A aquicultura é o setor de produção de alimentos de origem animal que mais cresce no
mundo e desempenha um papel cada vez mais importante na segurança alimentar global
(VENUGOPAL, 2021). Ao mesmo tempo em que aumenta a produção de pescado para
atender à demanda da população, cresce também a quantidade de resíduos gerados durante o
processamento dos peixes. Dependendo da espécie e do tipo de processamento realizado,
entre 50% e 75% da biomassa pode se transformar em resíduos, incluindo cabeças, vísceras,
espinhas, peles, escamas e sangue (BERTOCCI; MANNINO, 2022).
Durante muitos anos, esses materiais foram considerados apenas um problema ambiental ou
um subproduto de baixo valor comercial. Grande parte era descartada inadequadamente ou
destinada à produção de farinha de peixe de baixa qualidade e alimentação de animais
terrestres (PARVEZ et al., 2024; ARRUDA et al., 2007). Hoje, esse cenário começa a mudar
graças ao desenvolvimento de tecnologias capazes de transformar esses resíduos em
ingredientes de elevado valor nutricional e funcional.
Essa estratégia é conhecida como bioconversão, um conjunto de processos biológicos e
biotecnológicos capazes de recuperar proteínas, lipídios, peptídeos bioativos, colágeno e
diversos outros compostos presentes nos resíduos do pescado. Além de reduzir desperdícios,
a bioconversão diminui a dependência da farinha e do óleo de peixe produzidos a partir da
pesca extrativa, contribuindo para uma aquicultura mais sustentável (AFREEN; UCAK,
2020; SILVA et al., 2023; HOWIESON et al., 2023).
Por que aproveitar os resíduos do pescado?
Quando um peixe é processado para consumo humano, apenas parte de sua biomassa é
aproveitada como filé ou produto comercial. Todo o restante ainda possui potencial
nutricional. Os resíduos apresentam proteínas de alto valor biológico, lipídios ricos em ácidosgraxos essenciais, minerais e diversos compostos funcionais. Em média, esses materiais
podem conter entre 15% e 25% de proteínas, de 5% a 15% de lipídios, além de minerais
importantes como cálcio e fósforo (ARRUDA et al., 2007). Outro aspecto relevante é a
qualidade das proteínas presentes nos resíduos. Elas possuem perfil de aminoácidos
essenciais adequado para a nutrição animal, incluindo lisina, metionina, treonina e triptofano,
nutrientes indispensáveis para o crescimento dos peixes cultivados (CHALAMAIAH et al.,
2012; MBOKANE et al., 2022).
Os lipídios também apresentam elevado interesse econômico. Vísceras e cabeças concentram
quantidades importantes de EPA e DHA, conhecidos como ácidos graxos ômega-3 de cadeia
longa, fundamentais tanto para a saúde dos peixes quanto para a qualidade nutricional do
pescado destinado ao consumo humano (AFREEN; UCAK, 2020). Além disso, peles,
espinhas e escamas representam importantes fontes de colágeno, enquanto os resíduos ósseos
concentram minerais que podem ser recuperados em diferentes processos industriais
(BERTOCCI; MANNINO, 2022; SILVA et al., 2023).
O problema do descarte inadequado
Apesar do elevado potencial nutricional, os resíduos do beneficiamento do peixe (Figura 1)
apresentam alta umidade e intensa atividade enzimática. Isso faz com que se decomponham
rapidamente quando não recebem processamento adequado (PARVEZ et al., 2024). O
descarte incorreto provoca diversos impactos ambientais, como a contaminação de corpos
d’água, a emissão de gases de efeito estufa, a geração de odores desagradáveis e a perda de
nutrientes, além de outros impactos associados ao descarte inadequado (VENUGOPAL,
2021). Estima-se que uma parcela significativa da produção de pescado seja perdida ou
desperdiçada ao longo da cadeia produtiva, gerando grandes volumes de resíduos durante o
processamento (VENUGOPAL, 2021). Transformar esse passivo ambiental em matéria-
prima para novos produtos representa uma oportunidade importante para reduzir impactos
ambientais e aumentar a eficiência da cadeia produtiva do pescado.

Figura 1 – Resíduos da filetagem de tilápia.
Fonte: Autores.
O que é a bioconversão?
Bioconversão é o conjunto de processos biológicos utilizados para transformar resíduos
orgânicos em produtos de maior valor agregado. No caso dos resíduos de peixe, diferentes
tecnologias podem ser utilizadas para recuperar proteínas, lipídios e compostos bioativos que
posteriormente serão empregados na fabricação de ingredientes destinados principalmente às
rações aquícolas. As principais técnicas descritas na literatura são:
● hidrólise enzimática;
● fermentação microbiana ou ensilagem;
● bioconversão por insetos, especialmente utilizando a mosca-soldado-negra (Hermetia
illucens).
