Urucum como Corante Natural e Ingrediente Funcional

Introdução

Os corantes desempenham um papel importante nos alimentos e estão
relacionados à atratividade para o consumidor. A ANVISA, Agência Nacional
de Vigilância Sanitária, considera corante como a substância ou a mistura de
substâncias que possuem a propriedade de conferir ou intensificar a coloração
de alimentos e bebidas (Santos et al., 2022).

Os corantes sintéticos ainda são os mais utilizados no setor industrial.
No entanto, devido às questões de sustentabilidade, a indústria vem se
preocupando e buscando alternativas naturais. Os corantes naturais são
substâncias extraídas de plantas, animais ou minerais, utilizadas desde a
Antiguidade na coloração de tecidos, alimentos e cosméticos. As civilizações
Indiana, Chinesa, os povos mesopotâmicos e as culturas pré-colombianas já
exploravam matérias-primas como índigo, cúrcuma, açafrão, cochonilha e
urucum, que além da função estética, possuíam significados culturais e
simbólicos (Alegbe; Uthman, 2024).

Por serem derivados de fontes renováveis, os corantes naturais
apresentam vantagens ambientais e de saúde, como biodegradabilidade, baixa
toxicidade e menor impacto poluente. Essas características os tornam atrativos
para setores que demandam alternativas seguras e sustentáveis, como as
indústrias alimentícia, cosmética e farmacêutica (Mahltig, 2025).

O corante natural urucum é obtido da semente do urucuzeiro e pode ser
comercializado como extrato lipossolúvel e extrato hidrossolúvel, o que
facilita sua aplicação em diferentes alimentos. As sementes de urucum
possuem miolo com casca constituída de óleos, substâncias cerosas e
alcaloides, enquanto a casca da semente contém pigmentos carotenoides e
traços de óleos (Shridar et al., 2024).

Devido a sua coloração amarelo-alaranjada, sua adição em alimentos
torna os produtos mais atrativos. Apesar de ser muito versátil, o urucum é
sensível a fatores como luz, oxigênio e temperatura, o que pode afetar sua corao longo do tempo. Além disso, por ser naturalmente insolúvel em água, foram
desenvolvidas tecnologias que permitem sua melhor dispersão em preparações
aquosas. Esses avanços também possibilitam seu uso em novas formulações,
auxiliando na incorporação e estabilização de outros ingredientes lipofílicos.
Por essas características, o urucum se destaca como um ingrediente promissor
e cada vez mais importante para a inovação na indústria de alimentos (Santos
et al., 2022; Takamoto et al., 2024).

Pode ser utilizado em produtos alimentícios como os de panificação,
além de iogurte, bebida láctea, queijo, requeijão, manteiga, margarina, molhos,
salsicha, sendo muito empregado também nas indústrias farmacêutica, têxtil e
de cosméticos (Santos et al., 2022).

Além de atuarem como corante, esses compostos apresentam
propriedades bioativas relevantes, como o potencial antioxidante, anti-
inflamatório e antimicrobiano, o que os torna de interesse crescente para as
indústrias alimentícia, farmacêutica e cosmética. Dessa forma, a composição
química singular do urucum garante versatilidade e competitividade no
mercado global de corantes naturais (Franco et al., 2002; Soares; Leite; Araújo,
2021).

Em relação a produção mundial, o Brasil se destaca como o maior
produtor, consumidor e exportador mundial de corantes e sementes de urucum
(Santos et al., 2022).

Composição Química do Urucum

O urucum é obtido do urucuzeiro (Bixa orellana), planta que apresenta
pigmento amarelo/avermelhado. Conhecido por colorau ou colorífico, é
constituído pelos carotenoides bixina e norbixina (Figura 1), sendo a bixina o
pigmento majoritário presente nas sementes de urucum e, a norbixina,
resultado da saponificação da bixina, que apresenta coloração amarela,
encontrada em pequena quantidade nas sementes (Santos et al., 2022).

Figura 1.  Estruturas químicas da bixina (a) e norbixina (b)

Fonte: Hamerski (2013)

 

A estrutura da bixina apresenta nove duplas ligações conjugadas
alternadas, dois grupos carboxílicos e um éster metílico, conferindo pigmento
vermelho intenso. As duplas ligações conjugadas atuam capturando radicais
livres, tornando a bixina um carotenoide com elevada ação antioxidante.

