A produção de ovos caipiras vem se consolidando como uma importante alternativa econômica para agricultores familiares da Baixada Fluminense. Desde 2023, a atividade tem sido fomentada pela Associação Mista de Produtores Rurais da Agricultura Familiar, diante da demanda crescente e da necessidade de garantir renda aos produtores em períodos de baixa produção vegetal.

Em entrevista ao Portal e-food, a mestre em Segurança Alimentar e Nutricional, Inayna Sabas, explica que a iniciativa envolve agricultores de Nova Iguaçu, Queimados, Japeri, Duque de Caxias e Mesquita, formando uma cadeia produtiva que alia geração de renda, organização coletiva e atenção às exigências de segurança de alimentos.
Segundo a pesquisadora, que acompanha o processo destes produtos desde a aquisição das aves até a comercialização final dos ovos, a avicultura tem se mostrado mais resiliente que outras culturas da região. “Os ovos ajudam muito porque a avicultura não sofre com perdas como as que ocorreram nas plantações vegetais em janeiro e fevereiro, por causa das enchentes. Isso dá mais estabilidade e segurança econômica para o produtor”, explica.
Além de fortalecer a renda, a produção também se destaca pelo cuidado com rotulagem, inspeção e boas práticas. A unidade de beneficiamento trabalha com ovos caipiras e é a primeira de produção dessa categoria no estado do Rio de Janeiro a contar com o Sistema Brasileiro de Inspeção de Produtos de Origem Animal (SISB), que substitui o Serviço de Inspeção Federal (SIF). Os movimentos internos na unidade são realizados por produtores treinados, que recebem orientação sobre o controle sanitário e a padronização do processo.
Embora a associação atue com produtores de diferentes cidades da Baixada, a unidade de beneficiamento está localizada em Duque de Caxias, onde a instituição mantém uma filial. A escolha técnica se deu porque o município é o único da região com Sistema de Inspeção Municipal (SIM) estruturado e com operação integrada ao SISB, o que viabiliza o funcionamento regular da atividade.
Nos programas de aquisição institucional, como o PNAE e o PAA, cada produtor consegue vender cerca de R$ 15 mil por ano, o que representa um incremento mensal de mais de R$ 1 mil a R$ 1,5 mil na renda, após a dedução dos custos. Atualmente, a associação desenvolve um projeto com duração de 12 meses, prorrogável, com meta de compra de 59 mil dúzias de ovos.
O crescimento da atividade também trouxe desafios de qualificação. Recentemente, Inayna promoveu um treinamento com produtores de Nova Iguaçu e Queimados sobre boas práticas na entrega dos ovos, após a identificação de problemas como presença de cabelos e ovos trincados, falhas que nem sempre são perceptíveis a olho nu.
A próxima etapa, segundo ela, será levar os produtores até a unidade de beneficiamento, para que possam acompanhar de perto o destino dos ovos e compreender os motivos das rejeições e descartes. “A ideia é aproximar o produtor da etapa final do processo e mostrar a importância de cada detalhe para garantir qualidade e segurança”, afirmou.
A experiência já inspira outras iniciativas na região. O modelo vem sendo observado como um Arranjo Produtivo Local (APL), classificação identificada por Inayna em seu trabalho de doutorado. Hoje, cerca de 70 agricultores participam diretamente da entrega dos ovos, dentro de um universo de 140 a 150 produtores atendidos pela associação.

Para o futuro, a meta é ampliar a autonomia dos agricultores. A médio prazo, o objetivo é que os produtores passem a manter suas próprias matrizes, reduzindo a dependência da compra de aves de fora. Já no longo prazo, a associação avalia a criação de uma pequena fábrica de ração, medida que pode diminuir um dos principais custos da atividade. Também está em estudo a viabilidade de uma ração orgânica.