Cada tecnologia apresenta vantagens específicas e pode ser aplicada de acordo com o tipo de
resíduo disponível e o ingrediente que se pretende produzir (HOWIESON et al., 2023;
PARVEZ et al., 2024; ORTIZO et al., 2023).
Hidrólise enzimática: proteínas transformadas em ingredientes funcionais
Entre as tecnologias mais estudadas está a hidrólise enzimática. Nesse processo, enzimas
proteolíticas quebram as proteínas presentes nos resíduos em moléculas menores, formando
peptídeos e aminoácidos livres com elevada digestibilidade (HOWIESON et al., 2023;
MBOKANE et al., 2022). A hidrólise pode utilizar enzimas naturalmente presentes nos
próprios resíduos ou enzimas comerciais, como Alcalase®, Neutrase®, Flavourzyme®,
pepsina, tripsina e papaína (CHALAMAIAH et al., 2012). Em comparação com processos
químicos, a hidrólise enzimática oferece diversas vantagens. Ela ocorre em condições mais
brandas de temperatura e pH, reduz a formação de compostos indesejáveis e permite maior
controle sobre as características do produto final (CHALAMAIAH et al., 2012; ABDULLAH
et al., 2024).
Outro aspecto importante é o chamado grau de hidrólise, que corresponde à proporção das
ligações proteicas quebradas durante o processo. Esse parâmetro influencia diretamente as
propriedades nutricionais e funcionais dos hidrolisados produzidos (MBOKANE et al., 2022;
CHALAMAIAH et al., 2012). Hidrolisados com menor grau de hidrólise apresentam melhor
capacidade emulsificante e maior estabilidade tecnológica. Já aqueles submetidos a hidrólise
mais intensa possuem elevada digestibilidade e maior concentração de peptídeos bioativos,
embora possam desenvolver sabor amargo (HOWIESON et al., 2023; MBOKANE et al.,
2022).
Estudos demonstram que resíduos provenientes de espécies como salmão, atum, carpa e
outras podem gerar hidrolisados com recuperação proteica superior a 80%, além de
apresentarem propriedades antioxidantes, antimicrobianas e imunomoduladoras
(MUNIASAMY et al., 2024; CHALAMAIAH et al., 2012). Outro benefício é que esse
processo pode ser integrado à recuperação de óleo de peixe, permitindo o aproveitamento
simultâneo de proteínas e lipídios em sistemas conhecidos como biorrefinarias (AFREEN;
UCAK, 2020; DÎRVARIU et al., 2025).
Ensilagem: uma alternativa simples e eficiente
Outra tecnologia amplamente utilizada é a ensilagem. Nesse processo, os resíduos triturados
passam (Figura 2) por acidificação ou fermentação controlada, permitindo que enzimas
naturais presentes no próprio material promovam a hidrólise das proteínas ao mesmo tempo
em que ocorre a conservação do produto (PARVEZ et al., 2024; ANDRIANI et al., 2024).
Existem três modalidades principais:
● ensilagem química;
● ensilagem biológica ou fermentada;
● ensilagem enzimática (MAKSIMENKO et al., 2024; ANDRIANI et al., 2024).

Figura 2 – Ingredientes da silagem biológica (resíduos + soro de leite + farelo de milho +
inóculo).
Fonte: Autores.
Na ensilagem química são adicionados ácidos orgânicos ou inorgânicos capazes de reduzir
rapidamente o pH para abaixo de 4, condição que impede a multiplicação de microrganismos
deteriorantes e favorece a ação das enzimas presentes nos resíduos (MAKSIMENKO et al.,
2024; ARRUDA et al., 2007). Já na ensilagem fermentada são utilizadas bactérias ácido-
láticas, como espécies do gênero Lactobacillus, juntamente com fontes de carboidratos, como
melaço ou glicose. Durante a fermentação ocorre a produção de ácido lático, responsável pela
redução do pH e pela conservação do material (SANTANA et al., 2024; ARRUDA et al.,
2007). Além de aumentar a segurança microbiológica, esse processo favorece a formação de
peptídeos e aminoácidos livres altamente digestíveis. Estudos demonstram que silagens produzidas por diferentes métodos podem apresentar
digestibilidade proteica superior a 85%, tornando-se excelentes ingredientes para formulação
de rações aquícolas (MAKSIMENKO et al., 2024; ARRUDA et al., 2007). Pesquisas
realizadas com resíduos de tilápia e vísceras de tambaqui demonstraram que essas silagens
podem substituir parte significativa da farinha de peixe convencional sem comprometer o
desempenho produtivo dos animais (SANTANA et al., 2024; MAKSIMENKO et al., 2024).
