Goji Berry como conservante natural: aplicações e benefícios

Diante da expansão do estilo de vida saudável, cresce a demanda por conservantes naturais e ingredientes funcionais, o que impulsiona o interesse industrial por frutos ricos em compostos bioativos, como a goji berry (Lycium barbarum). Originária da China, a espécie foi introduzida nas Américas e na Europa Ocidental no século XVIII. Hoje, sua produção comercial concentra-se em países asiáticos, como China, Coreia, Japão e Mongólia. O fruto é amplamente reconhecido como um “superalimento” nos mercados europeu e norte-americano (Jurikova et al., 2025).

Caracterizada por bagas elipsoides de cor vermelho alaranjada conforme figura 1, e por um perfil sensorial doce e ácido, a goji berry pertence à família Solanaceae e destaca-se por reunir elementos capazes de exercer forte ação antioxidante e estabilizar diferentes categorias de alimentos (Hashemi et al., 2024).

Estudos recentes como o de Hu et al. (2025), demonstram que esses compostos não apenas retardam processos oxidativos e preservam atributos sensoriais, mas também ampliam o potencial de uso do fruto em formulações clean label (rótulo limpo), que é uma tendência que vem ganhando força no setor alimentício global.

Ademais, análises de perfil polifenólico indicam elevada diversidade de metabólitos bioativos, que também desaceleram reações oxidativas, protegem cor, textura, sabor e contribuem para a estabilidade físico-química de diferentes produtos como pães e bebidas, reforçando a aplicação da fruta em mercadorias funcionais e tecnologias de processamento orientadas à saudabilidade (Vidović et al., 2023).

Figura 1: Lycium barbarum (goji berry).
Fonte: Hospital Santa Lúcia (2016). Disponível em: https://www.hospitalsantalucia.com.br/noticias/121/beneficios-do-goji-berry/. Acesso em: 23 nov. 2025.

Propriedades bioativas e aplicação tecnológica em produtos alimentícios

A ação conservante da fruta está relacionada à alta concentração de polifenóis, carotenoides, Lycium barbarum Polysaccharide (LBPs) e amidas hidroxicinâmicas, que são compostos capazes de evitar a deterioração dos alimentos. Esses bioativos vão exercer forte atividade antioxidante e retardar a oxidação lipídica e proteica, além de estabilizar cor, textura e aroma em diferentes matrizes alimentares (Hu et al., 2025).

Destaca-se o ácido 5-calefeoilquínico, que é clorogênico e abundante na fruta, reconhecido por seu potencial envolvimento na modulação do metabolismo. Conforme apresentado na Tabela 1, esse composto representa a maior fração dos componentes bioativos identificados nos frutos secos de Lycium barbarum, correspondendo a 89,4% do conteúdo total de ácidos fenólicos, o que reforça sua importância na composição química e nas possíveis propriedades funcionais da espécie.

Tabela 1. Composição de componentes selecionados em frutos secos de Lycium barbarum.

Componentes
Conteúdo

Lipídios neutros

6,1%

Prolina

5-8%

Serina

5-8%

Ácido 5-calefeoilquínico

89,4%

Ácido 1,5-di-O-caleoilquínico

10,6%

Ácidos cinâmicos

7,94%

Catequinas

5,99%

Flavonóis

Presente (menor quantidade)

Ácidos benzoicos

Presente (menor quantidade)

Fonte: Jurikova et al.,2025

Acrescenta-se ainda que, esses compostos mantêm elevada estabilidade mesmo após processamento térmico, o que fortalece o potencial da goji berry como ingrediente estratégico quanto à conservação natural de bebidas e em alimentos que são submetidos a pasteurização, cocção e secagem (Boulares et al., 2025).

Na panificação, o estudo de Hashemi et al. (2024), identificou que a incorporação de 10-20% de polpa ou pó de goji berry aumentou a maciez, melhorou a coloração e reduziu a velocidade de ressecamento, prolongando a vida útil do pão.

Em iogurtes e outros lácteos fermentados, observou-se que a utilização de 0,3-0,5% de pectina extraída da fruta elevou a viscosidade, diminuiu a sinérese e aumentou a estabilidade físico-química, favorecendo uma textura mais cremosa e uniforme (Geng et al., 2024).

