Contaminação de peixes por microplásticos ameaça a saúde humana

Introdução

Os detritos plásticos tornaram-se marcadores globais das mudanças ambientais contemporâneas, estando presentes em praticamente todos os ecossistemas do planeta. Estima-se que a massa total de resíduos plásticos já ultrapasse a biomassa animal da Terra e, apesar de sua ampla disseminação ser reconhecida, os impactos ecológicos e fisiológicos ainda não foram completamente elucidados (Carvallo; Muñoz-Michea, 2023).

O plástico é um polímero majoritariamente obtido a partir do petróleo e de seus subprodutos. Sua estrutura química confere resistência, flexibilidade e durabilidade, propriedades que explicam tanto sua utilidade quanto sua persistência ambiental. A baixa biodegradabilidade faz com que grande parte dos resíduos plásticos permaneça acumulada em aterros, corpos d’água e solos, fragmentando-se ao longo do tempo em partículas menores denominadas microplásticos e nanoplásticos (Gesamp, 2016; Gigault et al., 2018).

Os microplásticos são definidos como fragmentos com menos de 5 milímetros em pelo menos uma dimensão. Essas partículas podem ser primárias, produzidas intencionalmente para uso industrial e cosméticos, ou secundárias, resultantes da degradação de produtos plásticos maiores (Rocha-Santos; Duarte, 2015).

Os microplásticos têm sido reconhecidos como uma das maiores ameaças ambientais do século XXI, detectados desde sedimentos abissais até o ar de grandes centros urbanos. Estima-se que cerca de 8 milhões de toneladas de plásticos sejam lançadas anualmente nos oceanos (Jambeck et al., 2017), onde atuam como vetores de poluentes orgânicos persistentes, metais pesados e microrganismos patogênicos (Rios et al., 2013; Jambeck et al., 2017).

Presença de microplásticos em peixes e sua relação com a segurança do consumidor

Originados da degradação de materiais plásticos de maiores dimensões, os microplásticos, apesar de minúsculos, são considerados grandes poluentes dos ambientes marinhos. Sua presença nos oceanos decorre da superprodução e do descarte incorreto de plásticos nas últimas décadas (Dantas et al., 2020). Essas partículas contaminam diversos organismos aquáticos, incluindo peixes, por meio de escoamentos e correntes que transportam resíduos dos ambientes terrestres para o mar, impactando profundamente os ecossistemas (Auta et al., 2017).

Os efeitos dos microplásticos variam conforme o tamanho, a forma e a composição química das partículas. Uma vez ingeridos, podem causar obstrução intestinal, inflamação, redução na absorção de nutrientes e alterações comportamentais (Rochman et al., 2013; Barboza; Giménez, 2015). Além disso, atuam como vetores de compostos tóxicos como PCBs (Bifenilos Policlorados), PAHs (Hidrocarbonetos Policíclicos Aromáticos) e pesticidas, favorecendo a bioacumulação ao longo da cadeia trófica (Teuten et al., 2009).

Aproximadamente 20% da população mundial depende de peixes selvagens para suprir em aproximadamente 20% de sua ingestão alimentar total em peso (Golden et al., 2016), e a pesca representa uma importante base econômica global, empregando cerca de 200 milhões de pessoas (Teh; Sumaila, 2013). Nesse contexto, a contaminação de espécies marinhas por microplásticos não é apenas um problema ambiental, mas também de segurança alimentar.

A ingestão de microplásticos já foi registrada em mais de 200 espécies de peixes, incluindo espécies de interesse comercial (Lusher et al., 2017; Markic et al., 2020). Estudos realizados no litoral brasileiro confirmaram a presença dessas partículas em sardinhas, tainhas e corvinas, demonstrando a amplitude do problema (Possatto et al., 2011; Ferreira et al., 2021). Em organismos marinhos, os polímeros também podem liberar aditivos químicos como ftalatos e bisfenóis, conhecidos desreguladores endócrinos que interferem nos sistemas hormonais e reprodutivos (Wang et al., 2024).

No Brasil, a concentração de pesquisas ocorre principalmente nas regiões Nordeste e Sudeste, em função do turismo costeiro e do descarte irregular de resíduos. Neste contexto, destaca-se o estudo pioneiro de Possatto et al. (2011), em que os autores registraram a ingestão de microplásticos por três espécies de bagres (Cathorops spixii, C. agassizii e Sciades herzbergii), marco inicial na compreensão da contaminação de peixes por partículas plásticas no Nordeste do país.