Mosca-soldado-negra: transformando resíduos em proteína
Nos últimos anos, outra tecnologia tem despertado grande interesse na aquicultura: a
bioconversão por insetos, especialmente utilizando larvas da mosca-soldado-negra (Hermetia
illucens) (figura 3). Essas larvas possuem elevada capacidade de consumir resíduos
orgânicos, incluindo resíduos provenientes do processamento de pescado, convertendo-os
rapidamente em biomassa rica em proteínas, lipídios e quitina (DÎRVARIU et al., 2025). A
farinha produzida a partir dessas larvas normalmente apresenta entre 40% e 45% de proteína
e até 35% de lipídios, além de um perfil de aminoácidos adequado para utilização em dietas
aquícolas (DÎRVARIU et al., 2025). O processo apresenta diversas vantagens. Além de
reduzir significativamente o volume dos resíduos, também produz outros subprodutos de
interesse, como óleo rico em ácido láurico e o chamado frass, um resíduo sólido que pode ser
utilizado como biofertilizante (KARI et al., 2023; DÎRVARIU et al., 2025).
Figura 3: Larvas de mosca-soldado-negro.

Fonte: Nivardo/Adobe Stock (arquivo nº 351285534)
Muito além da farinha de peixe
Um dos maiores diferenciais da bioconversão é que ela não produz apenas um único
ingrediente. Dependendo da tecnologia empregada, é possível recuperar diversos compostos
de elevado valor agregado, ampliando o aproveitamento dos resíduos e aumentando a
rentabilidade da cadeia produtiva.
Entre os principais produtos obtidos destacam-se:
● hidrolisados proteicos;
● óleo rico em ômega-3;
● peptídeos bioativos;
● colágeno;
● gelatina;
● minerais;
● farinha de insetos.
Essa abordagem, conhecida como biorrefinaria, busca utilizar praticamente todos os
componentes presentes nos resíduos, reduzindo perdas e aumentando a eficiência do processo
(AFREEN; UCAK, 2020; DÎRVARIU et al., 2025).
Hidrolisados proteicos: mais do que uma fonte de proteína
Os hidrolisados proteicos estão entre os ingredientes mais promissores produzidos pela
bioconversão. Além da elevada digestibilidade, normalmente superior a 90%, esses
ingredientes apresentam rápida absorção intestinal e podem exercer funções fisiológicas
importantes nos peixes cultivados (MUNIASAMY et al., 2024; MBOKANE et al., 2022).
Diversos estudos demonstram que sua inclusão nas dietas melhora o crescimento, favorece a
conversão alimentar, fortalece o sistema imunológico e contribui para a saúde intestinal
(PADMA et al., 2024; NEUREITHER, 2022).
Em juvenis de robalo asiático, por exemplo, hidrolisados produzidos a partir de resíduos de
kingfish, carpa e atum reduziram alterações intestinais provocadas pelo uso de ingredientes
alternativos nas rações, melhorando também o desempenho produtivo (MUNIASAMY et al.,
2024). Na tilápia-do-Nilo, hidrolisados fermentados favoreceram o crescimento, aumentaram
a atividade das enzimas digestivas e reforçaram os mecanismos antioxidantes e imunológicos
(PADMA et al., 2024).
Ômega-3 recuperado dos resíduos
As vísceras e cabeças dos peixes também representam importantes fontes de óleo rico em
EPA e DHA, dois ácidos graxos essenciais para o crescimento, desenvolvimento e
reprodução dos peixes cultivados (AFREEN; UCAK, 2020). Tradicionalmente, a extração
desse óleo ocorre por meio de cozimento e prensagem. Entretanto, novas tecnologias, como
hidrólise enzimática, ultrassom e extração com fluidos supercríticos, vêm permitindo
recuperar óleo de melhor qualidade, reduzindo perdas provocadas pela oxidação durante o
processamento (DÎRVARIU et al., 2025; OLSEN; TOPPE, 2017). Essa recuperação diminui
a necessidade de obtenção de óleo proveniente da pesca extrativa, contribuindo para a
conservação dos recursos pesqueiros (AFREEN; UCAK, 2020).
