O leite materno é reconhecido como o melhor alimento para nutrição infantil, proporcionando não apenas nutrientes completos, mas também fatores imunológicos protetores e redução do risco de infecções gastrointestinais e respiratórias (OMSWHO; UNICEF, 2021). A recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) é que o aleitamento materno exclusivo seja mantido até os 6 meses de idade e continue como complemento até os 2 anos de idade da criança, quando possível.
Embora os benefícios do aleitamento materno sejam aceitos e reconhecidos mundialmente, as fórmulas infantis produzidas industrialmente são amplamente empregadas e necessárias, quando o leite humano não é suficiente, quando a amamentação não é possível ou mesmo desejável, principalmente por questões de saúde.
Apesar de serem produzidas com máximo rigor higiênico-sanitário, as fórmulas infantis em pó, ao contrário das fórmulas líquidas esterilizadas, não são estéreis e podem apresentar contaminação microbiológica inicial, ou serem contaminadas durante o preparo.
Entre os microrganismos mais associados a riscos em fórmulas infantis, destacam-se:
- Cronobacter sakazakii: bactéria oportunista associada a meningite, septicemia e enterocolite necrosante em lactentes, com maior risco em prematuros e imunocomprometidos. Pode ser encontrada em ambientes secos e tolerar processos industriais, tornando-se uma das principais preocupações sanitárias nesse contexto (CDC, 2024).
- Salmonella enterica: conhecida causa de gastroenterites, pode provocar infecção sistêmica em bebês, especialmente quando há contaminação cruzada durante o preparo ou armazenamento inadequado de fórmulas infantis (Fusi et al., 2025).
- Bacillus cereus: bactéria formadora de esporos resistente ao calor, capaz de produzir toxinas como a cereulide, também termorresistente. A toxina cereulide é associada a sintomas como vômitos persistentes, diarréia e letargia, caracterizada por sonolência excessiva, lentidão dos movimentos e do raciocínio, além da redução da capacidade de reação e expressão. A detecção dessa toxina em ingredientes utilizados na fabricação de fórmulas tem sido a causa principal de recolhimentos recentes no Brasil e em outros mercados (Brasil, 2026a).
Dados da vigilância epidemiológica e investigações recentes de surtos corroboram que, embora a incidência seja baixa, os desfechos são frequentemente severos, incluindo óbitos neonatais associados ao consumo de fórmula infantil contaminadas. Entre os eventos recentes, destaca-se o surto de infecções por Cronobacter sakazakii ocorrido nos Estados Unidos em 2022, associado ao consumo de fórmula infantil em pó. Foram identificados quatro casos confirmados em lactentes, incluindo dois óbitos, com evidências epidemiológicas que indicaram associação com o consumo de fórmula produzida em uma mesma instalação industrial (Ghorbani et al., 2026).
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), registrou, em janeiro de 2026 no Brasil, casos de recall de fórmulas infantis devido à contaminação por Bacillus cereus. O recall foi iniciado após o fabricante do óleo utilizado na formulação alertar a empresa responsável, que, por precaução, também realizou um recall em escala global (Brasil, 2026ª).
Em março do mesmo ano, a ANVISA, notificou um novo recall de outra marca de fórmula infantil, igualmente motivado pela presença da toxina cereulide. Nesse caso, a própria empresa identificou a contaminação durante seus controles internos de qualidade. O produto era destinado à alimentação de crianças com até seis meses de idade, o que reforça a gravidade do ocorrido, considerando a elevada vulnerabilidade desse grupo (Brasil, 2026b).
Esses acontecimentos impactaram a confiança dos consumidores e levaram órgãos reguladores a reforçarem as recomendações sobre o preparo, armazenamento e utilização dessas fórmulas (WHO, 2026).
A preocupação com a qualidade e segurança dos produtos industrializados é legítima, principalmente considerando o público ao qual o alimento se destina, entretanto, muitos problemas relacionados à contaminação podem acontecer durante o preparo destes alimentos em hospitais, lactários e nas próprias residências.
