Introdução
Os flavonoides são compostos bioativos, sendo um tipo específico de polifenol
encontrado em diversas frutas, vegetais, bebidas e flores. Sua estrutura química única
permite sua presença em muitas fontes alimentares comuns, incluindo chá-verde, vinho,
romãs e cúrcuma, além de exibirem uma ampla gama de atividades biológicas (Hassani et
al., 2023). Podem ser divididos em várias subclasses, com base em variações na
estrutura conforme apresentado pela Figura 1, sendo que a estrutura básica permite um
grande número de substituições diferentes nos anéis A, B e C. Conforme Moraes et al.
(2022), essas alterações na estrutura podem ser feitas através de esterificação,
hidroxilação, amidação, glicosilação, entre outras que modificam a polaridade, toxidade e
outras propriedades da molécula. As subclasses incluem flavonóis, flavanonas,
antocianinas, flavonas, isoflavonas e a subclasse mais comum, são os flavonóis (Rees;
Dodd; Spencer, 2018). Além disso, os flavonoides são encontrados, principalmente, na
forma glicosídica, ou seja, com moléculas de açúcar ligadas à sua estrutura (Huber;
Rodriguez-Amaya, 2008).
Figura 1. Estrutura química de diferentes grupos de flavonoides.
Fonte: Adaptado Jeong et al., 2022.
Sendo assim, a atividade biológica dos flavonoides depende, portanto, da sua
estrutura química, e mais precisamente, das diferenças nesta estrutura. Os flavonoides
possuem inúmeros benefícios para a saúde, incluindo propriedades anti-inflamatórias e
antioxidantes, efeitos antidiabéticos, atividades antivirais e antimicrobianas, efeitos
cardioprotetores e neuroprotetores, propriedades antialérgicas e anticancerígenas, além
de capacidade quelante e de eliminação de radicais livres (Morsy et al., 2025).
Os perfis de polifenóis variam bastante entre os alimentos; fatores pré e pós-
colheita (por exemplo, genótipo da planta, processamento de alimentos, armazenamento)
afetam drasticamente o teor de flavonoides nos alimentos (Rothwell et al., 2015). As
estimativas de ingestão de polifenóis variam amplamente, mas a ingestão média
provavelmente é de 900 mg /dia, já a ingestão média de flavonoides varia de 60 a 600
mg/dia entre diferentes padrões alimentares, de acordo com Del Bo’ et al. (2019). Chá
verde, frutas, vegetais, leguminosas e nozes contribuem significativamente para a
ingestão de polifenóis.
Ademais, os flavonoides são ingredientes essenciais em uma variedade de
produtos nutracêuticos. A principal atividade biológica dos flavonoides, que tem sido
amplamente estudada, é a sua atividade antioxidante. Esta pode prevenir danos
causados por radicais livres através da eliminação de espécies reativas de oxigênio
(ROS), ativação de enzimas antioxidantes, inibição de oxidases (Shen et al., 2022).
Devido aos seus diversos efeitos na saúde humana, os flavonoides são
considerados candidatos promissores para o desenvolvimento de alternativas eficazes
para a prevenção e o tratamento de doenças.
Mecanismos de ação antioxidante dos flavonoides
A atividade antioxidante dos flavonoides ocorre por mecanismos diretos e indiretos,
dentre os principais destaca-se a capacidade de neutralizar ROS e nitrogênio (RNS), que
são os principais responsáveis pelo estresse oxidativo celular. A presença de grupos
hidroxila (-OH) nos anéis aromáticos dos flavonoides permite a doação de hidrogênios ou
elétrons, estabilizando radicais livres altamente reativos (Guerrero et al., 2024).
Outro mecanismo importante é a quelagem de metais de transição, como ferro e
cobre, que catalisam reações de geração de radicais através dos ciclos de Fenton e
Haber-Weiss. Ao sequestrar esses íons, os flavonoides reduzem significativamente a
produção endógena de ROS (Santos et al., 2022).
Além disso, esses compostos modulam vias de sinalização celular responsáveis
pelo balanço redox. Estudos mostram que flavonoides podem inibir enzimas pró-oxidantes
(como xantina oxidase) e estimular enzimas antioxidantes endógenas, como superóxido
dismutase (SOD), catalase e glutationa peroxidase. Essa ação indireta amplia
significativamente a capacidade antioxidante do organismo, conferindo efeitos protetores
em longo prazo (Guerrero et al., 2024).
Importância dos flavonoides em relação à saúde
Os flavonoides são conhecidos por seus diversos benefícios à saúde humana. Sua
atuação no organismo está relacionada a uma série de efeitos protetores, tornando-os de
grande interesse na prevenção e tratamento de diversas condições de saúde (Jucá et
al.,2020). Segundo Santos et al., (2022), os flavonoides desempenham um papel
importante na saúde humana, oferecendo efeitos benéficos na prevenção de diversas
condições patológicas, como doenças cardiovasculares, diabetes, câncer e doenças
neurodegenerativas, devido às suas propriedades antioxidantes, anti-inflamatórias e
moduladoras do sistema imunológico.
Os flavonoides apresentam atividades anti-inflamatórias, sendo capazes de
modular a resposta imunológica do organismo. Eles atuam na redução da produção de
citocinas inflamatórias e na inibição de enzimas envolvidas na inflamação, como a COX-2
(ciclooxigenase-2). Esses efeitos são benéficos no tratamento de doenças inflamatórias
crônicas, como artrite reumatoide e doenças intestinais inflamatórias (Jucá et al.,2020).
