Introdução
O colostro representa a primeira e mais importante fonte de nutrientes e imunidade para os leitões recém-nascidos. Além de fornecer energia essencial para manutenção da temperatura corporal e sobrevivência nas primeiras horas de vida, o colostro é responsável pela transferência de imunoglobulinas maternas, fundamentais para a proteção dos leitões contra agentes infecciosos durante as primeiras semanas de vida (Quesnel et al., 2012).
Diferentemente de outras espécies, a placenta das fêmeas suínas não permite a transferência significativa de anticorpos da mãe para os fetos durante a gestação. Dessa forma, os leitões nascem praticamente desprovidos de imunidade passiva, tornando a ingestão adequada de colostro um fator determinante para sua sobrevivência, desenvolvimento e desempenho produtivo futuro (Devillers et al., 2011).
Nos sistemas modernos de produção, o aumento da prolificidade das matrizes tem elevado os desafios relacionados ao consumo adequado de colostro, principalmente em leitegadas numerosas e heterogêneas. Nesse contexto, compreender os fatores que influenciam a produção e a qualidade do colostro torna-se fundamental para o sucesso produtivo das granjas.
O presente artigo tem como objetivo abordar a importância do colostro na suinocultura, sua composição, os principais fatores que influenciam sua qualidade e estratégias práticas para maximizar a transferência de imunidade aos leitões.
Definição, composição e função
O colostro é caracterizado como a primeira secreção produzida pela glândula mamária, apresentando elevadas concentrações de imunoglobulinas (IgG), além de menores teores de lactose e lipídios quando comparado ao leite maduro. A lactogênese em matrizes suínas inicia-se aproximadamente aos 90 dias de gestação, período em que ocorrem importantes alterações fisiológicas e metabólicas relacionadas ao desenvolvimento mamário (Quesnel et al., 2012).
A lactogênese pode ser dividida em duas fases:
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Lactogênese I: corresponde ao período de preparação do tecido mamário para a síntese dos componentes do leite e ocorre durante a fase final da gestação.
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Lactogênese II: caracteriza-se pelo início da secreção mamária, começando pouco antes do parto e estendendo-se até aproximadamente 24 horas após o nascimento dos leitões (Quesnel et al., 2012).
Nesse período, ocorre a produção e liberação do colostro, considerado essencial para a sobrevivência e desenvolvimento dos leitões recém-nascidos. A maior parte da ingestão colostral ocorre nas primeiras 9 a 12 horas de vida, momento em que a capacidade de absorção das imunoglobulinas pelo intestino dos leitões é mais eficiente (Krogh et al., 2011).

(FIGURA 1 – Leitões recém-nascidos ingerindo colostro nas primeiras horas de vida, etapa essencial para a transferência de imunidade passiva. Fonte: Arquivo pessoal, 2025.)
Após as primeiras 24 horas pós-parto, as secreções mamárias passam gradualmente pela fase de leite transitório, caracterizada por alterações importantes em sua composição nutricional e imunológica. Entre o quarto e o décimo dia de lactação ocorre a transição para o leite maduro, cuja composição torna-se mais estável. Durante esse processo, observa-se redução progressiva da concentração de imunoglobulinas e modificações nos níveis de nutrientes presentes nas secreções mamárias (Theil et al., 2014).
Com base na ingestão de colostro, estudos demonstram que leitões que consomem quantidades adequadas apresentam menor taxa de mortalidade até o desmame. Observou-se que a mortalidade foi de apenas 7,1% quando os leitões ingeriram mais de 200g de colostro, enquanto aumentou para 43,4% quando a ingestão foi menor que 200g a esse valor (Devillers et al., 2011).
Já em relação à imunidade que os leitões recebem ao mamar o colostro, que é chamado de imunidade passiva, as concentrações de IgG no plasma de leitões com 24 horas de idade apresentam forte correlação com a quantidade de colostro ingerida, evidenciando a importância da ingestão adequada dessa secreção nas primeiras horas de vida. Portanto, é indicado que os leitões ingiram colostro rapidamente logo após o nascimento, já que as concentrações de IgG no colostro reduzem-se rapidamente, podendo apresentar diminuição de cerca de 20% apenas quatro horas após o início do parto. Quando o processo de parto se estende por mais de quatro ou cinco horas, os leitões nascidos nas etapas finais podem estar sob maior risco devido à menor disponibilidade de imunoglobulinas (Devillers et al., 2011).
O que isso representa na prática?
Na prática, o período compreendido entre o nascimento e as primeiras horas de vida dos leitões representa uma das etapas mais críticas da maternidade. Embora a produção de colostro seja um processo fisiológico natural da fêmea, diversos fatores podem comprometer sua ingestão pelos leitões, como leitegadas numerosas, baixa vitalidade ao nascimento, partos prolongados e elevada variabilidade de peso dentro da mesma leitegada.
Por esse motivo, o acompanhamento dos nascimentos e a observação do comportamento dos leitões logo após o parto são fundamentais para garantir que todos os animais tenham acesso ao colostro o mais rápido possível. Leitões que mamam precocemente tendem a apresentar melhor desenvolvimento, maior resistência a desafios sanitários e menores índices de mortalidade durante a maternidade.
