A alga Kappaphycus Alvarezii

As algas marinhas estão deixando de ocupar apenas um lugar de
destaque na culinária japonesa para conquistar novos espaços na gastronomia
contemporânea e na indústria de alimentos. Entre elas, a macroalga vermelha
Kappaphycus alvarezii vem chamando a atenção por reunir características
tecnológicas, nutricionais e ambientais que ampliam suas possibilidades de uso,
inclusive no Brasil (SANTOS; HAYASHI, 2022; LOPES et al., 2023).

Originária do Sudeste Asiático, especialmente de regiões como
Indonésia, Filipinas e Malásia, K. alvarezii encontrou condições favoráveis para
cultivo no litoral brasileiro. No Brasil, seu cultivo comercial é regulamentado em
estados como Santa Catarina, Rio de Janeiro e São Paulo, com destaque para o
crescimento da atividade em Santa Catarina a partir da autorização para cultivos
comerciais em 2020 (BRASIL, 2020; SANTOS; HAYASHI, 2022; SENAC, 2023).

Durante muito tempo, a principal utilização dessa macroalga esteve
associada à extração de carragenana, um hidrocoloide empregado pelas
indústrias alimentícia, farmacêutica e química por suas propriedades
espessantes, estabilizantes e gelificantes. Agora, entretanto, começa a ganhar
uma nova perspectiva: em vez de ser utilizada apenas como fonte de um
composto tecnológico, sua biomassa integral passa a ser explorada como
ingrediente em preparações alimentícias e gastronômicas.
Essa mudança amplia significativamente as possibilidades de utilização
da alga. Sua composição reúne fibras, minerais, proteínas e diferentes
compostos bioativos, características que despertam interesse não apenas do
ponto de vista nutricional, mas também tecnológico (MUTHEU et al., 2026;
CHOWDHURY et al., 2026; HOY et al., 2025).

Da indústria para o prato

A incorporação de K. alvarezii aos alimentos abre possibilidades que vão
além da simples adição de nutrientes. A biomassa pode contribuir para diferentes características das preparações, como textura, consistência e sabor.
Estudos recentes já investigam sua aplicação em diferentes matrizes
alimentares. Em bebidas, por exemplo, a incorporação da alga pode contribuir
para o aumento do conteúdo mineral e, consequentemente, ampliar o interesse
nutricional dessas formulações (MUTHEU et al., 2026). Em produtos à base de
pescado, sua utilização tem sido relacionada a alterações positivas em
características de textura, como maciez e mastigabilidade, além da possibilidade
de enriquecimento com ácidos graxos de interesse nutricional (CHOWDHURY et
al., 2026).
Outro aspecto particularmente interessante é sua contribuição para o
sabor. A presença de compostos associados ao sabor umami torna K. alvarezii
uma matéria-prima promissora para formulações nas quais se busca intensificar
a percepção de sabor e, potencialmente, reduzir a quantidade de sódio, sem
comprometer a aceitação sensorial (HOY et al., 2025).
No entanto, uma das características mais interessantes da alga esteja
justamente na sua capacidade de transformar a textura dos alimentos. Por
apresentar propriedades gelificantes, a biomassa de K. alvarezii pode contribuir
para a formação de estruturas com diferentes consistências, abrindo
possibilidades para preparações que tradicionalmente dependem de
ingredientes de origem animal ou de outros hidrocoloides. Essa característica
desperta interesse, por exemplo, no desenvolvimento de preparações plant-
based, nas quais textura e estrutura são desafios importantes. É nesse ponto
que a alga deixa de ser apenas uma matéria-prima industrial e passa a ocupar
um novo espaço: o alimento propriamente dito.