Existem algumas formas convencionais de extrair o pigmento das
sementes de urucum como por meio da extração em óleo, em que a parte
externa do fruto fica submersa em óleo vegetal aquecido a 70 °C; além de
extração com solventes como acetona e metanol e extração em solução
alcalina. Os carotenoides bixina e norbixina são susceptíveis a oxidação, que
pode acarretar na perda de cor, mas de modo geral, o urucum apresenta boa
estabilidade, podendo ser usado na indústria alimentícia em margarinas,
queijos, bebidas, produtos cárneos, entre outros (Vilkhu et al., 2008; Martins et
al., 2016).

Aplicações do Urucum na Indústria de Alimentos

O uso de corantes naturais na indústria alimentícia tem ganhado
destaque por aliar segurança a potenciais benefícios à saúde, como
propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. Diferentemente dos corantes
artificiais, associados a riscos toxicológicos, esses compostos demonstram boa
aplicabilidade em diversas matrizes alimentares. Pesquisas recentes reforçam
sua estabilidade e contribuição positiva para a qualidade nutricional dos produtos, consolidando-os como alternativas promissoras (Luzardo-Ocampo et
al., 2021; Novais et al., 2022).

A bixina é utilizada desde a antiguidade como um corante para a
indústria alimentícia, deixando os alimentos com colorações características,
fato este que permitiu que o urucum se tornasse um pigmento natural muito
utilizado (Almeida, 2024), sem comprometer a aceitação sensorial dos
consumidores.

Estudos demonstram que formulações com maior concentração de
bixina resultam em coloração intensa e de boa aceitação, além de
apresentarem maior versatilidade de aplicação, especialmente quando
associadas à microencapsulação, que aumenta sua estabilidade e reforça o
potencial de uso em escala industrial (Constant et al., 2021).

Na indústria alimentícia o urucum é utilizado nos seguintes alimentos:
massas, recheios, coberturas de doces, molhos, bebidas e pós de tonalidade
amarela; sorvetes, queijos e iogurtes, de coloração amarela clara; salsicha,
cereais, biscoitos, “catchup”, embutidos, sopas e temperos de coloração
alaranjada; e em colorífico (colorau), sopas e uso doméstico na coloração
laranja avermelhado. Vale mencionar que quando este corante está na forma
de pó, é preferível pela indústria farmacêutica, devido à melhor estabilidade e
intensidade da cor (Taham; Silva; Barroso, 2016).

De acordo com Henrique et al. (2024), o urucum pode ser usado como
fonte de pigmentos naturais que contribuem para a boa coloração da
mortadela. No estudo desses pesquisadores, a mortadela de porco foi
produzida utilizando carmim de cochonilha e urucum como pigmentos naturais,
além de curcumina como antioxidante. Com base nos resultados físico-
químicos obtidos neste estudo, a adição dos pigmentos não interferiu
significativamente no pH, na capacidade de retenção de água ou na perda de
peso durante o cozimento das amostras de mortadela. Portanto, os
pesquisadores reforçam a utilização do urucum não apenas como corante, mas
também como ingrediente funcional associado à proteção contra a oxidação
lipídica.

Em pães, a adição do corante de urucum (0, 0,5, 0,75 e 1%) foi avaliada
por Najafi et al. (2018). Os autores verificaram redução na contagem total de
microrganismos e fungos, como Aspergillus ninger. A maior atividade antioxidante foi obtida no pão com 1% de corante e todas as formulações
contendo corante apresentaram atributos sensoriais aceitáveis. Esse resultado
é interessante visto que a indústria busca substituir corantes sintéticos e
conservantes artificiais por naturais.

Paralelamente, o urucum também tem se mostrado uma alternativa
sustentável para a indústria têxtil, apresentando boa fixação e solidez de cor
quando comparado a corantes comerciais, sem necessidade de processos
químicos agressivos, o que contribui para práticas mais ecológicas e amplia
sua utilização como corante natural em diferentes setores (Gonçalves et al.,
2020).

Conclusão

O urucum é uma planta tropical que apresenta um papel industrial
promissor, principalmente no setor alimentício. O uso de corantes na indústria
alimentícia reflete tanto o avanço tecnológico quanto a adaptação às
preferências do consumidor. Os corantes artificiais, amplamente utilizados pelo
baixo custo e eficiência, estão associados a potenciais riscos à saúde, como
reações alérgicas e efeitos cumulativos no organismo, o que tem gerado
preocupação em especialistas e consumidores mais conscientes. Nesse
sentido, os corantes naturais surgem como alternativas mais seguras e com
benefícios adicionais à saúde, devido às suas propriedades antioxidantes,
alinhando-se à demanda por alimentos saudáveis e sustentáveis.

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