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Uso de formaldeído para desinfecção de ovos férteis

A crescente demanda por produtos de origem avícola, a expansão desse mercado, além da exigência de que as aves tenham o máximo de desempenho e rendimento, aliados a produção industrial de pintinhos de um dia é de suma importância para o desenvolvimento da moderna indústria avícola (ABPA, 2023).

Entre os maiores estados produtores de carne de frango do país estão o Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Estes três estados são responsáveis por 64,4% da produção nacional (ABPA, 2023). Considerando a demanda por alimentos destas aves, o Sindicato das Rações estima que em 2022 foram produzidas 35,8 milhões de toneladas de rações (SINDIRAÇÕES, 2022).

Diante das exigências do mercado consumidor, a avicultura industrial mundial e principalmente a brasileira, precisou se adaptar e se desenvolver para obter um produto de extrema qualidade e de valor acessível. Com isto, uma produção que visa à eficiência, qualidade e sanidade, com o foco voltado para a biosseguridade e o bem-estar animal é ponto determinante para a sustentabilidade da produção, visto que a saúde pública está diretamente ligada a segurança alimentar e controle e prevenção das zoonoses (BARBOSA, 2014).

A incubação artificial é um processo que transforma ovos férteis em pintos de um dia, sendo esta, a primeira fase na cadeia de produção de frango de corte. Para que o desenvolvimento embrionário seja satisfatório, é necessário realizar o controle total do processo industrial. Os incubatórios comerciais buscam frequentemente métodos de aumentar a eclodibilidade, produção, qualidade e uniformidade dos pintos recém-eclodidos (MESQUITA, 2021).

Os avanços desta atividade se devem principalmente a introdução do controle de máquinas e monitoramento por meio de computadores, automação dos processos diários e a conscientização da importância do incubatório no controle de doenças das aves (FURLAN, 2013).

É importante levar em consideração a produção diária das matrizes, com a finalidade de transformar, de maneira biológica, o ovo fértil em um pinto nas condições que atendam o volume, prazo, quantidade e qualidade compatíveis com o mercado avícola (RIEGER, 2020).

Os desvios nos padrões de temperatura, viragem, umidade e ventilação da incubadora reduzem a eclosão, o que significa que, do total de ovos férteis incubados, ocorre uma redução no número de pintos nascidos, reduzindo também a lucratividade do incubatório e aumentando os custos de produção, sendo necessário realizar uma análise de quais fatores interferiram no nascimento (PEREIRA, 2009).

Atualmente, nos sistemas de criação e manejo de aves, mesmo empregando medidas higiênicas rigorosas, ainda se faz importante o uso de desinfetantes. A desinfecção descreve o método capaz de eliminar os microrganismos patogênicos, pelo fato de ser um tratamento químico que destrói a maioria dos microrganismos na forma vegetativa e não da forma de esporos (MORGULIS & SPINOSA, 2005).

A desinfecção de ovos para produção de frangos de corte em quantidade e qualidade elevada é imprescindível para reduzir a contaminação dos ovos e minimizar os seus efeitos deletérios. Uma desinfecção eficiente pode melhorar a eclodibilidade e a qualidade dos pintos (CAMPOS, 2000). Segundo HEIER et al., (2001), entre os possíveis fatores que influenciam a taxa de eclosão estão a qualidade e o nível de contaminação do ovo incubado.

O ovo está sujeito a contaminações desde a passagem pela cloaca da galinha até a oviposição e isto é expandido durante o processo de resfriamento natural dos ovos, quando ocorre a passagem de ar do ambiente para o interior do ovo, podendo carrear contaminantes (CONY et al., 2007). A presença de ovos contaminados durante o processo de incubação pode contaminar a incubadora e os demais ovos.

A primeira proteção física do ovo é a casca, que atua prevenindo contaminações, além de proteger o embrião contra agressões externas (NARUSHIN, 2002). Ela também permite as trocas de água e de gases entre o ovo e o ambiente (NYS et al., 2011). Em sua superfície externa, a casca é revestida pela cutícula que atribui uma defesa microbiana e resistência à água ao ovo, impedindo perdas de água excessiva (NYS et al., 2011). 