Uma nova função para as algas

Essa mudança de perspectiva é importante. A indústria de alimentos já
utiliza há décadas compostos obtidos de algas, como as carragenanas, para
modificar características dos produtos. A novidade está em olhar para a própria
biomassa como parte da matriz alimentar, explorando simultaneamente suas
propriedades tecnológicas e nutricionais.
Essa abordagem pode aproximar ciência, indústria e gastronomia. Para
pesquisadores, representa uma oportunidade de investigar novas relações entre
composição, estrutura e funcionalidade. Para a indústria, abre possibilidades de
utilização de ingredientes de origem marinha em diferentes categorias de alimentos. Para a gastronomia, oferece novas ferramentas para criação de
texturas, sabores e preparações. E esse movimento também possui uma
dimensão ambiental e socioeconômica.
O cultivo de K. alvarezii pode contribuir para a diversificação das
atividades produtivas em regiões costeiras, criando oportunidades para
comunidades envolvidas com a algicultura e a maricultura. A expansão
responsável dessa cadeia pode, portanto, associar inovação alimentar à geração
de trabalho e renda (SANTOS; HAYASHI, 2022; SENAC, 2023).
Kappaphycus alvarezii, portanto, começa a assumir um papel muito mais
amplo do que aquele tradicionalmente associado à produção de carragenana.
De matéria-prima para obtenção de um ingrediente tecnológico, passa a ser
também uma biomassa com potencial de utilização direta nos alimentos. É
justamente nessa transição que está uma de suas maiores oportunidades:
transformar recursos marinhos em ingredientes capazes de participar da
construção dos próprios alimentos, contribuindo para textura, sabor e
composição nutricional. A alga que antes chegava à indústria para ser
transformada em um ingrediente agora começa, ela própria, a chegar ao prato.

REFERÊNCIAS

● BRASIL. Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais
Renováveis (IBAMA). Instrução Normativa nº 1, de 21 de janeiro de
2020. Permite o cultivo de Kappaphycus alvarezii no litoral de Santa
Catarina, Rio de Janeiro e São Paulo, nas áreas delimitadas nesta
norma. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, ed. 16, p. 76, 23
jan. 2020. Disponível em: https://www.in.gov.br/web/dou/-/instrucao-
normativa-
n-1-de-21-de-janeiro-de-2020-239404226. Acesso em: 22 jun. 2026.
● CHOWDHURY, B.; KAIF, M. I. B.; ACHARJEE, M. R.; ZABA, J. F.;
EHSAN, K. M.A.; CHOWDHURY, P.; PERVIN, M. S.; FABIA, N. S.;
MOHAMAD, N. J.
Quantitative compositional characterization of keropok lekor reformulated with
seaweed and soy protein: analytical validation of nutrient and fatty-acid profiles.
Food and Humanity, v. 6, artigo 101176, 2026. DOI:
10.1016/j.foohum.2026.101176.

● HOY, J. M.; HAMID, M. A.; AYUB, M. S.; SURATMAN, R.; EFFENDI, M.
M.;
IN'AM, A. Development of food seasoning using sub-standard fish cracker,
pumpkin (Cucurbita moschata) and seaweed (Kappaphycus alvarezii). IOP
Conference Series: Earth and Environmental Science, v. 1446, artigo 012031,
2025. DOI: 10.1088/1755-1315/1446/1/012031.
● LOPES, J. S.; SIMÃO, R. S.; MENDES, G. S.; DEMARCO, M.; MORAES,
J. O.;HAYASHI, L.; LAURINDO, J. B.; TRIBUZI, G. Kappaphycus alvarezii flours
as an ingredient for seaweed-enriched, rice-based, snacks: raw algae
pretreatment and physical properties of the dough and snacks. International
Journal of Food Science & Technology, v. 58, n. 5, p. 2448–2457,
2023. DOI:https://ifst.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/ijfs.16383
● MUTHEU, C.; OWAGA, E.; NJOROGE, D. Physicochemical properties
and consumer acceptability of passion fruit juice supplemented with
Kappaphycus alvarezii seaweed gel. Applied Food Research, v. 6, artigo
102226, 2026. https://doi.org/10.1016/j.afres.2026.102226
● SANTOS, A. A.; HAYASHI, L. Sistema de cultivo da macroalga
Kappaphycus alvarezii em Santa Catarina. Florianópolis: Epagri, 2022.
56 p. (Sistemas de Produção, 55). Disponível em:
https://publicacoes.epagri.sc.gov.br/SP/article/view/1533/1361. Acesso
em 20 jun. 2026.
● SENAC. Departamento Regional de Santa Catarina. Algas: receitas com
Kappaphycus alvarezii. Florianópolis: Senac/SC, 2023. Disponível
em:
https://www.sc.senac.br/algas/doc/ebook_Algas_Receitas_com_Kappap
hycus_alvarezi. pdf. Acesso em 15 jun. 2026.

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