Os cuidados devem ser seguidos desde a aquisição de fórmulas infantis de qualidade reconhecida, perpassando pela higienização na abertura das embalagens, preparo das formulações, consumo pelos recém-nascidos, posterior descarte e higienização das mamadeiras, além do armazenamento das embalagens.
No produto desidratado, os microrganismos têm o seu crescimento inibido devido à reduzida atividade de água dos produtos, entretanto, após ou durante a reconstituição as fórmulas infantis entram em contato com diversas fontes de contaminação, que vão além dos próprios ingredientes, como utensílios, manipuladores, água contaminada, mamadeiras, poeira, insetos, dentre outros, o que requer cuidados adicionais para não haver transmissão de patógenos para os lactantes. Assim, tanto a contaminação intrínseca (na fábrica) quanto extrínseca (durante o preparo e manuseio) são relevantes para o risco final ao bebê.
Alguns fatores que precisam ser observados para o preparo seguro das fórmulas infantis em pó, são descritos a seguir:
Abertura das embalagens da fórmula em pó: Para limpeza das embalagens das fórmulas infantis fechadas, antes de serem abertas, recomenda-se o uso de lenço desinfetante ou papal toalha umedecido com desinfetante e não abra a embalagem antes que ela esteja completamente seca. Não coloque a embalagem diretamente em água corrente (WHO, 2007).
Manipulação da Fórmula Infantil: Todas as pessoas envolvidas no preparo das fórmulas infantis deverão, antes da manipulação, lavar cuidadosamente as mãos com água e sabão. Além disso, o treinamento dos manipuladores é de suma importância para garantir os cuidados higiênico-sanitários necessários para evitar contaminação.
Estudos demonstram que níveis adequados de conhecimento, atitudes e práticas estão diretamente associados à melhoria das condições higiênico-sanitárias contribuindo significativamente para a redução da contaminação microbiológica dos produtos (Shomrat et al., 2026).
Higienização de superfícies e ambiente de preparo: Para evitar contaminação, além da higiene pessoal, as superfícies que entrarão em contato com o produto devem ser mantidas limpas, as mamadeiras, bicos e quaisquer outros utensílios empregados na alimentação precisam ser limpos e esterilizados antes de cada mamada (Grzegorz et al., 2017).
Na higienização das mamadeiras e bicos, o uso de escova própria, água quente e detergente auxiliam na remoção de resíduos que aderem à superfície. A colher medida ou qualquer outro utensílio de medida do pó da fórmula infantil também deve ser lavado com água quente e detergente.
Após a etapa de limpeza, é importante que as mamadeiras e demais utensílios sejam fervidos, ou desinfetados com solução sanificante. Para a fervura, deixar a água entrar em ebulição, por pelo menos 2 minutos, colocar os utensílios na água fervente, até toda água os cobrir e mantê-los por 15 minutos na água fervente (Galego; Ganen, 2022). Se não for usar a mamadeira imediatamente, ela deve ser montada completamente para evitar que o interior do frasco e do bico sejam contaminados pelo ambiente (WHO, 2007).
O copo-medida pode abrigar bactérias transferidas das mãos dos cuidadores por até 72 horas e muitas vezes não é esterilizado adequadamente. Estes microrganismos podem ser posteriormente transferidos das mãos para o pó (Jones et al., 2023).
Qualidade da Água: Deve-se utilizar água potável e realizar a fervura da mesma por 2 minutos. Água engarrafada não é estéril e também deve ser fervida antes do uso. A recomendação da OMS e do National Health Service (NHS) é que a água para reconstituição esteja a uma temperatura de pelo menos 70°C (WHO, 2007; NHS, 2026).
Estudos mostram que máquinas de preparação de fórmula são um risco, pois frequentemente dispensam água abaixo de 70°C (em média 9°C a menos que chaleiras), o que permite a sobrevivência de bactérias. Em caso de fervuras, os autores indicam que para garantir que a água permaneça acima de 70°C, ela não deve descansar por mais de 30 minutos após a fervura antes de ser misturada ao pó (Jones et al., 2023).