A casca é constituída por um grande número de poros de diâmetros variáveis, os quais facilitam a penetração de bactérias (ZANATTA et al., 2023). Os minerais presentes na casca, de maneira especial o cálcio na forma de carbonato de cálcio, são transferidos ao embrião para dar suporte ao seu crescimento (CARVALHO et atl., 2012).

Internamente, existem duas membranas   semipermeáveis   que   também desempenham a ação de uma barreira física à invasão de patógenos (KULSHRESHTHA et al., 2022). O tempo e a temperatura de armazenagem são fatores fundamentais para que as salmonelas passem da superfície da casca para as estruturas internas do ovo (OLIVEIRA, 2000).

A clara, em geral, apresenta-se com baixa contaminação por salmonelas pois ela contém elementos naturais que dificultam o desenvolvimento bacteriano, como a presença de enzimas antibacterianas (lisozima) e a deficiência em ferro, elemento essencial para a multiplicação bacteriana, p.ex. Contudo, a manipulação da clara no preparo de determinados pratos pode romper esse equilíbrio e favorecer a multiplicação de salmonelas.

O gás formaldeído tem sido utilizado durante muitos anos pela indústria avícola para a desinfecção de ovos e equipamentos de incubatórios. Seu uso como agente fumigante foi provado ser efetivo em destruir microrganismos presentes na casca dos ovos (OIE, 2010).

Contudo, os efeitos adversos associados à sua utilização, principalmente à saúde dos trabalhadores das granjas e incubatórios, direcionaram grande parte das pesquisas em busca de métodos de desinfecção alternativos (BERRANG et al., 2000).

A primeira contaminação microbiana dos ovos acontece após a passagem pela cloaca e, a partir de então, qualquer superfície em contato pode levar ao contágio (BOARD E TRANTER, 1995). A microbiota da casca de ovos de galinhas é dominada por bactérias Gram-positivas, oriundas, na sua maioria, da poeira, solo e fezes (BOARD E TRANTER, 1995). 

Após a postura, a casca adquire infecção oriunda de todas as superfícies com as quais faz contato e a extensão da infecção está diretamente ligada com a limpeza dessas superfícies. De acordo com BOARD E TRANTER (1995), a infiltração de microrganismos pela casca ocorre de maneira passiva e pode levar a sua deposição nas membranas da casca, ou próximas a elas.

A primeira desinfecção deve ser realizada na granja, o mais rápido possível, pois após a postura o ovo esfria. Esse resfriamento causa o encolhimento da parte interna do ovo, e há uma sucção de bactérias para o interior do mesmo, através dos poros da casca levando à contaminação do ovo (LAUVERS, 2011).

Dentre as vantagens do uso de formaldeído destaca-se a capacidade de eliminar a maioria das bactérias e fungos – incluindo seus esporos, o baixo preço e o fato de não ser corrosivo (CADIRCI, 2009). Segundo SCOTT E SWETNAM (1993), o poder germicida do formaldeído não se alterou após anos de uso, além da resistência de linhagens de microrganismos contra o produto não ter se desenvolvido. 

Em contrapartida, o formaldeído pode causar sérios danos ao embrião, se a fumigação for realizada de maneira incorreta, além de não possui poder residual prolongado e, portanto, não previne a recontaminação (CADIRCI, 2009). De acordo com FREITAS (2007), esta prática pode causar alterações ultra e microestruturais na traqueia e nos pulmões dos pintinhos, comumente causando ruptura da membrana ciliar, aglutinação ciliar, descamação epitelial e infiltração de heterofilos, esta última levando a perdas consideráveis na produtividade.

Durante toda a história de aplicação desta fundamental medida sanitária, vários métodos têm sido utilizados e pesquisados, com o objetivo de evoluir tecnologicamente e minimizar ou anular os efeitos deletérios que esta interferência pode trazer aos ovos, bem como aos indivíduos envolvidos no processo. (MELO et al., 2019).

Referências bibliográficas

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