A semente de chia (Salvia hispanica), nativa do sul do México e norte da Guatemala, vem ganhando crescente destaque devido ao seu valor nutricional e potencial como ingrediente funcional. Tradicionalmente, foi utilizada por povos antigos, principalmente os maias, como fonte de energia e oferenda aos Deuses. Nos dias de hoje, é reconhecida como um alimento de grande importância para a saúde e nutrição humana, sendo amplamente incorporada em dietas voltadas ao bem-estar e à prevenção de doenças.
A crescente demanda do mercado por alimentos saudáveis e funcionais fez da chia não apenas um ingrediente, mas um produto estratégico na indústria de alimentos e bebidas. Produtos de panificação, tais como pão sem glúten, pão integral, bolo e biscoito; produtos lácteos, tais como iogurte, requeijão e queijo; produtos emulsionados, como maionese e sorvete; e produtos cárneos, tais como nuggets, salsichas e hambúrguer são alguns exemplos de produtos com chia. Também apresenta aplicações para o setor plant-based e para alimentos destinados a celíacos, uma vez que não contém glúten.
A composição química da chia é notável. As sementes apresentam elevado teor de lipídios (20–30%), com predominância de ácidos graxos poli-insaturados essenciais, sobretudo o ômega-3 (ácido α-linolênico, ~68%) e o ômega-6 (ácido linoleico, ~19%), que desempenham funções vitais no organismo humano, uma vez que não podem ser sintetizados endogenamente (Fernandes et al., 2019). Além disso, são ricas em fibras alimentares, proteínas de bom valor biológico, aminoácidos essenciais, polifenóis, vitaminas (A, B1, B2 e B3) e minerais como cálcio, fósforo, potássio e magnésio (Hsieh et al., 2022).
Essa combinação de nutrientes e compostos bioativos confere à chia propriedades funcionais, como a capacidade de promover saciedade pela formação de gel no trato gastrointestinal, auxiliar na regulação do colesterol e glicemia, prevenir doenças cardiovasculares e contribuir para o controle da obesidade e da aterosclerose (Egea & Fernandes, 2025). Estudos recentes não relatam efeitos adversos ou reações alérgicas associados ao consumo da semente, seja inteira, moída ou em seus subprodutos.
Mas os benefícios da chia não param na nutrição: a cadeia produtiva também mostra avanços importantes no Brasil, com destaque para regiões que vêm se consolidando como polos de cultivo. No Brasil, a chia é cultivada principalmente nos estados do Ceará, Minas Gerais, Tocantins, Paraná e Rio Grande do Sul, destacando-se este último com produtividades médias de até 770 kg.ha⁻¹. A região noroeste do Rio Grande do Sul e oeste do Paraná apresentam condições ideais de cultivo, resultando em sementes de alta qualidade (Ribeiro & Oliveira, 2020; Wojahn, 2016). Além da produção em larga escala, o beneficiamento da chia abre caminho para a geração de subprodutos com alto valor agregado, com a sua comercialização em todo o território nacional.
Além de atender às exigências do mercado, a chia se alinha a uma pauta cada vez mais urgente: a sustentabilidade. Tal fato é devido ao aproveitamento integral da semente, onde nada se perde, valorizando seus subprodutos e transformando resíduos em novos produtos alimentícios, cosméticos ou até embalagens biodegradáveis através da economia circular. Esse aproveitamento integral também dialoga com a tendência plant-based, ao oferecer ingredientes naturais para formulações que substituem produtos de origem animal.
O beneficiamento da chia pode originar diferentes subprodutos, dentre eles a farinha de chia integral, óleo de chia e farinha de chia desengordurada (subproduto resultante da extração do óleo), como pode ser visto na Figura 1. Além disso, a mucilagem de chia também pode ser obtida, porém industrialmente isso ainda não acontece. Todavia, é na mucilagem que reside um dos maiores potenciais de inovação, com aplicações que vão muito além da alimentação convencional.

Figura 1 – Diferentes subprodutos originados da semente de chia.
Fonte: Autores.