Outros estudos têm avançado na caracterização de microplásticos em águas continentais e marinhas. No rio Amazonas, Silva et al. (2020) detectaram elevada concentração de fibras sintéticas derivadas de tecidos, sugerindo contribuição doméstica significativa. Em ambientes estuarinos de Pernambuco, Santos et al. (2022) registraram microplásticos em ostras e caranguejos, reforçando o risco de bioacumulação na cadeia alimentar. Já na região Sudeste, Costa et al. (2023) identificaram microplásticos em sedimentos e peixes do estuário de Santos, destacando a correlação com áreas urbanizadas e de intensa atividade portuária.

Santana (2025) investigou a incidência da contaminação por MP em amostras de sedimento (n = 8), água (n =18) e amostras do trato gastrointestinal, músculo e brânquias de cinco espécies de peixes de importância comercial coletados no Estuário do rio Anil, no Maranhão. A autora encontrou MP em todas as espécies de peixes e o tamanho predominante foi entre 1 μm e 500 μm.

A exposição humana ocorre principalmente pelo consumo de frutos do mar e água potável, mas também foi detectada em outros meios como o sal marinho e o ar atmosférico. Dados da BBC News (2019), evidenciam que a ingestão de microplásticos varia de 74 mil a 121 mil partículas por pessoa, por ano, conforme a idade e o sexo.

Esses nanoplásticos e microplásticos podem entrar no corpo humano por meio do sistema respiratório, por inalação, por meio do trato digestivo, pelo consumo de alimentos e água contaminados ou pela penetração na pele através do contato com cosméticos e roupas. Assim, a bioacumulação desses compostos no corpo humano pode levar a diversos problemas de saúde (Winiarska; Jutel; Zemelka-Wiacek, 2024).

Pesquisas recentes identificaram microplásticos em amostras de sangue humano (Leslie et al., 2022) e tecidos placentários (Ragusa et al., 2021), levantando preocupações sobre efeitos imunológicos e endócrinos. Estudos experimentais apontam que a exposição prolongada pode causar inflamação, estresse oxidativo e alterações na microbiota intestinal (Ravindra et al., 2025).

Segundo Santana (2025), os riscos potenciais à saúde humana podem gerar custos com a ocorrência de doenças relacionadas à exposição aos MP, gerando custos para o sistema de saúde.

Embora ainda não haja consenso sobre a toxicidade direta para humanos, há um alerta crescente sobre os riscos cumulativos associados à ingestão contínua dessas partículas e de seus aditivos químicos. Essa evidência reforça a necessidade de políticas públicas voltadas à redução da poluição plástica e ao monitoramento de microplásticos em cadeias alimentares.

O Brasil não possui uma legislação específica para o controle de microplásticos, embora o tema venha sendo discutido em propostas legislativas e em planos de ação nacionais de combate ao lixo no mar (MMA, 2019). Algumas iniciativas regionais vêm sendo implementadas, como o Plano Nacional de Combate ao Lixo no Mar (PNCLM), coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente.

A mitigação requer ações integradas como a redução da produção de plásticos descartáveis, incentivo à economia circular, fortalecimento da coleta seletiva e desenvolvimento de materiais biodegradáveis. A educação ambiental e a conscientização da população também são pilares fundamentais para minimizar o impacto desse poluente emergente (Silva; Furtado, 2023).

Considerações

A constante presença de microplásticos em diversos compartimentos ambientais revela a gravidade e a complexidade desse poluente emergente. Sua persistência, capacidade de transporte e potencial de bioacumulação representam ameaças significativas à biodiversidade aquática e à saúde humana.

No contexto brasileiro, observa-se um avanço nas pesquisas, sobretudo em ambientes costeiros e fluviais. Entretanto, a ausência de padronização metodológica para identificação dessas micropartículas e de legislação específica, dificulta o estabelecimento de parâmetros nacionais de monitoramento. É urgente a integração entre universidades, órgãos ambientais e setor produtivo para promover políticas públicas baseadas em evidências científicas.

Em síntese, enfrentar o desafio dos microplásticos não se resume à mitigação de resíduos, mas envolve repensar a relação entre sociedade, consumo e meio ambiente. Somente por meio de políticas integradas, inovação tecnológica e educação ambiental será possível construir um modelo sustentável capaz de preservar a vida marinha, a segurança alimentar e a saúde das futuras gerações.

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