Em janeiro deste ano, os olhos da panificação global voltaram para a França durante a Copa do Mundo do Pão (Coupe du Monde de la Boulangerie). Na equipe que representou o Brasil, um perfil chamava a atenção e refletia uma mudança silenciosa, mas poderosa, na indústria de alimentos nacional: Evelin Karine, única mulher do time brasileiro.
Em um setor tradicionalmente formado por homens, a presença de Evelin na elite mundial da panificação não é um fato isolado, mas o reflexo de um setor em transformação, onde a força física nas padarias cedeu espaço para novas habilidades através da tecnologia: novos equipamentos que aprimoraram técnicas e geraram oportunidades para profissionais que melhoram processos e podem aprofundar conhecimento sobre ingredientes.
A jornada: da linha de montagem à maestria na panificação
A carreira de Evelin começou na base da operação industrial, atuando como saladeira. Foi ali, nos bastidores, que descobriu a sua vocação. Quando migrou para a panificação, era a única mulher em sua equipe. Hoje, atua na liderança de produção e controle de qualidade em um time onde a presença feminina já é majoritária.
No início, enfrentou a desconfiança e o estigma de que o trabalho exigia força braçal. “Muitos achavam que eu não iria aguentar. Algumas vezes fui embora chorando por não conseguir realizar alguma tarefa bruta. Mas sempre fui muito dedicada e busquei aprender a ciência de cada etapa para ter autonomia”, relembra.
Hoje, a modernização das fábricas e a evolução dos ingredientes transformaram o cenário. O diferencial deixou de ser o esforço físico para ser o aprimoramento técnico e o conhecimento sobre panificação.
Técnica e inovação
Especialista em viennoiseries (como croissants e massas folhadas), Evelin construiu o seu reconhecimento dedicando-se a uma das áreas mais exigentes e delicadas da panificação. “O trabalho com o folhado exige precisão técnica absoluta, controle rigoroso de temperatura e muita sensibilidade com a massa para alcançar as camadas, a textura e o sabor perfeitos”, ensina.
Do interior do Paraná para o mundo
Ao subir no palco da Copa do Mundo do Pão na França com o escudo do Brasil e o apoio da Lesaffre, empresa global no setor de fermentação há mais de 170 anos, Evelin marcou não apenas a sua carreira, mas a de milhares de mulheres do setor. “Foi uma experiência transformadora. Cresci emocionalmente e profissionalmente”, descreve.
De saladeira a representante internacional, sua história no mês em que é celebrado o Dia Internacional da Mulher é um recado claro ao mercado: “Com técnica e força de vontade, somos capazes de qualquer coisa. A panificação moderna tem espaço para todos que desejam aprender com profundidade”, conclui a padeira.