A mucilagem de chia é um gel exsudado da semente de chia quando esta está imersa em água. Esse gel compõe até 8% da semente (Santos et al., 2023) sendo formado principalmente de fibras solúveis, além de conter uma pequena quantidade de proteína como parte integrante de sua estrutura que pode ser absorvida na interface óleo-água (L. A. Silva et al., 2022). As principais aplicações da mucilagem de chia tem sido em estudos científicos como substituto de gordura, ovo, glúten, emulsificante, estabilizador e fosfato, principalmente em produtos de panificação e produtos cárneos; como agente encapsulante em técnicas de micro e nanoencapsulação; no tratamento de efluentes; e como componente da formulação de cosméticos. Atualmente, a mucilagem de chia está se destacando em aplicações de administração de medicamentos e revestimentos de alimentos comestíveis, bem como para embalagens (Fernandes et al., 2020; Palezi et al., 2025; R. M. P. da Silva et al., 2025).
Da tradição maia às prateleiras modernas, a chia mostra que pequenos grãos podem gerar grandes transformações para a saúde, a economia e o meio ambiente. Além dos impactos ambientais positivos, sua cadeia produtiva também fortalece a economia agrícola, gerando renda para agricultores e ampliando o potencial de exportação do Brasil.
Em relação às perspectivas futuras, com a tendência plant-based cada vez mais instalada na sociedade, a chia aparece em alimentos que substituem ingredientes de origem animal e impulsiona o desenvolvimento de produtos sustentáveis e funcionais. Entretanto, desafios ainda persistem, como regulamentações específicas (novel food em alguns países), custos de produção e aceitação do consumidor para subprodutos pouco conhecidos.
Referências
- Egea, M. B., & Fernandes, S. S. (2025). Unlocking the Potential of Chia Intake in the Management of Metabolic Syndrome and its Risk Conditions: A Narrative Review. PLANT FOODS FOR HUMAN NUTRITION, 80(2). https://doi.org/10.1007/s11130-025-01331-w
- Fernandes, S. S., Romani, V. P., da Silva Filipini, G., & G. Martins, V. (2020). Chia seeds to develop new biodegradable polymers for food packaging: Properties and biodegradability. Polymer Engineering and Science, 60(9), 2214–2223. https://doi.org/10.1002/pen.25464
- Fernandes, S. S., Tonato, D., Mazutti, M. A., de Abreu, B. R., Cabrera, D. D., D’Oca, C. D. M., Prentice-Hernández, C., & Salas-Mellado, M. D. (2019). Yield and quality of chia oil extracted via different methods. JOURNAL OF FOOD ENGINEERING, 262, 200–208. https://doi.org/10.1016/j.jfoodeng.2019.06.019
- Hsieh, K. C., Lin, T. C., & Kuo, M. I. (2022). Effect of whole chia seed flour on gelling properties, microstructure and texture modification of tofu. Lwt, 154, 112676. https://doi.org/10.1016/j.lwt.2021.112676
- Palezi, S. C., Latorres, J. M., Fernandes, S. S., & Martins, V. G. (2025). Development of Vitamin C-Enriched Oral Disintegration Films Using Chia Mucilage. Processes, 13(1). https://doi.org/10.3390/pr13010250
- Ribeiro, I. Y. L., & Oliveira, C. M. de. (2020). VIABILIDADE DA PRODUÇÃO DE CHIA NO BRASIL. IV Encontro Internacional de Gestão, Desenvolvimento e Inovação, 4(1), 1–15.
- Santos, F. S. dos, Figueirêdo, R. M. F. de, Queiroz, A. J. de M., Paiva, Y. F., Moura, H. V., Silva, E. T. de V., Ferreira, J. P. de L., Melo, B. A. de, Carvalho, A. J. de B. A., Lima, M. dos S., Costa, C. C., Silva, W. P. da, & Gomes, J. P. (2023). Influence of Dehydration Temperature on Obtaining Chia and Okra Powder Mucilage. Foods, 12(3), 1–17. https://doi.org/10.3390/foods12030569
- Silva, R. M. P. da, Atanes, S. P., & Fernandes, S. S. (2025). Environmental Impact of Biodegradable Packaging Based on Chia Mucilage in Real Water Bodies. Processes, 13(8), 2381. https://doi.org/10.3390/pr13082381
- Silva, L. A., Sinnecker, P., Cavalari, A. A., Sato, A. C. K., & Perrechil, F. A. (2022). Extraction of chia seed mucilage: Effect of ultrasound application. Food Chemistry Advances, 1(March), 100024. https://doi.org/10.1016/j.focha.2022.100024
- Wojahn, R. E. (2016). VIABILIDADE AGRONÔMICA DO CULTIVO DA CHIA NO NOROESTE DO RIO GRANDE DO SUL.