Introdução
Depressão e ansiedade afetam mais de 300 milhões de pessoas em todo o mundo, com uma clara predominância feminina, e esses problemas aumentaram nas últimas décadas e após a pandemia de COVID-19. Eles podem ser decorrentes de situações distintas, como ônus econômico, sobrecarga de trabalho e hábitos alimentares com excesso de consumo de ultraprocessados, reforçando ainda mais, a influência da dieta nos sistemas nervoso, imunológico e inflamatório. Esses transtornos também acarretam custos econômicos devido a despesas com saúde e perda de produtividade (Santos; Maran; Rodríguez-Urrutia, 2025).
Existem inúmeras intervenções disponíveis para o tratamento de problemas de saúde mental. Entretanto, são tratamentos longos e que podem causar efeitos colaterais indesejáveis como instabilidade emocional, alterações do sono e, até mesmo, dependência medicamentosa.
Dessa forma, uma alternativa aos medicamentos é o consumo de psicobióticos, bactérias probióticas que se destacam por promover benefícios à saúde mental, melhorando o estresse oxidativo e modulando o metabolismo do hospedeiro e sua função cerebral. Armirani et al. (2020) demonstraram que a suplementação de Lactobacillus spp., Bifidobacterium spp., Lactobacillus plantarum e Lactobacillus paracasei por indivíduos com problemas de saúde mental resultou em melhora significativa nos sintomas psicológicos pré-clínicos de ansiedade e depressão, por agirem na síntese e transporte de substâncias neuroativas, como o ácido gama-aminobutírico (GABA) e a serotonina, que atuam no eixo central do sistema intestino-cérebro.
Psicobióticos e sua atuação nos transtornos de ansiedade e depressão
Nos últimos anos, o termo “psicobióticos” tem sido usado para indicar probióticos que demonstram a capacidade de modular positivamente a saúde psiquiátrica e neuronal por meio da interação com a rede do eixo intestino-cérebro (Rocchetti et al., 2025).
De acordo com a FAO/WHO (2001), probióticos são microrganismos vivos que, quando administrados em quantidades adequadas, promovem benefícios à saúde do hospedeiro. Para que um alimento seja considerado probiótico, recomenda-se que contenha microrganismos viáveis em concentrações mínimas de 10⁶ UFC/g ou mL, garantindo ingestão diária entre 10⁸ e 10⁹ UFC. Diferentemente dos probióticos convencionais, os psicobióticos são definidos por seu potencial de influenciar desfechos neuropsicológicos, incluindo humor, resposta ao estresse e função cognitiva, enfatizando a atividade funcional em detrimento da identidade taxonômica (Bonatto., 2026).
Os psicobióticos mais estudados são pertencentes aos gêneros lactobacilos e as bifidobactérias cujos benefícios foram relatados por diversos estudos clínicos na última década (Rocchetti et al., 2025). Esses estudos relataram melhorias em parâmetros psicológicos, como ansiedade, estresse e sintomas depressivos, utilizando intervenções com probióticos avaliadas por instrumentos psicométricos validados (Reiter et al., 2020).
De acordo com Moshfeghinia et al. (2025), o uso de psicobióticos promoveu redução significativa dos sintomas de depressão e ansiedade em pacientes diagnosticados com transtornos depressivos, reforçando a hipótese de que a modulação da microbiota intestinal pode representar uma estratégia terapêutica adjuvante relevante no manejo dos transtornos psiquiátricos.
Cheng et al. (2019) destacaram que combinações de Lactobacillus helveticus R0052 e Bifidobacterium longum R0175 foram associadas à redução do estresse e da ansiedade em indivíduos saudáveis.
Ensaios clínicos realizados em animais, especialmente em camundongos, foram relatados por Kamal et al. (2024). Diferentes estirpes bacterianas mostraram resultados significativos contra diferentes distúrbios psicológicos. Em um estudo de seis semanas, Bifidobacterium longum 1714 e Bifidobacterium breve diminuíram os transtornos psicoativos em camundongos BALB/c naturalmente ansiosos. Em outro estudo apresentado por Tian et al. (2021), Pediococcus acidilactici CCFM6432 promoveu a inibição de comportamentos semelhantes à ansiedade induzidos pelo estresse em camundongos cronicamente estressados em cinco semanas.
Shafie et al. (2022) avaliaram o efeito dos probióticos nas vias de sinalização de genes envolvidos na depressão na cidade de Teerã, no Irã, e evidenciaram que os probióticos reduzem os transtornos do sistema nervoso, como a ansiedade e depressão. Esses pesquisadores destacaram, ainda, que entre as bactérias Lactobacillus acidophilus e Bifidobacterium lactis são amplamente utilizadas em formulações alimentícias como iogurte e sorvete, e podem atuar positivamente no eixo intestino cérebro (Quadro 1).
