próximos anos. Com isso, será possível acelerar o progresso
genético para resistência à cetose e outras doenças que impactam a rentabilidade dos
rebanhos.

Conclusão

A cetose continua sendo um dos principais desafios sanitários da pecuária
leiteira moderna. Embora práticas adequadas de nutrição e manejo permaneçam
fundamentais para sua prevenção, a genética surge como uma importante aliada na
construção de rebanhos mais saudáveis e eficientes.
A utilização da seleção genética e da seleção genômica para resistência à cetose
representa uma estratégia promissora para reduzir perdas produtivas, melhorar o
desempenho reprodutivo e aumentar a sustentabilidade dos sistemas leiteiros. O futuro
da pecuária não depende apenas de vacas mais produtivas, mas de animais capazes de
transformar produtividade em rentabilidade e longevidade dentro das propriedades.

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