Peptídeos bioativos: pequenas moléculas, grandes benefícios
Durante a hidrólise das proteínas também são liberados peptídeos bioativos. Essas pequenas
moléculas possuem atividades que vão além do valor nutricional, podendo atuar como
antioxidantes, antimicrobianos, anti-inflamatórios e imunomoduladores (HOWIESON et al.,
2023; NEUREITHER, 2022). Estudos relatam que esses peptídeos podem estimular
mecanismos naturais de defesa dos peixes, aumentando a atividade de enzimas como a
lisozima, favorecendo a resposta imunológica e reduzindo a suscetibilidade a doenças
(PADMA et al., 2024; NEUREITHER, 2022). Além disso, alguns peptídeos apresentam ação
contra bactérias importantes para a aquicultura, incluindo espécies dos gêneros Vibrio,
Aeromonas e Streptococcus (HOWIESON et al., 2023).
Colágeno e outros compostos de alto valor
Nem todos os produtos obtidos pela bioconversão são destinados exclusivamente às rações.
Peles, escamas e espinhas constituem excelentes fontes de colágeno, proteína amplamente
utilizada pelas indústrias alimentícia, farmacêutica, cosmética e biomédica (NEIRA et al.,
2024; SILVA et al., 2023). O colágeno obtido de peixes apresenta vantagens importantes,
como menor risco de transmissão de doenças e ausência de restrições religiosas associadas a
matérias-primas de origem bovina ou suína (BERTOCCI; MANNINO, 2022; SILVA et al.,
2023). Além do colágeno, também podem ser recuperados minerais, enzimas, pigmentos
naturais e outros compostos bioativos, ampliando ainda mais o aproveitamento integral do
pescado (MUTALIPASSI et al., 2021).
Economia circular na aquicultura
A bioconversão é considerada uma das principais ferramentas para implementação da
economia circular na cadeia do pescado. Em vez de tratar os resíduos como um problema
ambiental, eles passam a ser vistos como matéria-prima para novos processos produtivos.
Essa mudança reduz desperdícios, diminui impactos ambientais e cria novas oportunidades de
negócios para empresas do setor aquícola (AZAD et al., 2020). Estudos de Análise do Ciclo
de Vida mostram que a produção de rações responde por parcela significativa dos impactos
ambientais da aquicultura. Assim, substituir ingredientes convencionais por produtos
derivados dos resíduos pode reduzir o consumo de recursos naturais, as emissões de gases de
efeito estufa e a pressão sobre os estoques pesqueiros utilizados para produção de farinha e
óleo de peixe (GEETHANJALI et al., 2020; ROSTEN et al., 2013). Além dos benefícios
ambientais, análises econômicas indicam que ingredientes produzidos por bioconversão
podem reduzir os custos de formulação de rações quando os processos são adequadamente
estruturados (SANTANA et al., 2024).
Os desafios ainda existentes
Apesar dos avanços observados nos últimos anos, alguns desafios ainda precisam ser
superados para ampliar o uso dessas tecnologias. Entre eles destacam-se:
● padronização dos processos de produção;
● variabilidade da composição dos resíduos;
● controle da oxidação dos lipídios;
● garantia da qualidade microbiológica;
● redução dos custos industriais;
● desenvolvimento de regulamentações específicas;
● ampliação da aceitação pelo mercado consumidor (RAEESI et al., 2023; MBOKANE et
al., 2022).
Outro aspecto importante envolve a logística. Como os resíduos apresentam elevada umidade
e rápida deterioração, sua coleta, transporte e processamento precisam ocorrer de maneira
eficiente para evitar perdas de qualidade (PARVEZ et al., 2024). Mesmo diante desses
desafios, os avanços em biotecnologia, automação industrial e desenvolvimento de
biorrefinarias indicam que a tendência é de crescimento da utilização desses ingredientes nos
próximos anos (AFREEN; UCAK, 2020; SILVA et al., 2023).
Um caminho para uma aquicultura mais sustentável
A valorização dos resíduos do processamento de pescado demonstra que sustentabilidade e
inovação podem caminhar juntas. Tecnologias como hidrólise enzimática, ensilagem e
bioconversão por insetos permitem transformar materiais anteriormente considerados rejeitos
em ingredientes capazes de melhorar a nutrição dos peixes, reduzir custos de produção e
diminuir os impactos ambientais da cadeia aquícola. Mais do que uma solução para o
gerenciamento de resíduos, a bioconversão representa uma mudança de paradigma, baseada
nos princípios da economia circular, do aproveitamento integral dos recursos naturais e da
produção sustentável de alimentos. À medida que novas pesquisas avançam e os processos
industriais se tornam mais eficientes, a tendência é que esses ingredientes ocupem papel cada
vez mais importante na formulação de rações aquícolas, contribuindo para uma aquicultura
mais resiliente, competitiva e ambientalmente responsável (AFREEN; UCAK, 2020;
ROSTEN et al., 2013; SILVA et al., 2023).
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