Quadro 1: Estudos recentes realizados com psicobióticos e seus principais resultados
| Título do trabalho/Autor | Probiótico usado | Principais resultados obtidos |
| Efeito dos probióticos no humor e na qualidade do sono em mulheres pós-menopáusicas: um ensaio clínico randomizado triplo-cego
Shafie et al. (2022) |
B. lactis, L. acidophilus | Redução do estresse e ansiedade após consumo de iogurte por 6 semanas. |
| Intuição: Um ensaio clínico randomizado, triplo-cego e controlado por placebo sobre o uso de probióticos para sintomas depressivos.
Chahwan et al. (2019) |
B. bifidum W23, B. lactis W51, B. lactis W52, L. acidophilus W37, L. brevis W63 | Melhora no quadro de depressão, ansiedade e estresse, após 8 semanas pelo grupo que recebeu sachês com probióticos liofilizados. |
| Probiótico Bifidobacterium longum NCC3001 reduz os níveis de depressão e altera a atividade cerebral: um estudo piloto em pacientes com síndrome do intestino irritável.
Pinto-Sanchez et al. (2017) |
Bifidobacterium longum NCC3001 | Diminuição da depressão e ansiedade entre 6 e 10 semanas no grupo de indivíduos selecionados que recebeu sachês com probióticos. |
| Efeitos de uma dieta rica em prebióticos versus suplementos probióticos versus simbióticos na saúde mental adulta: O ensaio clínico randomizado “Gut Feelings”
Freijy et al. (2023) |
Bifidobacterium bifidum (Bb-06);
Bifidobacterium animalis subsp. lactis (HN019) Bifidobacterium longum (R0175); Lactobacillus acidophilus (La-14); Lactobacillus helveticus (R0052); Lactobacillus casei (Lc11) Lactobacillus plantarum (Lp-115) Lactobacillus rhamnosus (HN001) |
Diminuição da ansiedade e depressão após consumo de cápsulas por 8 semanas pelo grupo probiótico. |
| Lactobacillus plantarum DR7 alivia o estresse e a ansiedade em adultos: Um estudo randomizado, duplo-cego e controlado por placebo
Chong et al. (2019) |
Lactobacillus plantarum DR7 | Diminuição de ansiedade e estresse por 12 semanas, pelo consumo de sachês contendo o probiótico liofilizado pelo grupo selecionado. |
| O consumo de probióticos aliviou os sintomas de estresse e ansiedade humanos, possivelmente ao modular o potencial neuroativo da microbiota intestinal
Ma et al. (2021) |
Lactobacillus plantarum P8 | Diminuição do estresse e ansiedade por 12 semanas, após consumo de sachês contendo probiótico. |
Fonte: Autores.
De modo geral, Ross (2023) concluiu que as evidências sugerem que estirpes específicas de probióticos podem reduzir os sintomas depressivos e a ansiedade, e os sintomas podem ser minimizados por meio de um ou mais mecanismos de ação possíveis, incluindo o impacto na síntese de neurotransmissores como serotonina e GABA, a modulação de citocinas inflamatórias ou o aumento das respostas ao estresse por meio de efeitos sobre os hormônios do estresse e o eixo HPA (eixo hipotálamo-hipófise-adrenal) (Figura 1).
Figura 1: Mecanismo de ação do probiótico no eixo intestino-cérebro.

Fonte: Imagens geradas por IA (Chat GPT 5.5) com base prompt autoral baseado no texto acima de Ross (2023).
Em relação ao tempo de intervenção, verificou-se melhor resposta em períodos de aproximadamente oito semanas para sintomas depressivos e superiores a quatro semanas para ansiedade, o que sugere que a modulação intestinal pode ocorrer de maneira relativamente rápida, embora os efeitos sustentados a longo prazo ainda permaneçam pouco esclarecidos. Resultados obtidos no trabalho de Lourenço (2021) confirmam o tempo mencionado acima, quando são realizadas análises e avaliados tempos de intervenção.
Embora os psicobióticos possam oferecer benefícios terapêuticos no tratamento da depressão e da ansiedade, são necessárias mais pesquisas, principalmente estudos em humanos, para melhor caracterizar seu modo de ação e compreender a dosagem ideal no contexto de intervenções nutricionais.
Existem boas perspectivas para terapias complementares promissoras no tratamento da depressão e ansiedade, especialmente em associação ao tratamento convencional. Contudo, ainda são necessários estudos clínicos mais homogêneos, a longo prazo, padronização das estirpes utilizadas e inclusão de biomarcadores inflamatórios e neuroquímicos para confirmação dos mecanismos de ação e definição de protocolos terapêuticos mais precisos.
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Considerações finais e perspectivas
O uso de psicobióticos sinaliza para um futuro muito promissor. Apesar dos desafios e limitações, os estudos disponíveis apontam para um potencial benefício clínico dessas intervenções como complemento ao tratamento convencional da depressão e ansiedade. Dessa forma, futuros estudos clínicos randomizados, com maior padronização metodológica, acompanhamento prolongado e utilização de biomarcadores objetivos, são necessários para consolidar a eficácia terapêutica e estabelecer protocolos seguros e reprodutíveis para aplicação clínica.
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