De acordo com Kawabata; Yoshioka; Terao (2019), os flavonoides que chegam ao
cólon interagem com a microbiota intestinal inibindo o crescimento de vários patógenos e
aumentando gêneros benéficos, como Bifidobacterium e Lactobacillus; estes, por sua vez,
podem melhorar a saúde intestinal. Da mesma forma, os flavonoides melhoram a disbiose
microbiana na obesidade. Conforme o estudo de Anhê et al., (2017) o consumo de extrato
de cranberry rico em flavonoides inibe a inflamação, associada à obesidade induzida pela
dieta em camundongos, modulando a bactéria probiótica mucolítica gram-negativa,
Akkermansia muciniphila, que inibe a disfunção da barreira intestinal induzida por dieta
rica em gordura.
O estudo de Sansone et al. (2015), mostra que o consumo de uma bebida de cacau
com flavonóis contendo 900 mg totais por dia durante 1 mês apresentou uma redução de
4,4mmHg e 3,9mmHg na pressão arterial sistólica e diastólica, respectivamente. De forma
semelhante o estudo de Faridi et al. (2008) observou que o chocolate amargo rico em
flavonóis (821 mg de flavonóis) levou a uma redução na pressão arterial (sistólica: −3,2
mmHg; diastólica: −1,4 mmHg) 2 horas após o consumo em adultos com sobrepeso.
De acordo com Gao et al. (2025), os flavonoides possuem diversas aplicações
farmacêuticas e cosméticas, sendo utilizados em tratamentos e formulações voltadas à
saúde e estética devido às suas propriedades antioxidantes, anti-inflamatórias e
anticancerígenas, ajudam a proteger a pele contra o envelhecimento precoce, radiação
UV e danos causados pela poluição. Além disso, têm ação hidratante e podem auxiliar na
redução de manchas e na melhora da aparência da pele.
A extração eficiente dos flavonoides das plantas é fundamental para garantir que
seus benefícios sejam maximizados em produtos farmacêuticos e cosméticos. A escolha
de métodos de extração adequados é essencial para preservar suas propriedades
biológicas e garantir a obtenção de flavonoides de alta qualidade. Métodos como extração
com solventes, prensagem a frio e extração com CO₂ supercrítico são frequentemente
utilizados para obter os flavonoides de maneira eficiente (Santos et al., 2022).
Aplicações práticas e comerciais
Naturalmente presentes nos alimentos vegetais, os flavonoides podem ser
utilizados na indústria como aditivos, melhorando assim a qualidade nutricional de
produtos alimentícios. Na indústria de medicamentos, a atividade antioxidante dos
flavonoides tem sido pesquisada para o desenvolvimento de fármacos, visando o
tratamento de diversas doenças ou a venda de compostos isolados como, por exemplo,
as isoflavonas (Moraes et al., 2022). A aplicação de compostos fenólicos com ação
antioxidante contra radicais livres e envelhecimento cutâneo também tem se destacados
para formulações, já que os compostos ativos podem ser incorporados em cosméticos de
uso tópico (Henrique; Lopes, 2017).
A indústria e o comércio destes compostos bioativos tendem a crescer, ao passo
que incorporar os flavonoides em seus processos garante o desenvolvimento de produtos
mais sustentáveis, naturais e que contribuam para a saúde humana. Porém, ainda existe
o desafio de estudos mais complexos sobre a biodisponibilidade e absorção destes
compostos já identificados, bem como a investigação de plantas com potenciais
propriedades terapêuticas, e assim permitir o desenvolvimento de novas aditivos,
formulações e agentes terapêuticos (Jucá et al., 2020).
Considerações finais
Os flavonoides representam um dos grupos de compostos bioativos mais
relevantes encontrados na natureza, apresentando ampla distribuição em alimentos de
origem vegetal e forte potencial terapêutico. Seus mecanismos de ação antioxidante
envolvendo sequestro de radicais livres, modulação de enzimas antioxidantes e quelagem
de metais explicam grande parte de seus efeitos protetores no organismo humano. Esses
compostos desempenham papel essencial na prevenção de doenças cardiovasculares,
metabólicas, neurodegenerativas, inflamatórias e até mesmo em processos
carcinogênicos, conforme demonstrado por diversos estudos recentes.
Além dos benefícios diretos à saúde, os flavonoides têm ganhado espaço nas
indústrias farmacêutica, cosmética e alimentícia, sendo utilizados em formulações
destinadas à promoção do bem-estar, melhoria da qualidade nutricional e produtos de
cuidados com a pele. A crescente demanda por compostos naturais reforça a importância
do desenvolvimento de métodos eficientes de extração, bem como de pesquisas que
aprofundem o conhecimento sobre sua biodisponibilidade, metabolismo e segurança de
uso.
Apesar de seu vasto potencial, ainda existem desafios científicos a serem
superados, como a variabilidade estrutural entre subclasses, a influência de fatores
dietéticos na absorção e a necessidade de estudos clínicos de longo prazo. No entanto,
as evidências atuais confirmam que os flavonoides constituem importantes aliados para a
saúde humana, reforçando a necessidade de incentivar dietas ricas em alimentos
vegetais e o desenvolvimento de novas aplicações tecnológicas e terapêuticas baseadas
nesses compostos.
Assim, conclui-se que os flavonoides, devido à sua diversidade estrutural, suas
propriedades antioxidantes e suas múltiplas aplicações, permanecem como uma área
promissora para avanços científicos e para a inovação em produtos voltados à promoção
da saúde.
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