A avicultura brasileira ocupa posição de destaque mundial devido ao contínuo investimento em melhoramento genético, avanços em nutrição e ajustes no manejo produtivo. No entanto, esse desenvolvimento acelerado também trouxe desafios significativos, entre eles o aumento na incidência de miopatias peitorais, especialmente Wooden Breast (WB), Spaghetti Meat (SM) e Miopatia Peitoral Profunda (MPP). Estas alterações musculares, embora não representem risco sanitário ao consumidor, afetam diretamente a qualidade da carne, o rendimento industrial e as estratégias de destinação no frigorífico, tornando-se motivo de crescente preocupação para a indústria avícola moderna.
O processo de seleção genética aplicado nas últimas décadas priorizou aves com alto rendimento de peito, rápido ganho de peso e maior eficiência alimentar (Petracci etal., 2015). Como consequência, as linhagens atuais apresentam fibras musculares com diâmetro ampliado e maior densidade celular, características que favorecem a deposição proteica, mas reduzem proporcionalmente a expansão do tecido conjuntivo e da vascularização (Rutz et al., 2017). Esse descompasso estrutural compromete o fornecimento adequado de oxigênio ao músculo, favorecendo o desenvolvimento de hipóxia, estresse oxidativo, degeneração das fibras e inflamação crônica (Petracci; Soglia; Berri, 2017). Assim, observa-se que a intensa pressão por desempenho produtivo desempenha um papel central na etiologia das miopatias peitorais.
1- Miopatia Peitoral Profunda (MPP)
A MPP, também conhecida como “doença do músculo verde”, afeta o músculo supracoracoideus, que se localiza profundamente entre o esterno e o músculo peitoral maior. Durante situações de estresse ou movimentação vigorosa pré-abate, esse músculo aumenta seu volume devido ao incremento do fluxo sanguíneo, mas encontra-se anatômica e funcionalmente confinado por seu envoltório rígido. Como resultado, o aumento da pressão interna leva à interrupção do aporte sanguíneo, evoluindo para isquemia e necrose tecidual (Aviagen, 2023; Yalcin et al., 2018). A lesão é caracterizada por áreas inicialmente hemorrágicas que progridem para colorações esverdeadas e aspecto firme e seco. Histologicamente, observa-se necrose coagulativa, infiltrado inflamatório, fibrose e proliferação vascular desorganizada (Kawasaki et al., 2025). Por ser uma lesão interna, a MPP não é identificada no abate e só se torna evidente na sala de cortes, resultando em perdas industriais consideráveis. Na Figura 1 pode-se observar músculos de frangos de corte adultos apresentando diferentes graus da miopatia peitoral profunda. Da esquerda para a direita: pontuação 1 – estágio hemorrágico agudo inicial; pontuação 2 – músculo peitoral menor rosa-claro com lesões circundadas por um anel hemorrágico claro; pontuação 3 – tecido muscular danificado com aparência esverdeada.
Figura 1 – Peito acometido com MPP
Fonte: adaptado de (Bilgilie e Hess 2008; Yalcin et al., 2018)
2- Wooden Breast (WS)
A WS por sua vez, caracteriza-se pelo endurecimento do músculo peitoral maior, que adquire consistência rígida semelhante à da madeira. Essa rigidez resulta de inflamação, deposição exagerada de colágeno e degeneração das fibras musculares (Sihvo; Immonen; Puolanne, 2014). Na WB, a perfusão sanguínea é comprometida pela expansão acelerada das fibras, que reduz o espaço disponível para os capilares, resultando em hipóxia e inflamação crônica (Mudalal et al., 2015). As regiões afetadas tornam-se pálidas, espessas e muitas vezes apresentam exsudato e pequenas hemorragias. No processamento, a WB afeta a capacidade de retenção de água, o rendimento na marinação, a textura e a funcionalidade proteica, impactando negativamente a aceitação do produto final (Mazzoni et al., 2015). Na Figura 2 observa-se: músculo peitoral maior normal (A), acometido pelo grau moderado (B) e severo (C) da miopatia WB em frango de corte da linhagem Cobb. Observam-se estriações esbranquiçadas no quadrante superior da peça muscular (seta branca) bem como regiões avermelhadas (petéquias) e endurecidas na porção média e inferior do músculo (setas amarelas).
Figura 2 – Peito acometido com WS

Fonte: Oliveira (2019)
3- Spaghetti Meat (SM)
A SM representa uma condição ainda mais associada à falha estrutural do músculo. Nessa miopatia, ocorre uma rarefação acentuada do tecido conjuntivo — especialmente do endomísio e perimísio —, levando ao desmembramento dos feixes musculares que se separam em fibras finas, conferindo ao músculo o aspecto de “espaguete” (Baldi et al., 2018). A classificação da miopatia SM é dividia em três scores, Score 0, o músculo peitoral maior apresenta consistência normal e não apresenta nenhum sinal de lesão muscular, Score 1, o músculo peitoral maior não apresenta nenhuma laceração superficial evidente, mas exibe textura macia e fibrosa, percetível ao bélicas o músculo em sua superfície cranial, Score 2 o músculo peitoral maior apresenta extensas lacerações superficiais em sua superfície cranial e/ou caudal (Sirri et al. 2016). Pesquisas mostram que o colágeno tipo III, fundamental para a sustentação muscular, encontra-se imaturo e insuficiente (Mazzoni et al., 2020). Histologicamente, são evidenciadas fibras pequenas e regenerativas, hipercontraídas e estruturalmente frágeis (Soglia et al., 2020). Do ponto de vista industrial, cortes com SM apresentam baixa retenção de água, prejuízo na emulsificação e maior perda durante o cozimento, exigindo formulações específicas quando destinados a produtos processados.
Figura 3 – Peito acometido com SM

Fonte: Baldi; Soglia; Petracci, (2021)
Embora WB, SM e MPP não comprometam a segurança do alimento, seus efeitos na qualidade e rendimento industrial são amplamente reconhecidos pela cadeia produtiva. A legislação brasileira determina que a destinação dos cortes acometidos siga critérios definidos pelo MAPA (Brasil, 2021). No caso da MPP, partes levemente afetadas podem ser submetidas a refile e aproveitadas como carne in natura, enquanto lesões severas devem ser integralmente condenadas. Para a WB, casos leves podem ser comercializados sem restrições, mas lesões moderadas exigem remoção das áreas comprometidas e destinação da carne para industrialização; já quadros severos impõem condenação total. No SM, a maior parte dos cortes é destinada à industrialização, desde que não haja suspeita de processos infecciosos, conforme previsto no Art. 175, §2º do Decreto nº 9.013/2017. De modo geral, as miopatias elevam o volume de refiles, reduzem o rendimento dos filés, prejudicam a padronização da carne e impactam a lucratividade da indústria avícola (Petracci et al., 2019).
Em síntese, as miopatias em frangos de corte são consequência direta da pressão por desempenho imposta pelos sistemas de produção modernos. Compreender suas causas, manifestações e impactos industriais é essencial para desenvolver estratégias eficazes de manejo, nutrição e melhoramento genético que permitam reduzir sua ocorrência. O equilíbrio entre produtividade e bem-estar muscular das aves representa um desafio contínuo para a avicultura, sendo fundamental para manter a competitividade do setor e assegurar um produto de qualidade ao mercado consumidor.
Referências
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