Já em bebidas funcionais, foi observado que os extratos de goji utilizados, mesmo após o tratamento térmico deteve sua atividade antioxidante preservada, indicando que os compostos bioativos do goji não foram degradados pelo calor. Esse resultado foi atribuído à robustez estrutural dos polifenóis e à presença de carotenoides, como a zeaxantina, que conferem maior estabilidade frente à oxidação (Boulares et al., 2025).

Além disso, amidas hidroxicinâmicas e os flavonoides contribuem para a preservação sensorial em produtos fermentados e bebidas, reduzindo as possíveis alterações de cor e sabor, conforme estudado por Wei et al. (2025).

Em produtos cárneos, o potencial antioxidante auxilia na manutenção da cor característica e na redução da rancificação, retardando alterações lipídicas comuns em carnes processadas com alto teor de gorduras insaturadas (Hu et al., 2025; Boulares et al., 2025).

Portanto, a goji berry pode ser alinhada às demandas industriais por atuar como conservante natural, favorecer a produção de produtos estáveis, nutritivos e com formulações clean label conforme o quadro 1.

Quadro 1: Mecanismos de Ação da Goji Berry na Inibição de Reações Oxidativas em Alimentos

Reação oxidativa
Tipo de deterioração
Método de ação
Alimento
Autores et al.

Lipídica

Ranço, odores

indesejáveis,

perda de

estabilidade

Polifenóis e

carotenoides

neutralizam

radicais; LBPs

quelam Fe²⁺/Cu²⁺

Pães, produtos

cárneos,

bebidas

funcionais

Hu 2025;

Boulares

2025;

Hashemi

2024;

Jurikova

2025

Proteica

Formação de

carbonilas,

endurecimento,

perda funcional

Polifenóis

reduzem

carbonilas; LBPs

estabilizam

proteínas

Iogurtes,

bebidas

lácteas, carnes

processadas

Hu 2025;

Geng 2025;

Takakura

2024

De pigmentos

Desbotamento,

perda de cor,

instabilidade

visual

Carotenoides

estabilizam

pigmentos e

protegem contra

EROs

Bebidas

funcionais,

pães

enriquecidos,

smoothies

Hu 2025;

Jurikova

2025

Vitaminas (C/B2)

Redução do valor

nutricional

Antioxidantes

bloqueiam EROs

e preservam vitaminas

Bebidas,

produtos

lácteos fermentados

Hu 2025;

Jiang 2024

Enzimática

(PPO/POD)

Escurecimento

indesejado

Flavonoides

inibem

PPO/POD

indiretamente

Bebidas

vegetais, sucos

com goji

Hu 2025;

Geng 2025

Benefícios para a saúde do consumidor

Os compostos da goji berry conferem alta capacidade antioxidante e moduladora do sistema imunológico (Hashemi et al., 2024; Jiang et al., 2024;), e o consumo regular da fruta está associado a proteção contra o estresse oxidativo, melhoria da fertilidade feminina, prevenção de danos celulares induzidos por Fator de Necrose Tumoral Alfa (TNF-a), efeitos neuroprotetores e ação anticancerígena (Jiang et al.,2024; Takakura et al., 2024).

Os carotenoides, especialmente a zeaxantina, contribuem para proteção ocular e neutralização de radicais livres, enquanto flavonoides oferecem atividades anti-inflamatórias, antioxidantes, antimicrobianas e metabólicas (Hu et al., 2025; Jurikova et al. 2025).

A fruta também contém vitaminas C e do complexo B, minerais antioxidantes como zinco e selênio, além de aminoácidos essenciais envolvidos na síntese proteica e manutenção celular. Compostos fenólicos como rutina e isoquercitrina complementam o perfil antioxidante e reforçam a capacidade funcional da fruta.

Essa composição rica explica a eficácia da goji berry como promotora de benefícios à saúde, conforme é demonstrado no mapa mental a seguir:

Figura 2: Mapa mental das funções biológicas dos compostos bioativos da goji berry
Fonte: Elaborado pelo autor (2025).

Limitações e perspectivas futuras

Embora os resultados sobre a goji berry sejam promissores, ainda existem limitações importantes. A maioria das evidências quanto a saudabilidade é obtida de estudos in vitro e em animais, enquanto ensaios clínicos em humanos são escassos, o que dificulta confirmar a real relevância clínica das bioatividades da fruta. Além disso, compostos minoritários como amidas hidroxicinâmicas e flavonóis seguem pouco estudados, tanto em termos de mecanismos de ação, quanto de sua estabilidade e biodisponibilidade após o processamento (Hu et al., 2025).

