DNA Barcoding: desmascarando fraudes na rotulagem de pescados

Introdução

A autenticidade dos produtos comercializados é uma preocupação crescente no setor alimentício, especialmente em relação aos pescados. O comércio ilegal, a substituição de espécies e a rotulagem inadequada são práticas que afetam consumidores, comerciantes e a biodiversidade marinha. Diante desse cenário, a técnica de DNA barcoding surge como uma ferramenta eficaz para a identificação precisa das espécies comercializadas, contribuindo para a transparência e segurança de alimentos (Hebert et al., 2003).

A substituição de espécies em pescados tem sido reportada em diversos países, incluindo Canadá e Estados Unidos (Wong e Hanner, 2008), bem como Japão e Coreia (Baker, 2008). Vale destacar que a verificação da autenticidade dos pescados torna-se mais desafiadora devido à ausência de características morfológicas distintivas em produtos processados ou filetados. Ademais, os métodos de identificação baseados em proteínas ou lipídios demandam processos laboriosos, exigem profissionais especializados e não são aplicáveis a produtos submetidos a tratamentos térmicos ou químicos.

DNA Barcoding: Princípios e Aplicação

O sistema contemporâneo de taxonomia molecular foi introduzido por Tautz et al. (2003), utilizando o DNA como ferramenta para a identificação de diferentes grupos de organismos, sendo atualmente amplamente reconhecido. Nesse contexto, as análises moleculares baseadas em DNA têm se destacado entre as metodologias disponíveis, pois requerem quantidades mínimas de amostra, como fragmentos de tecido animal, e permitem a identificação de produtos em diversas condições, incluindo congelados, salgados ou processados por aquecimento ou cozimento. Assim, o DNA barcoding se estabelece como uma ferramenta eficaz e sensível para a autenticação de pescados e seus derivados.

O DNA barcoding é um método de identificação molecular baseado na comparação de sequências genéticas com um banco de dados de referência. Essa técnica utiliza um fragmento padronizado do gene citocromo c oxidase subunidade I (COI), presente no DNA mitocondrial, para diferenciar espécies de animais. O princípio do método se baseia na variação genética entre espécies distintas, permitindo sua identificação por meio da amplificação e sequenciamento desse gene específico (Ward et al., 2005).

No setor de pescados, a aplicação do DNA barcoding tem se mostrado uma estratégia fundamental para detectar fraudes e garantir a autenticidade dos produtos comercializados. Estudos demonstram que a substituição de espécies ocorre com frequência, principalmente em produtos processados, onde a identificação visual é dificultada (Galimberti et al., 2013). A análise genética permite verificar se a espécie declarada na embalagem corresponde àquela efetivamente comercializada, evitando a substituição intencional por espécies de menor valor econômico.

Identificação de Fraudes em Pescados

A fraude em pescados ocorre de diversas formas, sendo a substituição de espécies uma das mais comuns. Estudos apontam que cerca de 30% dos pescados vendidos em mercados e restaurantes apresentam rotulagem incorreta (Pardo et al., 2018). Essa prática prejudica consumidores e impacta a conservação das espécies marinhas, uma vez que pode mascarar a comercialização de espécies ameaçadas.

A técnica de DNA barcoding tem sido amplamente empregada na fiscalização e regulamentação do comércio de pescados. Em um estudo realizado por Wong e Hanner (2008), a análise de amostras comerciais revelou um alto índice de substituição em produtos de atum e bacalhau. A identificação genética permitiu expor irregularidades e reforçar a necessidade de regulamentações mais rígidas no setor.

Além disso, a rastreabilidade dos produtos pesqueiros tem sido aprimorada com a incorporação desta técnica em programas de monitoramento. Governos e organizações ambientais utilizam DNA barcoding para garantir a conformidade dos produtos com as normas de sustentabilidade e segurança alimentar.

Vantagens e Desafios da Técnica

O DNA barcoding apresenta diversas vantagens para a identificação de fraudes em pescados, incluindo:

● Precisão e confiabilidade: a técnica permite uma identificação exata das espécies, reduzindo erros associados a métodos tradicionais de morfologia.

● Rapidez e acessibilidade: os avanços nas tecnologias de sequenciamento tornaram o método mais acessível e rápido.

● Apoio à conservação: a correta identificação das espécies contribui para a proteção da biodiversidade marinha e combate à pesca ilegal.

Entretanto, alguns desafios ainda precisam ser superados. A disponibilidade de bancos de dados completos e validados é essencial para garantir resultados confiáveis. Além disso, o custo da análise ainda pode ser um fator limitante em determinados contextos, especialmente para pequenos comerciantes e países em desenvolvimento (Aranishi, 2005).

Considerações Finais

A aplicação do DNA barcoding na identificação de fraudes em pescados representa um avanço significativo para a segurança de alimentos, transparência no comércio e conservação ambiental. A adoção dessa tecnologia permite uma fiscalização mais eficiente e reduz práticas fraudulentas que prejudicam consumidores e o meio ambiente. Investimentos na ampliação de bancos de dados genéticos e na disseminação da técnica são fundamentais para fortalecer seu uso no setor pesqueiro.

Referências

● Aranishi, F. (2005). PCR-based method for identification of fish species. Journal of Food Science, 70(1), C25-C31.
● BAKER, C.S.; DALEBOUT, M.L.; LENTO, G.M.; et al. Gray whale products sold in commercial markets along the Pacific Coast of Japan. Marine Mammal Science. n. 18, p. 295– 300, 2002.
● Galimberti, A., et al. (2013). DNA barcoding as a new tool for food traceability. Food Research International, 50(1), 55-63.
● Hebert, P. D. N., et al. (2003). Biological identifications through DNA barcodes. Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences, 270(1512), 313-321.
● Pardo, M. Á., et al. (2018). DNA barcoding revealing mislabeling of seafood products: A global issue. Food Control, 84, 130-142.
● TAUTZ, D; ARCTANDER, P; MINELLI, A; et al. A plea for DNA taxonomy. Trends in Ecology & Evolution. n. 18, p. 70–74, 2003.
● Ward, R. D., et al. (2005). DNA barcoding for species identification in fish. Marine Biotechnology, 7(5), 495-505.
● Wong, E. H. K., & Hanner, R. H. (2008). DNA barcoding detects market substitution in North American seafood. Food Research International, 41(8), 828-837.

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