Dessa forma, o manejo adequado das primeiras horas de vida deve ser encarado como um investimento no desempenho futuro dos animais, uma vez que os benefícios da ingestão adequada de colostro podem ser observados não apenas durante a lactação, mas também nas fases posteriores de produção.
Métodos de avaliação da qualidade do colostro
A qualidade do colostro, expressa principalmente pela concentração de imunoglobulina G (IgG), pode ser determinada por métodos laboratoriais diretos, como a imunodifusão radial (RID) ou o ensaio imunoenzimático (ELISA) (Brien et. al., 2025). O método de avaliação por meio da refratometria Brix, seja óptica ou digital, permite uma estimativa indireta de baixo custo e prática da qualidade do colostro, podendo ser realizada imediatamente na própria granja. O refratômetro Brix quantifica os sólidos totais presentes no líquido por meio da refração da luz, possibilitando a estimativa indireta da concentração de imunoglobulina G (IgG) no colostro (Quigley et. al., 2013).
O refratômetro digital Brix é especialmente utilizado para determinar a porcentagem de sacarose em soluções líquidas; contudo, quando aplicado a líquidos que não contêm sacarose, permite estimar a porcentagem de sólidos totais (TS%) presentes na amostra (Quigley et al., 2013).

(FIGURA 2 – Refratômetro Brix utilizado para estimar a concentração de sólidos totais no colostro de matrizes suínas. Fonte: Arquivo pessoal, 2025.)
Na rotina das granjas, o refratômetro Brix tem se destacado como uma ferramenta simples, rápida e de fácil utilização para monitorar a qualidade do colostro das matrizes. Sua principal vantagem está na possibilidade de obter resultados imediatos diretamente na maternidade, sem a necessidade de equipamentos laboratoriais complexos ou análises demoradas. Dessa forma, a ferramenta permite acompanhar a variabilidade da qualidade do colostro entre as fêmeas e auxilia na identificação de fatores que possam estar impactando a transferência de imunidade para os leitões.
Além da praticidade, o uso do Brix possibilita que técnicos e produtores acompanhem de forma mais objetiva os resultados de programas nutricionais, condições corporais das matrizes e estratégias de manejo adotadas durante a gestação e o parto. Embora não substitua métodos laboratoriais específicos para quantificação de imunoglobulinas, o refratômetro representa uma alternativa acessível e aplicável à realidade das granjas comerciais, contribuindo para a tomada de decisões e para o aprimoramento contínuo dos índices produtivos.
Conclusão
O colostro desempenha papel fundamental na sobrevivência, desenvolvimento e desempenho futuro dos leitões, sendo responsável pelo fornecimento de energia, nutrientes e, principalmente, imunoglobulinas essenciais para a aquisição da imunidade passiva nas primeiras horas de vida. Considerando que os leitões nascem praticamente sem proteção imunológica, a ingestão adequada de colostro constitui um dos fatores mais importantes para o sucesso da maternidade e para a redução das perdas pré-desmame.
A qualidade do colostro, no entanto, não é constante e pode ser influenciada por diversos fatores relacionados à matriz e ao ambiente de produção. Aspectos como nutrição durante a gestação, escore de condição corporal, ordem de parto, estado sanitário da fêmea, duração do parto, consumo alimentar, estresse térmico, manejo adotado durante a gestação e o periparto, além de características individuais de cada matriz, podem impactar diretamente a composição e a concentração de imunoglobulinas presentes no colostro.
Nesse contexto, o monitoramento da qualidade colostral por meio de ferramentas práticas, como o refratômetro Brix, associado a estratégias adequadas de manejo, nutrição e acompanhamento das matrizes, torna-se uma importante ferramenta para maximizar a transferência de imunidade aos leitões. Investir na produção de colostro de qualidade e garantir sua ingestão adequada nas primeiras horas de vida representa uma das medidas mais eficazes para promover saúde, uniformidade e melhores resultados produtivos ao longo de toda a cadeia de produção suinícola.
Referências
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DEVILLERS, Nicolas; DIVIDICH, Jean Le; PRUNIER, Armelle. Influence of colostrum intake on piglet survival and immunity. Animal, v. 5, p. 1605-1612, 2011.
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KROGH, Uffer; THEIL, Peter Kappel. The fatty acid CLA inhibit colostrum – but stimulate milk production. [In Danish: Fedtsyren CLA i soens foder hæmmer råmælk – men forbedrer mælkeproduktionen]. Månedsmagasinet Svin, v. 9, p. 42-43, 2011.
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QUESNEL, Helene; FARMER, Chantal; DEVILLERS, Nicolas. Colostrum intake: Influence on piglet performance and factors of variation, Livestock Science, v. 146, n. 2–3, p. 105-114, 2012.
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QUIGLEY, J.D.; LAGO, A.; CHAPMAN, C.; ERICKSON, P.; POLO, J. Evaluation of the Brix refractometer to estimate immunoglobulin G concentration in bovine colostrum. Journal of dairy science, v. 96, n. 2, p. 1148–1155, 2013.
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THEIL, Peter Kappel; LAURIDSEN, Charlotte; QUESNEL, Helene. Neonatal piglet survival: impact of sow nutrition around parturition on fetal glycogen deposition and production and composition of colostrum and transient milk. Animal: an international journal of animal bioscience, v. 8, n. 7, p. 1021–1030, 2014.