Armazenamento das Fórmulas Prontas: A fórmula reconstituída é um excelente meio para a multiplicação rápida de bactérias se não for manuseada corretamente. Assim, devem ser armazenadas imediatamente sob refrigeração a uma temperatura não superior a 5°C (Jones et al., 2023). O refrigerador deve ser capaz de resfriar a fórmula até essa temperatura em no máximo 1 hora. Na geladeira, a fórmula pronta pode ser mantida por no máximo 24 horas (WHO, 2007). O ideal é preparar uma mamadeira por vez para uso imediato e as sobras de uma mamada nunca devem ser guardadas ou reaquecidas devido ao risco de contaminação pela boca do bebê.
A Organização Mundial da Saúde, em colaboração com a Autoridade de Segurança Alimentar da Irlanda (FSAI) e a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), publicou em 2007, diretrizes para o preparo, manuseio e armazenamento seguros de fórmulas (WHO, 2007).
Além dos cuidados a serem observados no preparo, condições de armazenamento das latas para posterior utilização, também irão impactar na segurança do produto. Galego e Ganen (2022), destacam que o local para o armazenamento da lata de fórmula infantil em pó deve ser limpo e seco, ventilado e iluminado, porém sem a incidência de raios solares. Ambientes com alta umidade levam o pó a absorver esta umidade e aumentam o risco de deterioração do produto. Além disso, a incidência dos raios solares no produto podem levar a oxidação de lipídeos e vitaminas, que levam a perda destes nutrientes e alteram o sabor e odor do produto.
Outro fator importante diz respeito ao prazo de validade. A fórmula infantil não deve ser utilizada após esta data, uma vez que o fabricante assegura o conteúdo nutricional e a qualidade do produto apenas até o término do período de validade.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A segurança de alimentos constitui um dos pilares fundamentais da saúde pública global, sendo responsável por impactos expressivos na saúde da população, principalmente sobre grupos vulneráveis, como crianças, idosos e indivíduos imunocomprometidos.
No contexto das fórmulas infantis, embora esses produtos sejam essenciais em situações nas quais o aleitamento materno não é possível, seu uso requer atenção rigorosa quanto às práticas de preparo, manipulação e armazenamento. Isso se deve ao fato de que fórmulas infantis em pó podem atuar como veículos de microrganismos potencialmente patogênicos, principalmente quando submetidas a condições inadequadas de reconstituição e conservação.
A adoção de práticas seguras no preparo, manipulação e armazenamento de fórmulas infantis, aliada à capacitação de manipuladores e à conscientização de cuidadores, é essencial para a prevenção de riscos microbiológicos e agravos à saúde infantil. Dessa forma, a atuação integrada entre órgãos reguladores, profissionais de saúde e a população é fundamental para garantir a proteção dos lactentes e promover a segurança alimentar e nutricional.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
- BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Proibida venda de fórmula infantil com risco de contaminação por toxina. Brasília, 2026a. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2026/proibida-venda-de-formula-infantil-com-risco-de-contaminacao-por-toxina Acesso em: 26 mar. 2026.
- BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Anvisa proíbe venda de fórmula infantil contaminada por toxina. Brasília, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2026/anvisa-proibe-venda-de-formula-infantil-contaminada-por-toxina. Acesso em: 26 mar. 2026.
- CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION (CDC). About Cronobacter infection. Atlanta: CDC, 2024. Disponível em: https://www.cdc.gov/cronobacter/about/index.html. Acesso em: 26 mar. 2026.
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- GALEGO, D. S., GANEN, A.P. Orientações para o preparo, manipulação e conservação de fórmulas infantis em pó no domicílio: manual de boas práticas / São Paulo: Setor de Publicações – Centro Universitário São Camilo, 2022. 25 p. Disponível em: https://saocamilo-sp.br/_app/views/publicacoes/outraspublicacoes/F%C3%93RMULAS%20INFANTIS.pdf.
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