No âmbito tecnológico, as aplicações estudadas concentram-se em produtos-modelo, e faltam avaliações em sistemas alimentares mais complexos e em condições industriais reais. Apesar dos estudos recentes e animadores de Boulares et al. (2025), avanços futuros dependem de ensaios clínicos mais robustos, estudos aprofundados e investigações sobre desempenho da goji berry em diferentes processos de produção. Tais pesquisas permitirão validar seu uso como conservante natural confiável e ampliar sua incorporação em formulações clean label e produtos funcionais.

Conclusão

A goji berry consolida-se como um ingrediente estratégico para a indústria de alimentos, ao combinar desempenho tecnológico e benefícios funcionais em uma única matéria-prima. Seu elevado teor de polifenóis, carotenoides e polissacarídeos LBPs confere forte ação antioxidante, capaz de estabilizar cor, textura e sabor, retardar a oxidação e ampliar a vida útil em matrizes como pães, iogurtes e bebidas funcionais. Estudos recentes também mostram que esses compostos mantêm alta atividade mesmo após processamento térmico, o que reforça seu potencial em formulações clean label e processos industriais mais exigentes.

Ainda que existam limitações científicas como a falta de avaliações em sistemas alimentares mais complexos e em condições industriais reais para validar plenamente o uso da fruta como conservante natural, assim como compreender melhor os mecanismos de ação de compostos minoritários e sua biodisponibilidade, o cenário de pesquisa aponta perspectivas promissoras.

O avanço de estudos tende a expandir o uso da goji berry como conservante natural plenamente validado e fortalecer seu papel como ingrediente funcional, fomentando um campo crescente para inovação tecnológica, desenvolvimento de novos produtos e aplicações sustentáveis alinhadas às demandas atuais do mercado e do consumidor.

Referências

  • BOULARES, Monte et al. Processing effects on bioactive compounds of goji berries and health-related aspects. In: Processing Effects on Bioactive Compounds. 2025. Disponível em: science/chapter/edited-volume/abs/pii/B9780443160110000055. Acesso em: 18 nov. 2025.
  • GENG, Lijing et al. Optimization of the extraction process of goji berry pectin using response surface methodology and its suitability as thickener for yogurt. Heliyon, v. 10, n. 23, e40708, 26 nov. 2024. DOI: 10.1016/j.heliyon.2024.e40708.
  • HASHEMI, Saba et al. Effect of goji berry incorporation on the texture, physicochemical, and sensory properties of wheat bread. Food Science & Nutrition, v. 12, n. 6, p. 3982-3992, 2024. DOI: 10.1002/fsn3.4056.
  • HU, Shunkai et al. Lycium barbarum (goji berry): a comprehensive review of chemical composition, bioactive compounds, health-promoting activities and applications in functional foods and other areas. Food Chemistry, 2025. Disponível em: science/article/abs/pii/S0308814625038403.
  • JIANG, Chenyu et al. Lycium barbarum berry extract improves female fertility against aging-related oxidative stress in the ovary. Food & Function, v. 15, n. 19, p. 9779-9795, 30 set. 2024. DOI: 10.1039/d4fo02720e.
  • JURIKOVA, Tunde et al. Polyphenolic spectrum of goji berries and their health-promoting activity. Foods, v. 14, n. 8, p. 1387, 17 abr. 2025. DOI: 10.3390/foods14081387.
  • TAKAKURA, Masatoshi et al. Goji berry juice prevents tumor necrosis factor alpha-induced xerostomia in human salivary gland cells. Biological & Pharmaceutical Bulletin, v. 47, n. 1, p. 138-144, 2024. DOI: 10.1248/bpb.b23-00456.
  • VIDOVIĆ, Bojana B. et al. Goji berries: valuable sources of nutrients and bioactive compounds. In: Reference Module in Food Science. 2023. Disponível em: science/chapter/referencework/abs/pii/B9780128239605000317. Acesso em: 18 nov. 2025.
  • WEI, Siyuan et al. Unraveling the components, physiological functions and emerging trends of hydroxycinnamic acid amides in goji berry (Lycium). Food Research International, 2025. Disponível em: science/article/abs/pii/S0963996925010348.
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